
C.H. MACKINTOSH
ESTUDOS SOBRE
O LIVRO DE LEVÍTICO
2
a edição
Esta
segunda edição é, essencialmente, igual à primeira de 1967. Alguns
erros de tipografia e ortografia foram intencionalmente corrigidos.
As citações bíblicas seguem a "Edição Revista e Corrigida" de João
Ferreira de Almeida publicada pela Sociedade Bíblica do Brasil, edição de
1995
São Paulo, maio de 2003
Os editores.
Edição original em inglês
2
a Edição em português: maio de 2003
Editoração, Impressão e Acabamento Associação Religiosa Imprensa da Fé
DEPÓSITO DE LITERATURA CRISTÃ
Rua Arlindo Bétio, 117
09911-470 Diadema, SP —BRASIL
Todos os direitos reservados
— CAPÍTULO 1 —
O HOLOCAUSTO
Antes de entrarmos em pormenores sobre este capítulo, há
duas coisas que requerem toda a nossa atenção, a saber: primeiro
a posição de Jeová e segundo a ordem por que são apresentados
os sacrifícios.
"E chamou o S
ENHOR a Moisés e falou com ele da tenda da
congregação." Tal foi a posição de onde o Senhor fez as comunicações
narradas neste livro. Havia falado do Monte Sinai, e a Sua
posição ali imprimiu um caráter particular à comunicação. Do
monte ardente saiu "o fogo da lei" (Dt 33:2). Porém, aqui o Senhor
fala "da tenda da congregação". Era uma posição muito diferente.
Vimos este tabernáculo concluído no final do livro
precedente. "Levantou também o pátio ao redor do tabernáculo e
do altar e pendurou a coberta da porta do pátio. Assim, Moisés
acabou a obra. Então a nuvem cobriu a tenda da congregação, e a
glória do S
ENHOR encheu o tabernáculo,... porquanto a nuvem do
S
ENHOR estava de dia sobre o tabernáculo, e o fogo estava de noite
sobre ele, perante os olhos de toda a casa de Israel, em todas as
suas jornadas". (Êx 40:33-38).
Ora, o tabernáculo era o lugar onde Deus habitava em graça.
Podia estabelecer ali a Sua habitação, porque estava rodeado de
todos os lados por aquilo que representava brilhantemente o
fundamento das Suas relações com o povo. Se tivesse vindo ao
meio deles na plena manifestação do caráter revelado no Monte
Sinai só podia ser para os "consumir num momento", como "povo
obstinado" (Êx 33:5). Porém, retirou-se para dentro do véu —
figura da carne de Cristo (Hb 10:20) e tomou o Seu lugar sobre o
propiciatório, onde o sangue da expiação, e não "o povo obstinado"
de Israel, se apresentava à Sua vista e satisfazia as exigências da
Sua natureza. O sangue que era levado ao santuário pelo sumo
sacerdote era figura do sangue precioso que purifica de todo o
pecado; e, embora Israel, segundo a carne, não discernisse nada
disto, esse sangue, contudo, justificava o fato de Deus habitar no
meio deles; "santificava-os quanto à purificação da carne"
(Hb9:13).
Tal é, pois, a posição do Senhor no Livro de Levítico, posição
esta que deve ser tida em consideração, se se quiser ter um
conhecimento exato das revelações que este livro encerra. Nessas
revelações encontramos inflexível santidade unida à mais pura
graça. Deus é santo, seja qual for o lugar de onde fala. É santo no
monte Sinai e santo no propiciatório; porém, no primeiro caso a
Sua santidade estava ligada a "um fogo consumidor", enquanto
que no segundo estava ligada com paciente graça.
Ora, a união da perfeita santidade com a graça perfeita é o
que caracteriza a redenção que há em Cristo Jesus, redenção que
é, de diversas maneiras, tipificada no livro de Levítico. É preciso
que Deus seja santo, ainda que seja na condenação eterna dos
pecadores impenitentes; porém a revelação plena da Sua
santidade na salvação dos pecadores faz ressoar no céu um coro
de louvor. "Glória a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade
para com os homens" (Lc 2:14). Esta doxologia não podia ter sido
entoada em relação com "o fogo da lei". Sem dúvida, havia "glória
nas alturas", mas não havia "paz na terra" nem "boa vontade para
com os homens", porquanto a lei era a declaração do que os
homens deviam ser, antes que Deus pudesse ter prazer neles. Mas
quando "o Filho" ocupou o Seu lugar como homem na terra, o céu
pôde exprimir todo o Seu prazer n'Aquele cuja Pessoa e obra
podiam ligar, da maneira mais perfeita, a glória divina com a bemaventurança
humana.
A Ordem dos Sacrifícios
E agora algumas palavras sobre a ordem dos sacrifícios, nos
primeiros capítulos do livro de Levítico. O Senhor começa com o
holocausto e termina com a expiação da culpa. Quer dizer,
termina onde nós começamos. Esta ordem é notável e muito
instrutiva. Quando pela primeira vez a seta da convicção penetra
na alma dá-se um profundo exame de consciência quanto aos
pecados cometidos. A memória volve a sua vista iluminada para as
páginas da vida passada e vê-as manchadas com inumeráveis
transgressões contra Deus e contra o homem. Neste momento da
história da alma, ela não se ocupa tanto com a raiz de onde
brotaram essas transgressões como com o fato palpável que este e
aquele ato foram cometidos por ela; e, por isso, tem necessidade
de saber que Deus proveu um sacrifício por cuja virtude "todas as
ofensas" podem ser perdoadas livremente. E este sacrifício é-nos
apresentado no sacrifício da expiação da culpa.
