1. SAUDAÇÃO — 1.1,2
Paulo sempre teve uma maneira peculiar de iniciar suas cartas sem fugir ao estilo da
época. A carta inicia com o nome do escritor, depois o do destinatário e, finalmente, a
saudação. Paulo toma o estilo convencional de seu tempo e o coloca num nível mais
elevado, porque seu tratamento é para irmãos na fé.
1.1. Sua identificação pessoal
— v. 1
Ele começa, como de praxe na época, com o primeiro nome, "Paulo", e, a seguir,
apresenta os títulos mais importantes, que lhe asseguram uma autoria apostólica. Após
iniciar com o nome, Paulo designa a si mesmo "servo de Jesus Cristo". Um título que todos
os verdadeiros cristãos possuem, se realmente servem ao Senhor Jesus Cristo.
1.2. Sua identificação ministerial
— v. 1
Apóstolo é o título que ele mais usa em referência a si mesmo. O Novo Testamento
apresenta três significações para esse título:
a) Dá a idéia de um mensageiro (2 Co 8.23);
b) Quando Paulo e Barnabé são enviados pela igreja de Antioquia para pregar, o
sentido da palavra "apóstolo" toma o significado de enviado (At 14.4-14);
c) A significação de "apóstolo" nessa carta é a de embaixador de Cristo (2 Co 5.20).
Em princípio, embaixador referia-se quase que exclusivamente aos 12 apóstolos,
nomeados e enviados por Jesus e feitos testemunhas oculares de sua ressurreição. Paulo não
foi um dos 12, mas afirma convictamente ter sido enviado por Cristo e se denomina, em
várias de suas cartas, como "apóstolo de Jesus Cristo" (Rm 1.1; 1 Co 1.1; 2 Co 1.1; Gl 1.1;
Ef 1.1; 1 Tm 1.1; Tt 1.1). Paulo se diz apóstolo de Jesus Cristo não só no sentido de
pertencer a Ele, mas também no de ser enviado por Ele como embaixador a terras
estrangeiras.
1.3. Sua saudação aos destinatários
— v. 1
Após apresentar-se, Paulo faz sua saudação aos "santos que estão em Éfeso, e fiéis
em Cristo Jesus". A designação da palavra "santos" aos crentes é freqüente no Novo
Testamento. Essa palavra aparece outras vezes nessa mesma carta com o sentido especial de
"separados". Os santos são "os separados" para o serviço de Deus. A palavra tem sentido
ativo, isto é, diz respeito aos crentes santificados e separados da vida do mundo.
1.4. O sentido da saudação cristã
— v. 2
No verso 2 encontramos duas outras palavras muito usadas nas saudações
apostólicas, que são "graça e paz". No mesmo versículo está a procedência dessa expressão:
"da parte de Deus nosso Pai e da do Senhor Jesus Cristo". Os judeus usavam apenas a
palavra
shalom (paz), mas os cristãos primitivos acrescentaram-lhe mais uma palavra —
graça, e passaram a se cumprimentar com "graça e paz", dando uma significação singular à
saudação cristã. Graça expressa o favor soberano de Deus para os homens, como fonte de
todas as bênçãos; paz, o ato reconciliador do homem com Deus por meio de Jesus Cristo.
Graça e paz são dádivas, tanto do Pai como do Filho.
2. BÊNÇÃOS ESPIRITUAIS EM CRISTO — 1.3
2.1. A fonte das bênçãos
— v. 3
"Bendito o Deus e Pai". A palavra "bendito" tem um sentido exclusivo e singular,
porque restringe-se a Deus. Só Ele é digno de ser bendito. Porém, os homens tornam-se
benditos quando recebem as bênçãos da parte desse Deus bendito. O vocábulo indica que o
crente pode usar palavras sobre Deus que evidenciem suas dádivas. O uso dessa expressão
pelo apóstolo no início da carta surge como uma canção oferecida a Deus por suas grandes
bênçãos. É uma forma de louvor. Paulo estava cheio da graça divina ao escrever essa carta,
por isso brotavam de seus lábios muito louvor e adoração. Por três vezes, nos versos 6, 12 e
14 do mesmo capítulo, o apóstolo ensina que a finalidade de todas as coisas que Deus
realiza é para louvor de sua glória.
"... o qual nos abençoou", ou como está noutra tradução, "o qual nos tem abençoado".
A primeira versão, "nos abençoou", pretérito perfeito simples, situa no tempo passado uma
ação completa e acabada; a segunda, "nos tem abençoado", pretérito perfeito composto,
indica a ação repetida que continua, do passado até o presente. Tanto uma quanto outra
apontam para uma fonte de onde jorram todas as bênçãos espirituais.
2.2. Bênçãos cristocêntricas
— v. 3
"... com todas as bênçãos espirituais... em Cristo" é outra forte expressão que nos
revela serem cristocêntricas todas as bênçãos recebidas. Todas partem dEle e se manifestam
nos crentes. As palavras "em Cristo" indicam o relacionamento íntimo do crente com Jesus.
A expressão "bênçãos espirituais" nos faz entender que todas as bênçãos, quer materiais ou
espirituais, procedem da mesma fonte — Cristo. Muitas bênçãos são dadas na forma
material, mas estão diretamente relacionadas com a nossa vida espiritual.
2.3. A sublimidade das bênçãos espirituais — V. 3
"... nos lugares celestiais" é uma expressão que denota a sublimidade da vida cristã,
ou seja, o nível mais elevado no qual fomos colocados. Se somos espirituais, ainda que no
corpo mortal, nossas vidas são espirituais. Estamos no mundo, mas não somos do mundo (Jo
17.14,15). Paulo chama a atenção para o fato de que, assim como Cristo está assentado à
destra do Pai nos lugares celestiais (v. 20), também nós, em Cristo, já estamos como que
levantados deste mundo. É uma posição "em Cristo" e é um estado "em Cristo". Portanto,
nossa vida neste mundo é cristocêntrica. Alguns intérpretes preferem "bens celestiais" em
vez de "lugares celestiais". Entretanto, a colocação da palavra "lugares" indica uma posição
espiritual elevada em que o crente regenerado é posto: a partir do momento da regeneração,
o crente se torna uma nova criatura (2 Co 5.17), vivendo numa nova dimensão espiritual—
"em Cristo Jesus".
