segunda-feira, 7 de maio de 2012

Entre hipócritas e sábios


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Por Redação - Em ArtigoDestaques - 5/mai/2012

Cícero, reconhecidamente o maior orador de todos os tempos, tinha “a mais
fluente língua da história humana”. Sua desgraça foi tentar ser filósofo e
político ao mesmo tempo. Como filósofo, via geralmente os vários lados de
uma questão. Como político, era forçado a tomar partido de um só lado.
Assim, não sabendo que lado tomar, dissimulava. O problema foi saber se, na
guerra civil romana, tomaria o partido de Pompeu ou de César. Incapaz de
tomar uma decisão coerente, proferiu brilhantes discursos, ora em favor de
um, ora em favor de outro. Sua hipocrisia lhe fez ganhar dois inimigos.
O filósofo grego Hegesias, em sua busca tateante da verdade, concluiu que a
vida era um engano trágico, e a morte, o dom supremo. Por isso, dedicou sua
vida à pregação do ideal da morte, organizando clubes de suicidas e
induzindo muitos jovens ao suicídio. Quanto a ele mesmo, viveu até a idade
de oitenta anos. Quando lhe perguntavam por que não praticava o que pregava,
ele dissimulava e dizia que, se morresse, ninguém tomaria o seu lugar para
ensinar o prazer da morte. Era um hipócrita.
Eis, acima, dois exemplos de hipócritas clássicos. O que define um hipócrita
tem raízes históricas. O termo vem do teatro grego, cujos atores
representavam com uma “hypokrités” ou máscara. Por definição, o hipócrita é
um impostor, alguém que finge e simula; é um falso. Sua máxima é: “Faça o
que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Assim, em toda falsa devoção há um
hipócrita de plantão.
Dizem que só havia um tipo de homem que Sócrates odiava: o hipócrita. Ele
tinha prazer em denunciar os que diziam uma coisa mas viviam outra, e
especialmente aqueles que pretendiam ser sábios, quando não passavam de
tolos. Ninguém aborrecia mais a Jesus que os fariseus hipócritas. Por isso,
Jesus orientava as pessoas que não fossem como os tais, que viviam da mera
aparência religiosa e cuja devoção objetivava apenas a serem vistos e
louvados pelos homens.
Não há sabedoria na hipocrisia. O sábio não pode ser hipócrita, nem o
hipócrita pode ser sábio. De fato, penso que ninguém aprecia os hipócritas e
cada um de nós, de alguma forma, gostaria de ser sábio. O hipócrita nem é
tão esperto quanto imagina. Por isso, também devemos olhá-lo com olhos de
suspeita e procurar ouvir o sábio com atenção. Porque a vida e a felicidade
podem depender disso.
O povo brasileiro parece ter se acostumado com a hipocrisia da classe
política, principalmente em tempos de funcionamento de CPI para apurar atos
de corrupção. Prometem apurar tudo, expor os ilícitos e punir os culpados,
mas jamais conseguem se livrar da pecha de que tudo “termina em pizza”.
Por ocasião da instalação da CPI no Congresso Nacional para investigar o
bicheiro Carlinhos Cachoeira, quando foi divulgada a lista dos parlamentares
integrantes da mesma, soubemos pela imprensa que o bicheiro em questão, ao
tomar conhecimento dos nomes que o investigariam, soltou uma sonora
gargalhada. Quanta sabedoria ou hipocrisia esconde uma gargalhada dessa? Que
mensagem esse riso solto está enviando ao povo brasileiro?
Noutra ponta, as promessas proferidas por políticos, principalmente em
tempos de campanha eleitoral, já fazem parte da cultura da hipocrisia.
Geralmente não nos surpreendemos mais em ouvir que o “sim” de alguns sobre
um assunto se transformou depois em “não” sobre o mesmo assunto, como se
fosse possível uma mesma fonte jorrar água doce e salgada.
Muito melhor é ser sábio. Do latim sapidu, ou “o que tem sabor”, refere-se a
pessoas que são ajuizadas e prudentes. Em um sentido mais amplo, o sábio é
erudito, versado; é aquele que tem sabedoria. Portanto, compete ao político
ser sábio em suas propostas; e importa ao eleitor ser sábio em suas
escolhas.
Decerto, há dois tipos de homens: o sábio e o hipócrita. Sábio é aquele que
trilha caminhos direitos, cujo sim é sim, cujo não é não. Tal como Jesus
ensinou: “Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar
vem do maligno” (Mt 5.37). O sábio, se erra, é honesto o suficiente para se
arrepender e confessar que errou, sem esperar primeiro ser apanhado para, só
depois, assumir seu erro.
O hipócrita diz sim e não, dissimuladamente; só confessa malfeitoria quando
é descoberto. Do político ao bandido comum, essa tem sido uma imagem normal
na vida nacional: pessoas chorando diante das câmeras, não de
arrependimento, mas de remorso, tão somente porque foram pegas nas suas
hipocrisias.
Cada pessoa tem de decidir se deseja viver entre os hipócritas ou entre os
sábios, pois seu futuro pode depender disso. “Quem anda com os sábios será
sábio, mas o companheiro dos insensatos se tornará mau” (Pv 13.20).
O princípio da sabedoria consiste em temer a Deus e andar segundo a Sua
Palavra, não pela esperteza humana. Ande com os sábios.
Samuel Câmara
samuelcamara@boasnovas.tv
Pastor da Assembleia de Deus em Belém

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