Mas à medida que a alma progride na vida divina torna-se
consciente do fato que
esses pecados que cometeu não são mais
que rebentos de uma raiz, correntes de uma mesma fonte; e, além
disso, que
o pecado na sua natureza — ou seja: na carne — é essa
fonte, essa raiz. Isto conduz-nos a um exercício íntimo ainda mais
profundo, que nada pode tranqüilizar senão um conhecimento
mais profundo da obra da cruz. Em suma, a cruz deve ser
compreendida como o lugar onde Deus Mesmo
"condenou o pecado
na carne"
(Rm 8:3).
O leitor há - de notar que esta passagem não diz
"pecados na
vida",
mas a raiz de onde os pecados provêm, a saber, o "pecado
na carne".
E uma verdade de grande importância. Cristo não somente
morreu por nossos
pecados, "segundo as Escrituras" (1 Co 15:3),
como foi feito
pecado por nós (1 Co 5:21). Esta é a doutrina do
sacrifício da expiação do pecado.
E quando o coração e a consciência encontram descanso
mediante o conhecimento da obra de Cristo, que nos podemos
alimentar d'Ele como o fundamento da nossa paz e do nosso gozo,
na presença de Deus. Não pode haver paz ou gozo antes de
sabermos que todas as nossas transgressões foram perdoadas e o
nosso pecado julgado. A expiação da culpa e a expiação do pecado
têm de ser conhecidas antes que os sacrifícios pacíficos, de
manjares ou de ações de graças possam ser convenientemente
apreciados. Por isso, a ordem em que está o sacrifício pacífico
corresponde à ordem da nossa apreciação espiritual de Cristo.
Nota-se a mesma perfeita ordem em referência à oferta de
manjares. Quando a alma é levada a apreciar a doçura da
comunhão espiritual com Cristo — a alimentar-se d'Ele em paz e
gratidão na presença divina — sente um desejo arrebatador de
conhecer melhor os mistérios gloriosos da Sua pessoa; e este
desejo é ditosamente satisfeito na oferta de manjares, que é o tipo
da perfeita humanidade de Cristo.
Em seguida, no holocausto, somos conduzidos a um ponto
para além do qual é impossível ir, e esse ponto é a obra da cruz,
realizada sob as vistas de Deus como expressão do afeto
inquebrantável do coração de Cristo. Todas estas coisas nos serão
apresentadas em belos pormenores, à medida que as
examinarmos; aqui consideramos apenas a ordem dos sacrifícios,
a qual é verdadeiramente maravilhosa, seja qual for o sentido em
que caminharmos, seja exteriormente de Deus para nós, ou
intimamente de nós até Deus. Em qualquer dos casos começamos
e terminamos com a cruz. Se começamos com o holocausto, vemos
Cristo na cruz fazendo a vontade de Deus — fazendo expiação,
segundo a medida da Sua perfeita rendição a Deus. Se
começamos com a expiação da culpa, vemos Cristo na cruz
levando os nossos pecados e tirando-os, segundo a perfeição do
Seu sacrifício expiatório; enquanto que em cada um e em todos
eles vemos a excelência, a beleza e a perfeição da Sua divina e
adorável pessoa.
Certamente, tudo isto é suficiente para despertar em nossos
corações o mais profundo interesse pelo estudo desses símbolos
preciosos que passaremos a analisar pormenorizadamente. E que
Deus Espírito Santo, que inspirou o livro de Levítico, dê a sua
explicação, em poder vivo, aos nossos corações, para que, quando
chegarmos ao fim, possamos ter motivo de sobra para bendizer ao
Senhor por tantas e tão admiráveis imagens da pessoa e obra de
nosso bendito Senhor e Salvador Jesus Cristo, a quem seja dada
glória, agora e para todo o sempre. Amém.
No holocausto, com o qual abre o livro de Levítico, temos
uma figura de Cristo, que "se ofereceu a si mesmo imaculado a
Deus" (Hb 9:14). Daí a posição que o Espírito Santo lhe dá. Se o
Senhor Jesus Cristo Se manifestou para realizar a obra gloriosa
da expiação, o Seu mais desejável e supremo objetivo, na sua
consecução estava a glória de Deus.
"Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade" (Hb
10:9), era o grande lema em todas as cenas e circunstâncias da
Sua vida, e em nenhuma tão completamente como na obra da
cruz. Fosse qual fosse a vontade de Deus, Ele veio para a fazer.
Bendito seja Deus, nós conhecemos qual é a nossa parte na
realização dessa "vontade"; pois por ela "temos sido santificados
pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez" (Hb 10:10).
Contudo, o aspecto primário da obra de Cristo era Deus. Era
Seu prazer inefável cumprir a vontade de Deus na terra. Ninguém
a tinha feito. Alguns, pela graça, haviam feito o que era reto aos
olhos do Senhor; porém ninguém jamais tinha, perfeita e
invariavelmente, desde o princípio ao fim, sem hesitação e sem
divergência, feito a vontade de Deus. Mas foi isto exatamente que
o Senhor Jesus fez. Ele foi "obediente até à morte e morte de cruz"
(Fp 2:8): "...manifestou o firme propósito de ir a Jerusalém" (Lc
9:51). E quando se dirigia do jardim de Getsêmane ao Calvário, o
afeto intenso de Seu coração foi expresso nestas palavras: "Não
beberei eu o cálice que o Pai me deu?"(Jo 18:11).