3. ESCOLHIDOS PELO PAI — 1.4-6
3.1. O sentido das palavras "eleger" e "escolher"
— v. 4
Nessa passagem temos a participação do Pai celestial na nossa redenção, como o
texto mesmo indica: "... nos elegeu nele antes da fundação do mundo". As palavras eleger e
escolher têm o mesmo sentido. A forma do verbo escolher no grego está no passado, e o
significado literal da expressão "nos elegeu (escolheu) nele" dá uma idéia mais forte, que é:
"escolheu-nos para si mesmo". Doutra forma, o Pai nos "elegeu em Cristo ("nele") para
sermos seus.
3.2. A questão do ato soberano de Deus
— v. 4
Há quanto tempo Ele nos escolheu? "... antes da fundação do mundo". O ato de
escolher-nos antes de todas as coisas revela a presciência de Deus. A questão da presciência
divina deu origem à doutrina da predestinação absoluta. Algumas correntes de interpretação
têm procurado defender o ato soberano de Deus como capaz de escolher a quem quer, como
e quando quer. É claro que o sentido da palavra "escolher" nos obriga a raciocinar, pois o
sentido desse vocábulo implica separar uns e deixar outros. Por sua presciência, Deus
conhece os que hão de se salvar e os que se perderão. Porém, esse fato não dá direito a nós,
objetos ou não dessa eleição, de julgar ou delimitar a ação da soberania de Deus.
Entendemos a vontade soberana de Deus para fazer e desfazer, salvar ou deixar de salvar,
escolher ou não o que lhe apraz, mas não podemos aceitar a idéia de que Deus possa, por
causa de sua soberana vontade, rejeitar um pecador arrependido. A vontade soberana de
Deus tem seu princípio na justiça, e a escolha dos crentes é feita segundo a obra expiatória
de Cristo Jesus, seu Filho, que cumpriu a justiça exigida para dar oportunidade a todos
quantos o aceitam por Salvador e Senhor. Assim como a pregação do Evangelho engloba
todas as criaturas na face da terra, também
e global o alcance da vontade soberana de Deus
na escolha dos salvos. Nossa fé em Cristo e a aceitação de sua obra redentora são a base de
nossa eleição. Assim como o povo de Israel foi escolhido em Abraão, os crentes
neotestamentários foram escolhidos em Cristo.
3.3. O destino dos crentes feito na eternidade
— v. 5
"E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo". Esse versículo indica que
o destino foi determinado antes. A palavra "predestinar" mostra que o destino dos eleitos foi
feito na eternidade. A expressão "filhos de adoção por Jesus Cristo" apresenta a posição
atual dos crentes. No passado éramos apenas criaturas de Deus, afastadas da sua comunhão,
mas pela fé em Cristo (Gl 3.6) fomos recebidos como filhos e conquistamos a posição de
filhos legítimos (Jo 1.12).
3.4. Escolhidos para filhos de Deus
— v. 5
Fomos feitos filhos de adoção "para si mesmo". Isso revela o passado e o presente
dos crentes. Todos fomos feitos e criados para viver em comunhão com Deus, como filhos
de Deus (Gn 1.26; At 17.28). Pelo pecado, tal privilégio se perdeu, mas pela graça de Deus,
em Cristo e através dEle, fomos restaurados à filiação (Jo 1.12). Esse ato divino foi feito em
Cristo segundo "o beneplácito de sua vontade", isto é, a vontade soberana de Deus e o seu
grande amor (Rm 5.8) promoveram essa eleição. Todos os que nascem de novo (Jo 3.3)
nascem segundo o supremo propósito divino para viver e servir a Deus.
3.5. Escolhidos por causa do Amado
— v. 6
"Para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado", v. 6.
Nesse versículo, a segurança de nossa aceitação como filhos de Deus está no Amado, que é
Cristo. Ele é o Filho amado de Deus (Mt 3.17; 17.5), e em Colossenses 1.13 temos uma
expressão paralela que afirma ser Jesus "o Filho do seu amor". A graça de Deus se
manifestou a nós por causa do seu amado Filho — Jesus!
4. REMIDOS PELO FILHO — 1.7-12
4.1. Jesus, o Redentor
— v. 7
A parte da redenção compete ao Filho de Deus, Jesus Cristo. Ele é o nosso Redentor.
Para entendermos este assunto devemos conhecer o sentido da palavra redenção, que
significa comprar outra vez. Cristo pagou o preço de nossa redenção. Visto que Ele foi o
preço dessa redenção, fomos libertados para Deus (Mt 20.28). O homem não pode redimirse
por outro meio que não seja a obra expiatória de Cristo. Ser redimido é a necessidade
básica que o pecador tem da graça de Deus.
4.2. O fato da redenção
— v. 7
"... em quem temos a redenção". A redenção está ligada à idéia de sacrifício com
derramamento de sangue (Lv 17.11; Hb 9.22). A morte de Jesus com o derramamento do
seu precioso sangue resultou na remissão de nossos pecados. O efeito da redenção é a nossa
justificação (Rm 5.1). Todos os pecados foram expiados pelo sangue de Cristo, como diz
ainda o versículo: "... pelo seu sangue, a remissão das ofensas...". A remissão dos pecados
foi um ato do amor grandioso de Deus, conforme registra a Escritura em continuação: "...
segundo as riquezas da sua graça". O acesso às riquezas da graça de Deus é precedido pela
remissão dos pecados, que deve ter ação constante contra os pecados involuntários que
cometemos, pois se a pena do pecado foi apagada na cruz, temos agora de vigiar contra o
poder do pecado que procura impedir nossa comunhão verdadeira com Deus.
4.3. O efeito da redenção
— v. 8
"Que ele fez abundar para conosco". A abundância das "riquezas da sua graça" (v. 7)
terá sua efetivação mediante o perdão dos pecados, "em toda a sabedoria e prudência". O
sentido dessa expressão indica o pleno conhecimento que todo crente deve ter de si mesmo,
de sua salvação, de seu estado moral e de suas relações com Cristo. A forma de vida que
adotamos como crentes é que determina a disposição de Deus para que abundemos nas
"riquezas da sua graça". A bênção da redenção no verso oito é estritamente divina, sem
nenhum mérito humano.
4.4. A revelação do mistério da redenção
— v. 9
"Descobrindo-nos o mistério da sua vontade". Qual será esse mistério? Qual é o
mistério da sua vontade descoberto hoje? É a salvação eterna em Cristo Jesus, revelada
como o "mistério da piedade" (1 Tm 3.16). Esse mistério glorioso "se fez carne" na pessoa
de Jesus Cristo (Jo 1.14).
4.5. A dispensação da redenção
— v. 10
"... dispensação da plenitude dos tempos". A palavra "dispensação" significa
administração. O Novo Testamento emprega essa palavra para referir-se às diferentes
administrações das bênçãos de Deus. A Bíblia fala de sete dispensações, e cada uma
eqüivale a um período especial em que Deus administrou sua economia na terra. No grego, a
palavra "dispensação" é
oikonomia e dela deriva a palavra "economia". No uso bíblico,
dispensação é a administração divina sobre todas as coisas criadas. O sentido literal é a
administração dos assuntos de uma casa.
4.6. A plenitude dos tempos da redenção
— v. 10
"Plenitude dos tempos" é uma expressão que indica o fim de uma época ou de um
período em que Cristo colocará cada coisa no seu lugar, e tudo quanto Deus planejou em
Cristo, segundo o seu eterno propósito, alcançará completa realização. Nos versículos
anteriores, Cristo completou a obra que tinha que fazer em relação à salvação da
humanidade; completada toda a obra, Deus Pai reunirá "em Cristo todas as coisas". A
expressão "todas as coisas" inclui "tanto as que estão nos céus como as que estão na terra"
(Cl 1.16-19) e devem ser reunidas em Cristo. TUDO deve ser renovado e restaurado em
Cristo. O sentido da palavra "reunir" é recapitular, ou somar em um, ou unir sob uma
cabeça. E o que Deus fará! Um dia Deus juntará em Cristo todos os remidos pelo seu
sangue. A redenção efetuada por Cristo inclui o céu e a terra, quando Ele restabelecerá tudo
para uma nova vida, um novo reino espiritual e eterno, em que os ímpios e os demônios
serão lançados fora da presença de Deus para sempre (Ap 21.8). A expressão "juntará todas
as coisas em Cristo" não se limita apenas à Igreja arrebatada, mas refere-se também a todo o
universo. A parte final do versículo — "tanto as que estão nos céus como as que estão na
terra" — inclui toda a criação. Homens e anjos, absolutamente tudo há de encontrar seu fim
no grande vitorioso: JESUS (Cl 1.15,16).
4.7. A grande bênção da redenção— v. 11
"Nele, digo, em quem também fomos feitos herança". O direito à herança é
alcançado, não por mera casualidade nem por méritos humanos, mas pela graça de Deus,
pelo cumprimento do seu propósito, tornando-nos aptos para receber esta gloriosa bênção—
"feitos herança" — do Senhor. No Antigo Testamento o povo de Israel era a herança de
Deus, mas perdeu esse direito por sua incredulidade. Em seu lugar, isto é, em Cristo, fomos
feitos herança sua. O texto indica que nos fez herança dEle, conquistada no Calvário por Ele
e para Ele. Agora somos co-herdeiros com Cristo da herança que Deus nos tem preparado
na eternidade, segundo o seu eterno propósito.
4.8. A predestinação no propósito da redenção
— v. 11
"... havendo sido predestinados conforme o propósito daquele que faz todas as
coisas". A colocação da palavra "predestinação" nesse texto tem dado margem a uma
interpretação errada sobre a questão da soberania de Deus. O fato da soberania de Deus é
incontestável, mas o resultado proposto por muitos intérpretes é injusto, pois torna este
Deus, soberano em sua vontade, injusto e incoerente com sua própria Palavra. Deus é
soberano e faz o que lhe apraz, mas Ele é justo e imparcial, dando a todos os homens a
mesma oportunidade. Entretanto, Deus conhece aqueles que lhe servem e os que não
querem servi-lo. O significado da palavra "predestinar" é estabelecer o destino antes. Deus
estabeleceu o destino de todos os que aceitaram a Cristo como Senhor e Salvador para
pertencerem à herança divina. Em Romanos 8.28, a Escritura diz que somos "chamados por
seu decreto". O destino dos crentes em Cristo está predestinado automaticamente para a
salvação. O livre-arbítrio das pessoas indicará o seu destino escolhido. Na aceitação ou
rejeição da obra de Cristo se cumprirá a soberana vontade de Deus. Ele conhece cada ser
humano, em todos os tempos, e não se esquece de nenhum detalhe. Conhece os milhões e
milhões de corações livres para decidirem sobre suas próprias vidas, e Ele sabe quais e
quantas aceitarão sua vontade divina.
4.9. A soberania do conselho da vontade divina na redenção— vv. 11,12
A gloriosa esperança dos crentes está no fato de que Deus fez tudo "segundo o
conselho da sua vontade" (v. 11). Esse conselho indica a Trindade constituída do Pai, do
Filho e do Espírito Santo decidindo o destino dos homens. As palavras "predestinados",
"propósito", "conselho" e "vontade" estão em íntima relação e mostram claramente toda a
soberania de Deus. O fim desse propósito divino revela-se no verso 12, quando diz que
alcançamos essas bênçãos "para louvor da sua glória".
4.10. A promessa da redenção para judeus e gentios
— v. 12
As palavras finais do versículo dizem: "... nós, os que primeiro esperamos em
Cristo". A quem Paulo está se referindo? Aos judeus, visto que ele mesmo era judeu. A
colocação da frase indica o seu estado anterior quando desconhecia a Cristo. Paulo
estabelece aqui o contraste entre os judeus e os gentios para mostrar que, tanto uns quanto
outros, têm o mesmo direito de posse em Cristo. Por outro modo, Paulo designa os judeus
("nós") que esperavam a promessa da primeira vinda de Jesus (Is 53) quando diz: "... nós, os
que primeiro esperamos". Depois, no verso 13, ele se dirige aos gentios convertidos ("vós")
que têm recebido o "Espírito Santo da promessa". Portanto, judeus e gentios têm os mesmos
direitos e privilégios em Cristo Jesus, nosso Senhor.