Certamente, havia um perfume de cheiro suave nesta
absoluta devoção a Deus. Um Homem perfeito na terra,
cumprindo a vontade de Deus, até mesmo na morte, era assunto
de profundo interesse para o céu. Quem poderia sondar as
profundezas desse coração dedicado, que se manifestou aos olhos
de Deus, na cruz? Seguramente, ninguém senão Deus; porque
nisto, como em tudo mais, certo é que "ninguém conhece o Filho
senão o Pai"; e ninguém pode conhecer nada, até certo ponto, a
Seu respeito se o Pai o não revelar. A mente humana pode
compreender, até certo ponto, qualquer coisa do que se passa
"abaixo do sol". A ciência humana pode ser compreendida pelo
intelecto humano; mas nenhum homem conhece o Filho de Deus,
se o Pai não lho revelar pelo poder do Espírito e por meio da
Palavra escrita. O Espírito Santo deleita-se em revelar o Filho —
em tomar das coisas de Jesus e revelar-no-las. Estas coisas temolas,
em toda a sua beleza e plenitude, nas Escrituras. Não pode
haver novas revelações, pois o Espírito trouxe
"todas as coisas" à
memória dos apóstolos e conduziu-os a
"toda a verdade" (Jo 14:26;
16:13). Não pode haver nada mais além de "toda a verdade"; e, por
isso, as pretensões de novas revelações e do descobrimento da
verdade — quer dizer, verdade não mencionada no cânone
sagrado de inspiração — representam apenas os esforços do
homem para acrescentar alguma coisa àquilo que Deus designa
por "toda a verdade". O Espírito pode, certamente, mostrar e
aplicar, com nova e extraordinária energia, a verdade contida na
Escritura; porém, isto é claramente uma coisa muito diferente da
ímpia presunção que abandona o campo da revelação divina com
o propósito de encontrar princípios, idéias e dogmas que tenham
autoridade sobre a consciência.
Na narrativa do evangelho Cristo é-nos apresentado nos
vários aspectos do Seu caráter, Sua Pessoa e obra. Em todas as
épocas o povo de Deus tem achado alegria em recorrer a essas
preciosas Escrituras, sedentando-se nas revelações celestiais do
objeto do seu amor e confiança—Aquele a quem tudo devem, quer
no tempo presente, quer no tocante à eternidade. Contudo, muito
poucos comparativamente têm sido induzidos a considerar os ritos
e cerimônias da dispensação levítica como cheios das mais
minuciosas instruções referentes ao mesmo assunto dominante.
Os sacrifícios de Levítico, por exemplo, têm sido considerados
freqüentemente como registros de antigos costumes judaicos, sem
nenhum outro significado para nós nem nenhuma luz espiritual
para iluminar os nossos entendimentos. Mas tem de admitir-se
que as páginas aparentemente obscuras de Levítico, assim como
as expressões sublimes de Isaías, têm o seu lugar entre "tudo que
dantes foi escrito" (Rm 15:4), e são, portanto, "para nosso ensino".
Certamente, precisamos de estudar estes registros, assim como
também toda a Escritura, com espírito humilde e despretensioso,
em reverente dependência do ensino d'Aquele que graciosamente
os inspirou para nosso ensino, e com atenção diligente pelo
grande objetivo, alvo e analogia geral de todo o corpo da revelação
divina; dominando a nossa imaginação, para que se não extravie
com entusiasmo profano; mas se assim, mediante a graça,
entrarmos no estudo dos símbolos de Levítico, encontraremos um
filão do mais rico e precioso minério.
A Vítima
Vamos prosseguir agora com o exame do holocausto, que,
como havemos acentuado, representa Cristo oferecendo-se a Si
mesmo incontaminado a Deus.
"Se a sua oferta for holocausto de gado, oferecerá macho
sem mancha." A glória essencial e dignidade da pessoa de Cristo
formam a base do cristianismo. Ele transmite esta dignidade e
essa glória a tudo que faz e a cada uma das funções que assume.
Nenhuma função podia de algum modo acrescentar glória Aquele
que é sobre todos, "Deus bendito eternamente" (Rm9:5) — "Deus
manifestado em carne" (1 Tm 3:16) —, o glorioso "Emanuel"—Deus
conosco —, o Verbo eterno, o Criador e Mantenedor do universo.
Que função poderia acrescentar dignidade a uma tal Pessoal De
fato, sabemos que todas as Suas funções estão relacionadas com
a Sua humanidade; e assumindo essa humanidade, Ele desceu da
glória que tinha com o Pai antes da criação do mundo. Desceu,
deste modo, a fim de glorificar Deus perfeitamente no próprio meio
de uma cena onde tudo Lhe era hostil. Veio para ser "devorado"
por santo e inextinguível zelo (SI 69:9) pela glória de Deus e a
realização eficiente dos Seus desígnios eternos.
Cristo Oferecendo-se a Si Mesmo a Deus
O macho sem mancha de um ano era uma figura do Senhor
Jesus Cristo oferecendo-se a Si mesmo para o cumprimento
perfeito da vontade de Deus. Não deveria haver nada que
detonasse fraqueza ou imperfeição. Devia ser "um macho de um
ano". Teremos ocasião de ver, quando tivermos ocasião de
examinar os outros sacrifícios, que era permitido oferecer, nalguns
casos, uma "fêmea"; mas essa era apenas a forma de mostrar a
imperfeição inerente à compreensão do adorador, e de modo
nenhum um defeito da oferenda, porquanto esta era "sem
mancha" tanto num caso como no outro.
Contudo, o holocausto era um sacrifício da mais elevada
ordem, porque representava Cristo oferecendo-se a Si mesmo a
Deus — Cristo no holocausto exclusivamente para a vista e o
coração de Deus. Eis um ponto que deve ser claramente
compreendido. Só Deus podia apreciar devidamente a Pessoa e
obra de Cristo. Só Ele podia apreciar plenamente a cruz como a
expressão do perfeito afeto de Cristo. A cruz tal qual é simbolizada
no holocausto, encerra qualquer coisa que só a mente divina pode
compreender. Tinha profundidades tais que nem o mortal nem os
anjos podiam sondar. Nela havia uma voz que se dirigia exclusiva
e diretamente aos ouvidos do Pai. Entre o Calvário e o trono de
Deus houve comunicações que excedem em muito as mais altas
capacidades dos entes criados.
"A porta da tenda da congregação a oferecerá, de sua própria
vontade, perante o S
ENHOR." O emprego do vocábulo "vontade",
nesta passagem, revela claramente o grande propósito no
holocausto. Leva-nos a contemplar a cruz sob um aspecto que não
é suficientemente compreendido. Estamos sempre prontos a
contemplar a cruz simplesmente como o lugar onde a grande
questão do pecado foi tratada e liquidada entre a justiça eterna e a
vítima incontaminada — o lugar onde a nossa culpa foi expiada e
onde Satanás foi gloriosamente vencido. Louvor universal seja
dado eternamente ao amor redentor! A cruz foi tudo isto. E mais
do que isto. Foi o lugar onde o amor de Cristo pelo Pai se
expressou em linguagem tal que só o Pai podia ouvir e
compreender. E sob este último aspecto que a vemos simbolizada
no holocausto e é, portanto, por isso que a palavra "vontade"
ocorre. Se fosse apenas uma questão de imputação do pecado e de
sofrer a ira de Deus por causa do pecado, essa expressão não
estaria dentro da ordem moral. O bendito Senhor Jesus não podia,
com estrita propriedade, ser apresentado como aquele que
desejava
ser feito pecado — desejar sofrer a ira de Deus e ser
privado da vista do Seu rosto; e, neste fato, por si só, aprendemos
da maneira mais evidente, que o
holocausto não representa Cristo
sobre a cruz levando o pecado,
mas, sim, Cristo sobre a cruz
cumprindo a vontade de Deus. Que Cristo mesmo contemplava a
cruz nestes dois aspectos é evidente pelas Suas próprias palavras.
Quando contemplou a cruz como o lugar onde foi feito pecado —
quando previu os horrores que, sob este ponto de vista, ela
encerrava, exclamou: "Pai, se queres, passa de mim este cálice" (Lc
22:42). Fugia daquilo que a Sua obra, por ter de levar sobre Si o
pecado, comportava. A Sua mente santa e pura fugia ao
pensamento de contato com o pecado; e o Seu terno coração fugia
da idéia de perder, por um momento, a luz do semblante de Deus.
O Amor de Cristo pelo Pai
Porém, a cruz tinha outro aspecto. Aparecia à vista de Cristo
como uma cena em que Ele podia revelar plenamente os segredos
profundos do Seu amor ao Pai — um lugar onde podia, "de Sua
própria vontade", tomar o cálice que o Pai lhe havia dado e esgotálo
até às fezes. É verdade que toda a vida de Cristo emitiu um
fragrante odor, que subia sem cessar até ao trono do Pai — Ele
fazia sempre as coisas que agradavam ao Pai —, fez sempre a
vontade de Deus; mas o holocausto não O representa na Sua vida
— precioso além de todo o pensamento como foi cada ato dessa
vida —, mas na Sua morte, e não como Aquele que foi feito
"maldição por nós", mas como Aquele que apresenta ao coração do
Pai um perfume de incomparável fragrância.
Esta verdade envolve a cruz de atrativos particulares para a
mente espiritual. Dá aos sofrimentos do nosso bendito Senhor um
interesse do caráter mais intenso. O pecador culpado encontra,
incontestavelmente, na cruz uma resposta divina aos mais profundos
e ardentes desejos do coração. O verdadeiro crente encontra
na cruz aquilo que cativa todas as afeições do seu coração e deixa
aturdido todo o seu ser moral. Os anjos encontram na cruz um
tema para contínua admiração. Tudo isto é verdade; mas há
alguma coisa na cruz que ultrapassa as mais elevadas concepções
dos santos ou dos anjos; isto é, a profunda devoção do coração do
Filho para com o Pai e como Este a apreciou. Este é o assunto
elevado da cruz, que é manifestado de um modo tão notável no
holocausto.
E deixai-me observar que a beleza própria do holocausto
deve ser inteiramente sacrificada se admitirmos a idéia de que
Cristo carregou com o pecado toda a Sua vida. Deixa de haver
então força, valor e significado nas palavras "sua própria vontade".
Não poderá haver lugar para ação voluntária no caso de uma
pessoa que era compelida, pela própria necessidade da sua
posição, a morrer. Se Cristo tivesse carregado com o nosso pecado
na Sua vida, então segue-se que a Sua morte seria
obrigatória e
não um ato voluntário.
De fato, pode afirmar-se com segurança que não há uma
oferta sequer entre todas cuja beleza não fosse manchada e a sua
integridade sacrificada pela teoria de
uma vida carregando com o
pecado. Este é especialmente o caso no holocausto, porquanto não
é uma questão de carregar com o pecado ou de sofrer a ira de
Deus, mas inteiramente de dedicação voluntária, manifestada na
morte da cruz. No holocausto reconhecemos uma figura de Deus o
Filho, cumprindo, por intermédio de Deus Espírito, a vontade de
Deus Pai. Isto fez Ele de "sua própria vontade". "Por isso, o Pai me
ama, porque dou a minha vida para tornar a tomá-la" (Jo 10:17).