5. SELADOS COM O ESPÍRITO SANTO — 1.13,14
O verso 13 diz literalmente: "... e, tendo nele também crido, fostes selados com o
Espírito Santo da promessa". Aqui Paulo inclui tanto judeus como gentios na participação
da promessa do Espírito Santo. A expressão inicial "tendo nele crido" refere-se naturalmente
a Cristo, e o pronome "vós" indica os que haviam crido em Cristo. No versículo 12 Paulo
usou o pronome "nós" para referir-se aos judeus, e no 13, o pronome "vós" para referir-se
aos gentios participantes da mesma bênção.
5.1.0 ministério do Espírito Santo na redenção— w. 13,14
Os dois versículos apresentam o ministério do Espírito Santo revelando-nos que, sem
a participação dEle para promover a fé em Cristo (Jo 16.8-10), a salvação seria incompleta.
O Pai a planejou, o Filho a providenciou e o Espírito Santo a aplicou. E a terceira pessoa da
Trindade quem nos leva a nos apropriarmos dessa fé em Cristo.
5.2. O selo da redenção
— v. 13
"... fostes selados". O ato de selar tem o significado de marcar alguma coisa. É
publicar o direito de posse sobre o objeto selado. Quando cremos em Jesus, o Espírito Santo
procura assegurar seu direito de posse sobre nós, não importa a classe, raça ou língua. Em
Cristo tornamo-nos um só povo, tendo a mesma marca — o Espírito Santo. Várias são as
razões pelas quais se usa um selo. Primeira, para certificar e confirmar como verdadeira
alguma coisa. Segunda, para assinalar propriedade particular. Terceira, para assegurar
direito de posse. O testemunho desse selo nos crentes se encontra em várias passagens
bíblicas, como Romanos 5.5; 8.16 e 1 João 5.10.
5.3. A identificação do selo como promessa — v. 13
"... com o Espírito Santo da promessa" é uma expressão que indica a promessa divina
feita tanto no Antigo como no Novo Testamento. A promessa da operação do Espírito Santo
em nós, sobre nós, ao redor e dentro de nós explica o sentido do versículo 13. O fruto do
Espírito (Gl 5.22) é o resultado vibrante e visível do selo do "Espírito Santo da promessa"
nos crentes.
5.4. O penhor da redenção
— v. 14
"O qual é o penhor da nossa herança". Outra vez fala do Espírito Santo. A palavra
penhor tem o sentido de alguma coisa de valor dada para assegurar o direito de posse. A
continuação do verso — "para redenção da possessão de Deus" — aclara o 13. Notemos que
a possessão espiritual é recíproca, pois tanto é nossa quanto é de Deus. Temos posse do
Espírito Santo, e essa possessão assegura o mesmo direito a Deus — somos dEle! Nossa
herança é ampla, pois a temos em parte aqui na terra, como a temos no Céu, e o Espírito
Santo em nós é direito à herança prometida no Céu.
6. PRIMEIRA ORAÇÃO DO APÓSTOLO PAULO —1.15-23
Nesses versículos, Paulo, com coração devoto, lembrando-se de seus leitores, orando
e agradecendo a Deus por eles, numa demonstração do seu espírito altruísta e intercessório,
ensina-nos uma grande lição. Nos versos 3 a 14 do mesmo capítulo, nossa posição em Cristo
é assegurada pelas três bênçãos principais que emanam de Deus:
fomos eleitos em Cristo
para sermos santos e irrepreensíveis;
fomos remidos pelo seu sangue; e fomos selados com o
Espírito Santo até o dia em que corpo, alma e espírito sejam plenamente livres para o gozo
eterno.
Depois que Paulo mostrou essas três bênçãos divinas, orou pelos efésios, impelido
pelo grande amor que tinha para com aqueles irmãos na fé. Orou pelo crescimento espiritual
da igreja e, no verso 16, disse ainda: "Não cesso de dar graças a Deus por vós".
6.1. Dois aspectos da vida de oração de Paulo
— v. 16
Dois aspectos da vida de oração do apóstolo são destacados no versículo 16. Em
primeiro lugar, sua constância na oração e o contínuo apelo aos crentes para que orassem
sem cessar (Rm 12.12; Ef 5.18; Cl 4.2; 1 Ts 5.17). O segundo aspecto de sua oração está no
agradecimento. Ele ensinou à igreja que a intercessão deve estar acompanhada de louvores
ao Senhor (Ef 5.19; Fp 4.6; Cl 3.15-17; 4.2; 1 Ts 5.18).
6.2. A oração de intercessão pelos crentes de Éfeso
— v. 16
A intercessão na oração é eficaz em seus resultados e denota um espírito altruísta e
desprendido de si mesmo. Paulo preocupava-se constantemente com o nível espiritual dos
crentes em Éfeso, por isso, mesmo estando numa prisão em Roma, intercedia por aqueles
irmãos.
6.3. Três pedidos especiais na oração do apóstolo— vv. 17,18
A oração do "apóstolo das gentes" teve três pedidos especiais para os crentes da
igreja em Éfeso. Ele começa com as palavras [que Ele] vos dê" (v. 17) e apresenta a seguir
os três pedidos. Primeiro, "o espírito de sabedoria". Segundo, "[o espírito] de revelação".
Terceiro, que lhes fossem "iluminados os olhos do... entendimento".