Temos aqui o aspecto da morte de Cristo no holocausto. Por outro
lado, o profeta contemplando-O como oferta pelo pecado, diz: "... a
sua vida é
tirada da terra" (At 8:33 —versão LXX(,) de Isaías 53:8).
Outro tanto, Cristo diz, — Ninguém ma tira, mas eu de mim
mesmo a dou". Estaria Ele levando o nosso pecado sobre Si
quando disse isto? Note-se que Ele diz "ninguém" — homens,
anjos, demônios ou qualquer outra criatura. Foi um ato voluntário
da Sua própria parte: deu a Sua vida para tornar a tomá-la.
"Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu" (SI 40:8). Tal era
a linguagem do holocausto divino — de Aquele que achou gozo
inexprimível em Se oferecer incontaminado a Deus.
É, pois, da máxima importância aprender com distinção o
primário objetivo de Cristo na obra de redenção. Contribui para
consolidar a paz do crente. O cumprimento da vontade de Deus,
estabelecer os Seus desígnios e parentear a glória de Deus, era o
que preocupava esse coração dedicado, que via e avaliava todas as
coisas em relação com Deus.
_________________
(1) LXX - "Septuaginta" - versão grega do Velho Testamento.
O Senhor Jesus nunca se deteve para averiguar até que
ponto qualquer ato ou circunstância O afetaria. "O Aniquilou-se a
si mesmo" (Fp 2:7-8). Renunciou a tudo. E, por isso, quando
chegou ao fim da Sua carreira, pôde refletir sobre o passado, olhar
para trás e, com os olhos levantados ao céu, dizer, "Eu glorifiqueite
na terra, tendo consumado a obra que me deste a fazer" (Jo
17:4).
É impossível contemplar a obra de Cristo sob este aspecto
sem que o coração se sinta cheio das mais gratas afeições para
com a Sua Pessoa. O conhecimento de que o Seu primeiro objetivo
na obra da cruz era Deus não diminui em nada o sentimento que
temos do Seu amor por nós. Pelo contrário, o Seu amor por nós, e
a nossa salvação n'EIe só podiam ser fundamentados no
estabelecimento da glória de Deus. Essa glória deve formar a base
sólida de todas as coisas. "Porém, tão certamente como eu vivo e
como a glória do S
ENHOR encherá toda a terra" (Nm 14:21). Mas
nós sabemos que a glória eterna de Deus e a bem-aventurança
eterna da criatura estão inseparavelmente ligadas nos desígnios
divinos, de sorte que se a primeira está assegurada, a segunda
tem de sê-lo também.
A Identificação do Adorador com o Holocausto
"E porá a sua mão sobre a cabeça do holocausto, para que
seja aceito por ele, para a sua expiação." O ato da imposição das
mãos exprimia completa identificação. Por este ato significativo o
oferente e a oferta tornavam-se um; e esta unidade, no caso do
holocausto, assegurava ao oferente que a sua oferta era aceite. A
aplicação deste fato a Cristo e ao crente realça uma verdade das
mais preciosas, uma das mais largamente desenroladas no Novo
Testamento, a saber: a identificação eterna do crente com Cristo e
a sua aceitação em Cristo:"... qual ele é, somos nós também neste
mundo... No que é verdadeiro estamos."(l jo4:17;5:20).
Nada menos do que isto nos podia aproveitar. O homem que
não está em Cristo está nos seus pecados. Não há terreno neutro.
Ou havemos de estar em Cristo ou fora d'Ele. Não se pode estar
parcialmente
em Cristo. Ainda que seja apenas a espessura de um
cabelo que se interponha entre vós e Cristo, estais num estado
positivo de ira e condenação. Pelo contrário, se estais n'Ele, então
sois "qual ele é" perante Deus, e assim considerados na presença
da santidade infinita.
Tal é o ensino claro da Palavra de Deus. "Estais perfeitos
nele", sois "membros do seu corpo", da Sua carne e dos Seus
ossos, "agradáveis" a Deus "no amado", porque "o que se ajunta
com o Senhor é um mesmo espírito" (1 Co 6:17; Ef 1:6; 5:20,
C12:20). Ora, não é possível que a Cabeça esteja num grau de
aceitação e os membros noutro. Não; a Cabeça e os membros são
um. Deus considera-os um; e, portanto, são um. Esta verdade é,
ao mesmo tempo, o fundamento da mais elevada confiança e da
mais profunda humildade. Dá-nos a mais completa segurança
"para que no dia do juízo tenhamos confiança" (1 Jo 4:17), visto
que não é possível haver qualquer acusação contra Aquele com
quem estamos unidos. Dá-nos uma profunda impressão da nossa
própria nulidade, visto que a nossa união com Cristo é baseada na
morte da velha natureza e na abolição total de todos os seus
direitos e pretensões.
Visto que, portanto, a Cabeça e os membros são
considerados na mesma posição de infinito favor e aceitação
perante Deus, é evidente que todos os membros têm uma mesma
aceitação, uma mesma salvação, a mesma vida e uma mesma
justiça. Não há graus diferentes na justificação. O recém-nascido
em Cristo e o crente de cinqüenta anos estão no mesmo plano de
justificação. Um está em Cristo, e o outro também; e assim como
estar em Cristo é a única base de vida, também o é de justificação.
Não há duas espécies de vida nem duas espécies de justificação.
Não há dúvida que existem diversos graus de gozo desta
justificação — vários graus no conhecimento da sua plenitude e
extensão — vários graus na capacidade de mostrar o seu poder
sobre o coração e a vida; e estas coisas são freqüentemente
confundidas com a própria justificação, a qual, sendo divina, é,
necessariamente, eterna, absoluta, invariável, e não pode ser
afetada pela flutuação dos sentimentos ou experiências humanas.