6.3.1. O primeiro pedido:
"Para que... vos dê... o espírito de sabedoria" (v. 17)
A palavra "espírito" nesse versículo refere-se ao espírito humano, não a outro espírito
(Rm 1.9; 2 Co 7.13; Ef 4.23; Cl 1.9). Entretanto, entendemos que é o Espírito Santo quem
opera no próprio espírito do crente. O pedido de Paulo para que Deus desse "o espírito de
sabedoria e de revelação" refere-se à experiência cristã vivida pelos efésios, por isso
desejava que tal experiência fosse fortalecida na fé. Que sabedoria era essa? A sabedoria
espiritual, a fim de que tivessem pleno conhecimento da verdade divina, e ainda uma visão
clara e racional do significado da vida cristã. "O espírito de sabedoria" é dado pelo Espírito
Santo que habita no interior do crente em Cristo e contrasta com a simples sabedoria
humana. Ter o "espírito de sabedoria" é ter conhecimento de Deus. E penetrar nos seus
tesouros imensuráveis. No capítulo 12.8 da Primeira Carta aos Coríntios, o apóstolo Paulo,
quando fala acerca dos dons do Espírito, apresenta, entre os demais dons, aquele que ele
denomina de "dom de sabedoria". Sem dúvida, quando ele ora em favor dos efésios, pede
que Deus lhes dê esse dom, que habilita o crente a saber viver uma vida cristã vitoriosa,
podendo distinguir todos os valores espirituais. Ter o "espírito de sabedoria" é ter a ação do
Espírito Santo aclarando os mistérios espirituais através da mente; é ter luz sobre a glória do
Cristo ressurreto; é a capacitação para saber distinguir entre o bem e o mal; é o poder para
conhecer a Jesus Cristo na Bíblia e, automaticamente, conhecer a Deus.
6.3.2. O segundo pedido é para que tenham
"o espírito de revelação" (v. 17)
O sentido da palavra "revelação" indica a importância do pedido de Paulo em favor
dos efésios. Revelação significa tirar o véu sobre alguma coisa obscura ou escondida. É ter
uma revelação espiritual, isto é, uma visão espiritual dos valores espirituais. É a visão que
penetra no conhecimento de Deus. Há um conhecimento inacessível ao homem natural — o
conhecimento das coisas divinas: só pelo "espírito de revelação" será possível conhecer
essas coisas. O "espírito de revelacão" é dado pelo Espírito Santo. Não significa uma nova
revelação além daquilo que já está revelado nas Escrituras, mas diz respeito a uma
iluminação da parte do Espírito Santo no espírito do crente para que ele possa ver claro as
verdades espirituais. Não significa aquela iluminação natural e gradual que pode acontecer
com o estudante da Palavra de Deus, mas importa num conhecimento pleno e profundo dos
mistérios espirituais escondidos na Bíblia Sagrada.
6.3.3. O terceiro pedido nessa oração está no verso 18, que diz:
"Tendo os olhos iluminados do vosso entendimento..." A sabedoria divina só poderá
ser vista por "olhos iluminados", que não são olhos naturais, mas "os olhos do vosso
entendimento".
6.4. Três possibilidades expressas na oração
— v. 18
A expressão "tendo os olhos iluminados do entendimento" fornece três
possibilidades:
6.4.1. Primeira
O entendimento iluminado, que nos possibilita compreender os motivos de nossa
separação do mundo. Fomos salvos para servir a Deus aqui na terra e desfrutarmos a
herança com Cristo na eternidade. Enquanto se está em trevas, todas as coisas espirituais são
obscuras, mas quando Cristo entra em nós, o Espírito Santo desfaz as trevas e nos dá uma
nova visão, uma nova compreensão. E quando temos condições de, com o entendimento
iluminado, notar a diferença entre o salvo e o perdido. Em algumas versões temos uma
variante textual que, ao invés de "entendimento" aparece a palavra "coração", ou seja,
"tendo iluminados os olhos do vosso coração". O texto correto encontrado em todos os
manuscritos iniciais realmente é "coração", cujo sentido pode ser também tomado por
"entendimento". Certamente algum escriba, ao copiar o texto original, preferiu a segunda
opção. A iluminação do coração, ou do entendimento, não é a simples descoberta ou
acuidade intelectual, mas é a ação do Espírito Santo fazendo penetrar sua luz radiante sobre
as grandes verdades divinas. Aquilo que a mente natural não pode perceber, a alma pode ter
olhos que vejam, mediante o Espírito Santo.
6.4.2. Segunda
A capacidade de olhar para as riquezas de sua glória com olhos espirituais. Essa
glória é o reflexo do caráter de Cristo revelado na obra expiatória e conhecida na sua
glorificação. E a glória da herança que o Pai Celestial tem para nós (Jo 17.24).
6.4.3. Terceira
Tendo "os olhos iluminados" do nosso interior, poderemos ver a "suprema grandeza
do seu poder" (v. 19). Ora, depois de termos uma visão da glória de Cristo e estarmos
conscientizados de nossa vocação celestial, precisaremos ainda de poder. Essa experiência
ocorre "segundo a operação da força do seu poder" (v. 19). Que poder é esse? Ele se
manifesta pela vontade do Espírito Santo. É a capacitação dada pelo Espírito para
penetrarmos nas riquezas espirituais. Ninguém jamais poderá, por capacidade intelectual ou
apenas por desejo próprio, penetrar nessas riquezas sem a obtenção desse poder. Esse poder
nos fornece a chave dos tesouros divinos. O poder que nos regenerou é o mesmo que nos
habilita a viver uma vida de vitória sobre o pecado.
6.5. As riquezas espirituais encontradas através da oração
— v. 19
No versículo 18 somos possibilitados a conhecer essas riquezas da sua glória. Já o
versículo 19 indica o conhecimento da "suprema grandeza do seu poder sobre nós". Paulo
nos dá a impressão de ter penetrado nas riquezas dos mistérios divinos e, então, quando usa
o vocábulo "suprema", nos leva para dentro desses mistérios gloriosos. A palavra
"suprema", traduzida do grego
huperballo, dá o sentido literal de ultrapassar, ir além, lançar
além. Dentro do contexto bíblico, a palavra fala daquilo que é extraordinário, ou fora de
medida ou incomensuravel. Isso indica que "as riquezas da glória da sua herança" (v. 18) ou
"a suprema grandeza do seu poder" são incomensuráveis, isto é, não se podem medir pelos
cálculos humanos. Tudo em Deus é grandioso. Quando lemos o restante da passagem— "os
que cremos, segundo a operação da força do seu poder" (v. 19) —, entendemos, mais uma
vez, que a nossa participação nas riquezas da sua glória e do seu poder só é possível
mediante o ato divino em nosso favor. Esse poder, no grego
dunamis, significa energia,
força, habilidade, mas no que se refere à "força do seu poder" deve ser interpretado como o
impulso que leva alguém a realizar determinado trabalho. E o Espírito Santo quem nos
possibilita, isto é, nos faz entrar ou nos torna capazes de conhecer as riquezas da glória de
Cristo.
6.6. Paulo exalta a Cristo na sua oração— vv. 20-23
Nos versos 20-23 temos a exaltação de Cristo sobre todas as coisas.
"Que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dos mortos, e pondo-o à sua direita nos
céus" (v. 20). Esse versículo é a continuação do 19. Ele mostra que o mesmo poder que tirou
a Jesus Cristo do túmulo, ressuscitando-o dentre os mortos, é o poder que levanta um
pecador da morte espiritual e o coloca numa nova posição de comunhão com Deus (Rm
8.11). O mesmo poder que abriu o mar Vermelho para que Israel passasse a seco (Êx 14.15-
26) ressuscitou a Jesus dentre os mortos. Agora esse mesmo poder está à nossa disposição,
pois podemos usá-lo em nossa experiência diária.
6.6.7.
Cristo acima de todos os poderes espirituais — v. 21
"Acima de todo o principado, e poder, e potestade e domínio". Esse trecho do verso
21 indica a supremacia do poder de Deus sobre todas as forças espirituais. As designações
"principado, poder, potestade e domínio" falam de camadas angelicais puras, isto é, que
servem a Deus, bem como das camadas angelicais caídas (anjos caídos), os quais, tanto no
céu como na terra, e debaixo da terra, estão sob o poder de Deus (Fp 2.9-11; Cl 1.16-20).
Todas essas forças estão sujeitas ao poder de Cristo, pois a Ele foi dado esse poder e
autoridade (Mt 28.18; Ap 1.1,17,18).
6.6.2. Cristo acima de todo nome
— v. 21
"... e de todo nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro".
Mais uma vez o poder implica a autoridade maior e um nome maior (Fp 2.9), que lhe foi
dado acima de todo nome. As palavras "neste século e no vindouro" mostram que o seu
poder tem ação presente, isto é, no tempo e na eternidade.
6.6.3. Cristo acima de todas as coisas
— v. 22
"E sujeitou todas as coisas a seus pés". Tudo o que se move está sob o controle de
Cristo. O próprio Pai colocou tudo sob seu domínio (Sl 8.7;1 Co 15.27). A expressão mostra
que Cristo foi elevado a uma posição de poder absoluto. Sua autoridade, além de absoluta, é
universal.
6.6.4. Cristo como cabeça da Igreja
— v. 22
"... e sobre todas as coisas o constituiu cabeça da igreja". Sua autoridade é absoluta
em relação à Igreja. Cristo, o cabeça da Igreja, e não o papa da igreja romana, é quem ocupa
essa posição. O corpo da Igreja não está separado da cabeça. É a cabeça que comanda o
corpo e seus membros em particular.
6.6.5. Cristo como o Senhor do seu corpo, a Igreja
— v. 23
"... que é o seu corpo". O poder é administrado por Cristo em favor da Igreja, que é o
seu corpo. Cada crente, devidamente ligado a esse corpo, recebe as bênçãos desse poder. E a
união vital e espiritual com Cristo que nos torna poderosos na vida cristã. A
complementação do verso diz: "... a plenitude daquele que cumpre tudo em todos". A
plenitude de Cristo representa toda a sua vida atuando sobre todo o seu corpo. Cada crente
(membro do corpo) é dinamizado por essa plenitude que envolve toda a Igreja (todo o
corpo). A Igreja é a plenitude de Cristo, porém, é Cristo quem a enche e a torna plena com a
sua glória e a sua presença. No capítulo 4.13 de Efésios, o crente é convidado a crescer
espiritualmente até que chegue "à medida da estatura completa de Cristo". Em outras
traduções, a expressão aparece assim: "até que cheguem à estatura da sua plenitude".
6.6.6. Cristo, a plenitude do seu corpo, a Igreja
— v. 23
"... que cumpre tudo em todos". Nada do seu corpo fica fora do seu alcance. Cada
membro, mesmo os aparentemente mais insignificantes, recebe poder da mesma fonte que
os demais. Esse versículo mostra que Ele é fiel e "cumpre tudo". Os que estão unidos a Ele
por sua vida na Igreja podem ter a segurança de que receberão seu poder.
7. SALVOS PELA GRAÇA — 2.1-10
A forma mais simples de entendermos esse texto é dividi-lo em três tempos: passado,
presente futuro.
7.1. No passado, apresenta o que éramos
— vv. 1-3
7.1.1. Éramos "mortos em delitos epecados"
— v. /
Esse tipo de morte é espiritual, isto é, morte em relação a Deus. Há também o tipo de
morte espiritual para o pecado. Nesse segundo tipo de morte, a condenação não deixa de
existir. A palavra delito indica um estado. A Bíblia afirma que o homem é pecador por
natureza pecaminosa adquirida (Rm 5.11). No nascimento físico, o homem vem ao mundo
com essa natureza pecaminosa, mas para entrar no reino de Deus ele precisa nascer de novo
(Jo 3.3-5). A idéia de vida, na Bíblia em geral, é um estado de comunhão com Deus; e a
idéia de morte é um estado de separação de Deus. Então, toda a raça humana, em Adão,
depois da queda, é espiritualmente morta. Em Cristo, o último Adão, os homens são
vivificado espiritualmente para terem comunhão com Deus (1 Co 15.45-48)
7.1.2. Éramos andantes perdidos
— v. 2
"... em que noutro tempo andastes". Esse versículo mostra como andávamos no
passado sem Cristo. O verbo andar implica ação e movimento. Todos os nossos passos eram
inseguros e tristes.