Mas, além disso, não há progresso na justificação. O crente
não está mais justificado hoje do que estava ontem; nem estará
mais justificado amanhã do que está hoje. Sim, a alma que "está
em Cristo Jesus" está tão completamente justificada como se
estivesse diante do trono de Deus. O crente é
"perfeito em Cristo".
É
"como" Cristo. Está, sobre a própria autoridade de Cristo, "todo
limpo" (Jo 13:10). Que mais poderia esperar ser deste lado da
glória ? Pode fazer e fará — se andar em Espírito — progresso no
gozo desta gloriosa realidade; mas, quanto à própria justificação,
no momento em que, pelo poder do Espírito Santo, creu o
evangelho, passou de um estado positivo de injustiça e
condenação para um estado positivo de justiça e aceitação. Tudo
isto se baseia na perfeição divina da obra de Cristo; precisamente
como no caso do holocausto, em que a aceitação do adorador era
baseada na aceitação da oferta. Não era uma questão de saber o
que ele era, mas simplesmente do que era o sacrifício. "Para
que
seja
aceito por ele, para a sua expiação."
O Sacrifício
"Depois, degolará o bezerro perante o S
ENHOR; e os filhos de
Arão, os sacerdotes, oferecerão o sangue e espargirão o sangue à
roda sobre o altar que está diante da porta da tenda da congregação."
No estudo da doutrina do holocausto é absolutamente
indispensável não esquecer que o ponto principal que ressalta dele
não é ir ao encontro da necessidade do pecador, mas apresentar a
Deus aquilo que Lhe é infinitamente agradável. Cristo, como é
prefigurado no holocausto, não é para a consciência do pecador,
mas para o coração de Deus.
Além disso, no holocausto a cruz não é demonstração da
abominação do pecado, mas a devoção inabalável de Cristo ao Pai.
Nem tampouco é a cena de Deus descarregar a Sua ira sobre
Cristo por Ele levar sobre Si o pecado, mas sim a sublime
complacência do Pai em Cristo, o sacrifício voluntário e cheio de
fragrância. Finalmente a "expiação", como a vemos no holocausto,
não é apenas proporcionada às exigências da consciência do
homem, mas o desejo intenso do coração de Cristo em fazer a
vontade de Deus e estabelecer os propósitos divinos — um desejo
que não O impediu de entregar a Sua vida imaculada e preciosa
como "oferta voluntária" "de cheiro" suave a Deus.
Nenhum poder da terra ou do inferno, homens ou demônios,
pôde demovê-Lo de cumprir este desejo. Quando Pedro,
ignorantemente, e com palavras de falsa ternura, procurou
dissuadi-lo a não ir ao encontro da vergonha e degradação da
cruz, "dizendo: Senhor, tem compaixão de ti; de modo nenhum te
acontecerá isso", qual foi a Sua resposta? "Para trás de mim,
Satanás, que me serves de escândalo; porque não compreendes as
coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens" (Mt
16:22-23). De igual modo, noutra ocasião, disse aos Seus
discípulos, "Já não falarei muito convosco, porque se aproxima o
príncipe deste mundo e nada tem em mim mas é para que o
mundo saiba que
eu amo o Pai e que faço como o Pai me mandou.
Levantai-vos, vamo-nos daqui" (Jo 14:30-31). Estas e muitas
outras passagens correlativas das Escrituras mostram-nos a fase
da obra de Cristo no holocausto em que o primeiro pensamento é
evidentemente "oferecer-se a Si mesmo imaculado a Deus".
Os Sacerdotes
Em perfeita harmonia com tudo quanto tem sido exposto a
respeito deste ponto especial no holocausto está o lugar que
ocupam os filhos de Arão e as funções que lhes são assinaladas
nele. Eles "espargirão o sangue... porão fogo sobre o altar, pondo
em ordem a lenha sobre o fogo", também "porão em ordem os
pedaços, a cabeça e o redenho, sobre a lenha que está no fogo em
cima do altar". Estas coisas estavam bem em evidência e formam
um aspecto notável do holocausto, em contraste com a expiação
do pecado, na qual os filhos de Arão não são mencionados. "Os
filhos de Aarão" representam a Igreja, não como "um corpo", mas
como casa sacerdotal. Isto compreende-se facilmente. Se Arão era
uma figura de Cristo, a casa de Arão era uma figura da casa de
Cristo, como lemos na Epístola aos Hebreus, capítulo 3 versículo
6: "Mas Cristo, como Filho, sobre a sua própria casa; a qual casa
somos nós". E, "Eis-me aqui a mim e aos filhos que Deus me deu"
(Hb 2:13). Agora é privilégio da Igreja, na medida em que é dirigida
e ensinada pelo Espírito Santo, fixar os olhos e deleitar-se nesse
aspecto de Cristo que nos é apresentado no símbolo com que abre
o livro de Levítico. "A nossa comunhão é com o Pai", que,
graciosamente, nos convida a ter parte com Ele nos Seus
pensamentos acerca de Cristo. É verdade que nunca podemos
elevar-nos à altura desses pensamentos; mas podemos ter
participação neles pelo Espírito Santo que habita em nós. Não se
trata aqui de uma questão de se ter a consciência tranqüilizada
pelo sangue de Cristo, como o que levou sobre Si o pecado, mas de
comunhão com Deus na rendição perfeita de Cristo na cruz.
"... e os filhos de Arão,
os sacerdotes, oferecerão o sangue e
espargirão o sangue à roda sobre o altar que está diante da porta
da tenda da congregação." Aqui temos uma figura da Igreja
trazendo o memorial de um sacrifício consumado e oferecendo-o
no lugar de aproximação individual de Deus. Mas devemos
lembrar que é o sangue do holocausto e não o da expiação do
pecado. É a Igreja penetrando, no poder do Espírito Santo, no
pensamento admirável da comprovada devoção de Cristo a Deus, e
não o pecador convicto valendo-se do valor do sangue de quem
carregou com o pecado. Desnecessário é dizer que a Igreja é
composta de pecadores arrependidos; mas "os filhos de Arão" não
representam os pecadores arrependidos, mas, sim, os santos em
adoração. É na qualidade de
"sacerdotes" que têm de intervir no
holocausto. Muitos erram quanto a isto. Imaginam que, pelo fato
de se tomar o lugar de adorador — para que se é convidado pela
graça de Deus e tornado idôneo para o fazer pelo sangue de Cristo
— não tem que se considerar como pecador indigno. Isto é um
grande erro. O crente, em si mesmo, nada é absolutamente. Mas
em Cristo é um adorador purificado. Não está no santuário como
pecador culpado, mas como sacerdote em adoração, vestido com
os vestidos de glória e ornamento. Ocupar-me da minha culpa na
presença de Deus, não é, pelo que me diz respeito, humildade mas
sim incredulidade, pelo que respeita ao sacrifício.
Todavia, é bem evidente que a idéia de levar o pecado — a
imputação do pecado—, ou da ira de Deus, não aparece no
holocausto. È certo que lemos: "... para que seja aceito por ele,
para
a sua expiação"; mas é "expiação" não segundo a profunda
enorme culpa humana, mas segundo a perfeita rendição de Cristo
a Deus e a intensidade do prazer de Deus em Cristo. Isto dá-nos a
mais elevada idéia da expiação. Se contemplamos a Cristo como o
sacrifício pelo pecado, vemos expiação efetuada segundo as
exigências da justiça divina em relação ao pecado. Mas quando
vemos a expiação no holocausto, é segundo a medida da boa
vontade e capacidade de Cristo para cumprir a vontade de Deus,
segundo a medida de complacência de Deus em Cristo e na Sua
obra. Quão perfeita deve ser a expiação que é o fruto da devoção
de Cristo a Deus! Poderia haver alguma coisa além distou
Certamente que não. O aspecto da expiação que o holocausto dá é
o que deve ocupar a família sacerdotal nos átrios da casa do
Senhor, para sempre.
A Preparação do Sacrifício
"Então, esfolará o holocausto, e o partirá nos seus pedaços.
O ato cerimonial de "esfolar" era particularmente expressivo. Era
simplesmente remover a cobertura exterior, a fim de se patentear
completamente o que havia no
interior. Não era suficiente a oferta
ser exteriormente "sem mancha", "as entranhas" deviam ser
postas a descoberto para que cada músculo e cada juntura
pudessem ser vistas. Era só no caso do holocausto que se
mencionava especialmente este ato. Isto está perfeitamente de
acordo com o conjunto do tipo, e tende a fazer realçar a profunda
devoção de Cristo ao Pai.
Não se limitava a cumprir uma missão. Quanto mais se
revelavam os segredos da Sua vida íntima e as profundidades do
Seu coração eram exploradas, tanto mais manifesta se tornava
essa pura devoção à vontade do Pai, e o desejo ardente pela Sua
glória. Estas eram as fontes de ação do grande Antítipo do
holocausto. Ele foi seguramente o perfeito holocausto.
"E o partirá nos seus pedaços". Este ato apresenta uma
verdade um tanto semelhante à que é ensinada no "incenso
aromático
moído” (Lv 16:12).
O Espírito Santo deleita-se em se deter sobre a doçura e
fragrância do sacrifício de Cristo, não só como um todo, como
também em todos os seus mínimos pormenores. Considerai o
Holocausto como um todo e vê-lo-eis sem mancha. Considerai-o
em todas as suas partes e vereis como é o mesmo. Assim era
Cristo; e como tal é prefigurado neste importante tipo.
"E os filhos de Arão, os sacerdotes, porão fogo sobre o altar,
pondo em ordem a lenha sobre o fogo. Também os filhos de Arão,
os sacerdotes, porão em ordem os pedaços, a cabeça e o redenho,
sobre a lenha que está no fogo em cima do altar". Isto era uma
posição elevada para a família sacerdotal. O holocausto era
totalmente oferecido a Deus. Era tudo queimado sobre o altar (
!); o
homem não participava dele; mas os filhos do sacerdote Arão,
sendo também sacerdotes, mantinham-se em redor do altar de
Deus contemplando a chama que se erguia do sacrifício aceitável
em aroma suave. Era uma posição elevada — uma elevada
comunhão — uma elevada ordem no serviço sacerdotal —, uma
figura notável da Igreja em comunhão com Deus relacionada no
perfeito cumprimento da Sua vontade na morte de Cristo. Como
pecadores convictos, contemplamos a cruz de nosso Senhor Jesus
Cristo, e vemos nela aquilo que satisfaz todas as nossas
necessidades. A cruz, neste aspecto, dá perfeita paz à consciência.
Por isso, como sacerdotes, como adoradores purificados, como
membros da família sacerdotal, nós podemos olhar para a cruz
sob outra luz diferente, ou seja a completa consumação do santo
propósito de Cristo de cumprir, até mesmo na morte, a vontade do
Pai. Como pecadores convictos, permanecemos junto do altar de
cobre, e encontramos paz por meio do sangue da expiação; mas,
como sacerdotes, permanecemos ali para observar e admirar a
perfeição daquele holocausto — a perfeita rendição e apresentação
a Deus d'Aquele que era incontaminado.