7.1.3. Seguíamos o curso deste mundo
— v. 2
"... segundo o curso deste mundo". Estávamos condicionados a uma peregrinação
sem destino certo. Estávamos sob o domínio do espírito do mundo e andávamos segundo a
vida deste mundo, isto é, nos conformávamos com a corrente da vida pecaminosa deste
mundo. A expressão "segundo o curso deste mundo" aparece com um sentido mais claro em
outras traduções, como "seguindo o espírito deste mundo". Esta segunda expressão nos dá a
idéia do mundo como inimigo de Deus, isto é, não o mundo físico, mas o mundo como
sistema espiritual satânico. A palavra "mundo" no grego é
kosmos, que significa sistema de
coisas, ou governo. Em relação ao mundo influenciado pelos poderes satânicos, caracteriza
os homens inconversos sob o seu domínio. A palavra "curso" dá o sentido de sistema no
original grego. Por outro lado, quando lemos "segundo o curso deste mundo", o apóstolo
quer fazer-nos entender como sendo o conjunto de idéias e de tendências que marcam cada
época da história do homem. Também a influência do século sobre a vida dos homens
representa "o mundo" em suas manifestações práticas. Outro sentido da palavra "curso" é
carreira, ou seja, a manifestação do sistema satânico ("mundo") sobre a vida dos homens
que seguem seu próprio caminho. A seqüência do verso 2 mostra a força que impele a
manifestação do mal, quando afirma que "o curso deste mundo [segue] segundo o príncipe
das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência". Logo,
entendemos que existe um causador da manifestação do mal, e esse é o diabo, identificado
como "o príncipe das potestades do ar", e como "o espírito da desobediência" operando nos
homens inconversos (Cl 3.6). Sua missão é a de subjugar os homens e insurgi-los contra
Deus através da desobediência, que é uma forma de rebelião contra o Senhor e Criador do
homem. Todas as formas contrárias ao "espírito da desobediência" glorificam a Deus; por
isso, Satanás usa seus aliados (espíritos caídos) para impelirem as almas humanas à
satisfação da carne, com o fim de impedir que elas comunguem com Deus. A atuação do
poder do pecado é detida pelo poder da obra redentora de Cristo.
7.1.4. Fazíamos a vontade da carne
— v. 3
O verso 3 apresenta o relato do homem carnal. As primeiras palavras, "entre os
quais", indicam uma olhada retrospectiva do apóstolo, identificando a si mesmo e aos outros
judeus, agora crentes em Cristo, como participantes daquela situação. A colocação verbal no
tempo passado — "entre os quais todos nós também antes andávamos" — mostra que os
crentes, antes de crerem em Cristo, viviam como "filhos da desobediência" e, sendo assim,
não havia diferença alguma quanto ao estado do pecado, tanto para os judeus como para os
gentios. Todos os filhos de Adão, em seu estado natural, são filhos da desobediência,
indicando logo a fonte do pecado no homem, ou seja, a causa pela qual vive no pecado.
7.1.5. Fazíamos a vontade dos pensamentos
— v. 3
"... fazendo a vontade da carne e dos pensamentos" apresenta a razão por que
andávamos "segundo o curso deste mundo". A fonte do mal dentro do pecador está em sua
natureza pecaminosa. É essa natureza pecaminosa que obriga ou subjuga a vontade do
homem a obedecer às "inclinações da carne". O termo "carne" aqui denota o ser moral do
homem dominado pelo pecado. Os apetites da nossa carne (corpo) física, sob o domínio das
concupiscências, somente são satisfeitas mediante a busca e realização desses desejos. A
carne física é inconsciente, e o que a torna pecaminosa e desequilibrada são os desejos da
natureza pecaminosa dominante. O homem em seu estado natural vive segundo os desejos
da carne. Esses desejos, alimentados no interior, transformam-se em vontade, e essa
vontade, sob o domínio da natureza pecaminosa, torna-se "vontade da carne e dos
pensamentos". O pecador não consegue dominar esses desejos da carne e dos pensamentos,
senão pelo Espírito Santo e depois da obra de regeneração (Gl 5.16-18).
7.1.6. "Éramos por natureza filhos da ira"
—v. 3
Vários outros textos da Bíblia fornecem a mesma idéia que a expressão "filhos da
ira" encerra: "filhos da desobediência" (Ef 2.2); "filhos da morte" (2 Sm 12.5; SI 79.11; SI
102); "filhos da perdição", ainda que este indique objetivamente o diabo (Jo 17.12; 2 Ts
2.3); "filhos do inferno" (Mt 23.15) etc. Todas essas expressões mostram a paternidade ou a
origem do mal, que é Satanás. Por outro lado, "filhos da ira" são todos aqueles que, por seu
pecado, estão sob a ira de Deus. A ira divina é a santa indignação do Todo-Poderoso contra
o pecado. Entretanto, deixam de ser "filhos da ira" os que se colocam debaixo do sangue
expiador de Jesus Cristo. Uma pessoa crente que se deixa dominar pelas concupiscências da
carne obriga o Espírito de Deus a retirar-se do seu interior e, automaticamente, a ira de Deus
se manifesta contra essa pessoa, por ter Deus sofrido um agravo à sua santidade. A
santidade de Deus se levanta como uma barreira contra a possibilidade do pecado. Podemos
identificar essa barreira como sendo "a sua ira" (Rm 1.18). "Éramos por natureza" assinala
um estado natural, inato no pecador, que se expressa com características próprias e ativas. A
natureza caída do homem sempre se opõe às características benéficas do seu primeiro estado
antes da queda. Os estigmas do pecado aparecem tão logo uma criança venha ao mundo,
mesmo não tendo conhecimento do mundo que a rodeia. Enquanto estamos no mundo,
haverá sempre uma batalha dentro de nosso ser entre a carne e o espírito. Devemos manter
as inclinações da carne subjugadas ao espírito, para que, ao final da vida física, o espírito
vença uma vez por todas a carne, e livre-se dela pela transformação do nosso corpo mortal
em corpo espiritual (1 Co 15.51-57).
7.2. No presente, apresenta o que somos agora
— vv. 4-6
7.2.1. Somos filhos da misericórdia de Deus
— v. 4
A expressão "Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia" nos dá uma visão
maravilhosa do novo estado espiritual daquele que aceitou a obra de Cristo em sua vida.
Nesse versículo está em destaque a riqueza da misericórdia de Deus e a grandiosidade do
seu amor.
Nos versos 1-3 estudamos a triste condição de pecado da humanidade, mas agora, no
verso 4, Deus entra em ação em favor dos que buscam a sua misericórdia: Ele interrompe a
história. Com as palavras iniciais do versículo "Mas Deus...", vemos a intervenção divina
em favor da humanidade. Ele resolve abrir os mananciais de sua misericórdia para os
homens. A palavra "misericórdia" tem um significado bem mais rico do que aquele que
comumente conhecemos. E uma palavra composta de duas outras do latim:
miseri e cordis,
que respectivamente significam miserável e coração. A interpretação que resulta da junção
dessas duas palavras para formar "misericórdia" é: "colocar um miserável no coração".
Assim fez Deus através de Jesus Cristo. Deus amou o mundo miserável e o colocou no seu
coração. A natureza divina é de amor e justiça. Há um profundo desejo no coração de Deus
de que todos os homens sejam salvos e restaurados, a fim de que o seu elevado propósito
para a humanidade seja alcançado (Jo 3.16; 1 Jo 4.9). A manifestação da misericórdia divina
para com o ser humano prova o seu grande amor e o desejo de que todos sejam recuperados.
7.2.2. Fomos vivificados em Cristo
— v. 5
"... estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivifícou juntamente com
Cristo". Primeiro, o texto nos mostra a situação anterior, e depois, o meio pelo qual fomos
alcançados. Literalmente traduzida, a expressão "nos vivifícou com Cristo", apresenta-se
assim: "nos fez viver com Cristo", isto é, nos fez viver segundo o mesmo poder que
vivifícou a Jesus Cristo (Rm 6.4,7,8,11). Entendemos que, pela morte de Jesus, morremos
com Ele para, em sua ressurreição, com Ele ressuscitarmos. Essa nossa ressurreição é espiritual,
pois indica a nova vida recebida. Pela cruz morremos para o pecado, e pela
ressurreição ganhamos nova vida em Cristo Jesus.
7.2.3. Temos uma nova cidadania nos lugares celestiais — v.6
"... e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus". Que entendemos por
"assentar nos lugares celestiais em Cristo"? A designação para "lugares celestiais", antes de
tudo, indica a nova cidadania do cristão. Somos cidadãos do Céu (Fp 3.20), por isso mesmo,
a vida espiritual em Cristo está num plano elevado, superior.
7.2.4. Fomos colocados num plano espiritual elevado
— v.6
"Lugares celestiais" indica o nível fora deste mundo (sistema satânico) no qual somos
colocados na condição de "novas criaturas" (2 Co 5.17). A contínua comunhão do crente
com Cristo lhe dá, já nesta vida, uma posição celestial que alcançará sua plenitude na vinda
do Senhor Jesus Cristo. Visto que estamos nEle (em Cristo), e sendo o seu corpo místico,
como regenerados podemos compreender o sentido dessa importante afirmação. Indica o
terceiro estado de Cristo depois da sua morte. Primeiro, Ele morreu, e nós morremos com
Ele; segundo, Ele ressuscitou gloriosamente, e nós ressuscitamos com Ele em novidade de
vida; terceiro, Ele foi elevado ou exaltado às regiões celestiais, na presença do Pai, e nós
também fomos elevados com Ele, participando da sua glória nas "regiões celestiais".
Estamos assentados "nEle", isto é, fazemos parte do seu corpo místico e glorioso, que é a
Igreja. A grande lição desse novo estado de vida espiritual da Igreja nas "regiões [lugares]
celestiais" é que o crente tem por obrigação estar acima do regime que governa este mundo.
O seu sistema é o de Cristo e, por isso mesmo, superior. O crente não deve se submeter ao
sistema mundano, sobre o que Paulo aconselha: "E não vos conformeis com este mundo"
(Rm 12.2). Não conformar-se com este mundo significa não entrar na fôrma deste mundo,
ou no curso deste mundo.
7.3. O que seremos no futuro
— v. 7
7.3.1. Demonstração eterna da obra redentora
As palavras do verso 7 anunciam a razão final da salvação. A expressão "para
mostrar nos séculos vindouros" diz respeito ao futuro da Igreja. Ela será a demonstração
eterna da graça de Deus, ou seja, o testemunho da manifestação de Deus e do seu poder
sobre a terra. Após o arrebatamento, a destruição do anticristo e prisão do diabo, será
instaurado o reino milenar e o mundo verá a grandeza da Igreja.
7.4. A manifestação da graça de Deus — vv. 8-10
7.4.1. A fonte da salvação conquistada
— v. 8
"... pela graça sois salvos". Esse versículo indica a fonte da salvação — a graça de
Deus. A continuação do texto aponta o meio de alcance, que é a fé, quando diz: "sois salvos
por meio da fé". Uma das grandes finalidades da redenção é a manifestação da graça de
Deus. A fé é o instrumento para se obter a salvação. A graça de Deus foi manifesta na
pessoa de Jesus, pois Ele conquistou essa salvação.
7.4.2. O meio da salvação conquistada
— v. 9
O verso 9 diz: "Não por obras" se alcança a graça de Deus, enquanto o versículo
anterior afirma que essa graça é "dom de Deus". Não se compra nem se vende, e independe
de mérito humano. A salvação se recebe pelo ato da fé, sem as obras da lei (Rm 3.20,28;
4.1-5; Gl 2.16; 2 Tm 1.9; Tt 3.5).
7.4.3. O resultado da salvação conquistada
— v. 10
O verso 10 mostra o resultado da obra salvadora. "... somos feitura sua" significa que
fomos feitos novas criaturas em Cristo Jesus (2 Co 5.17). No ato da criação, no Éden, Deus
fez o homem à sua imagem e semelhança. Com a queda e o pecado, essa feitura divina foi
arruinada
e essa imagem do divino no ser interior foi distorcida. Então Deus, num ato de
recriação do homem interior arruinado, fez uma nova criatura à imagem do seu Filho Jesus
(Gl 6.15; Ef 4.24; Cl 3.10).
Refeitos, podemos agora andar num novo caminho e fazer as boas obras. O fazer
boas obras independe da vontade do regenerado, porque é parte de sua vida nova. Isso está
em consonância com o objetivo da nossa eleição, conforme está escrito: "... para sermos
santos e irrepreensíveis perante Ele" (Ef 1.4).

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