____________________
(
1) E talvez conveniente, em ligação com este ponto, informar o leitor que o
vocábulo hebraico traduzido por "queimado" no caso do holocausto é inteiramente
diferente daquele que é empregado na expiação do pecado. Vou referir,
devido ao interesse peculiar do assunto, algumas passagens em que ocorre esta
palavra. A palavra usada no holocausto significa "incenso" ou "queimar
incenso", e ocorre nas seguintes passagens numa ou noutra das suas diferentes
inflexões: Levítico 6:15, "... e todo o incenso... e o acenderá sobre o altar".
Deuteronômio 33:1. "E farás um altar para queimar incenso". Salmo 66:15, "...
odorante fumo de carneiros"; "... o incenso que queimaste nas cidades de Judá";
Cantares 3:6, "... colunas de fumo, perfumada de mirra, de incenso". As
passagens podiam multiplicar-se, porém estas bastam para mostrar o uso da
palavra que ocorre no holocausto.
A palavra hebraica traduzida por "queimar", em ligação com a expiação
do pecado, significa queimar, em geral, e aparece nas seguintes passagens:
Gênesis 11:3, "... façamos tijolos, e queimemo-los bem"; Levítico 10:16, "E
Moisés diligentemente buscou o bode da expiação e eis que já era queimado"; 2
Crônicas 16-14, "... e fizeram-lhe queima mui grande".
Assim, a oferta por expiação do pecado não só era queimada num lugar
diferente, como é adotada uma palavra diferente pelo Espírito Santo para
expressar o ato pelo qual era consumida. Ora nós não podemos imaginar, nem
por um momento, que esta distinção seja apenas uma troca de palavras, cujo
emprego é indiferente. Creio que a sabedoria do Espírito Santo é tão
manifestada no emprego das duas palavras como em qualquer outro ponto de
diferença entre as duas ofertas. O leitor espiritual não deixará de dar o próprio
valor a esta interessante distinção.
Teríamos uma idéia muito imperfeita do mistério da cruz, se
nela víssemos somente aquilo que satisfaz as necessidades do
homem como pecador. Havia profundidades nesse mistério que só
a mente de Deus podia aprofundar.
E, por isso, importante ver que, quando o Espírito Santo nos
apresenta figuras da cruz, dá-nos, em primeiro lugar, aquela que
no-lo mostra em relação com Deus. Isto seria suficiente para nos
ensinar que há altos e baixos na doutrina da cruz que o homem
nunca pode atingir. Pode aproximar-se da fonte de alegria e beber
para sempre — pode satisfazer as mais veementes aspirações do
seu espírito — pode explorá-la com todos os recursos da sua nova
natureza, mas, depois de tudo, existe na cruz aquilo que só Deus
pode apreciar. E por isso que o holocausto ocupa o primeiro lugar.
Tipifica a morte de Cristo vista e apreciada somente por Deus. E
certamente, podemos dizer que não poderíamos passar sem uma
tal figura; porque não só nos dá o aspecto mais elevado da morte
de Cristo, como também um pensamento precioso referente ao
interesse particular que Deus tinha nessa morte. O próprio fato de
Deus ter instituído um tipo da morte de Cristo, o qual devia ser
exclusivamente para Si, contém um volume de instrução para a
mente espiritual.
Mas apesar de nem os anjos nem os homens puderem
jamais sondar perfeitamente as profundezas espantosas do
mistério da morte de Cristo, nós podemos, pelo menos, discernir
algumas das suas características, que a fazem mais do que
preciosa para o coração de Deus. E da cruz que Ele recolhe a mais
rica glória. De nenhuma outra maneira teria sido tão glorificado
como pela morte de Cristo. É na entrega voluntária que Cristo fez
de Si mesmo à morte que a glória divina resplandece em todo o
seu fulgor. Sobre ela foi posto também o fundamento sólido de
todos os desígnios divinos.
Isto é uma verdade muito consoladora. A criação nunca
poderia ter oferecido um tal fundamento. Além disso, a cruz
oferece um justo canal através do qual o amor divino pode fluir. E,
finalmente, pela cruz, Satanás é confundido para sempre, e "os
principados e potestades" foram publicamente expostos (Cl 2:15).
Estes são os gloriosos frutos resultantes da cruz; e, quando
pensamos neles, podemos ver a razão por que era preciso que
houvesse um tipo da cruz exclusivamente para Deus, e também a
razão por que esse tipo devia ocupar uma posição eminente devia
estar à cabeça da lista das ofertas. E deixai-me dizer que teria
havido uma falta grave entre os símbolos se faltasse o holocausto;
e haveria também uma omissão lamentável nas páginas
inspiradas se tivesse sido omitido o registro desse símbolo.
Uma Oferta Queimada de Cheiro Suave ao S
ENHOR
"Porém a sua fressura e as suas pernas lavar-se-ão com
água; e o sacerdote tudo isto queimará sobre o altar; holocausto é,
oferta queimada, de cheiro suave ao S
ENHOR." Este ato tornava o
sacrifício simbolicamente no que Cristo foi essencialmente—puro
tanto no íntimo como exteriormente. Havia a mais perfeita ligação
entre os motivos íntimos de Cristo e a Sua conduta exterior. Esta
era a expressão daqueles. Tudo tinha o mesmo fim — a glória de
Deus. Os membros do Seu corpo obedeciam perfeitamente e
executavam os desígnios do Seu consagrado coração—esse
coração que pulsava só por Deus e a Sua glória na salvação dos
homens. Bem podia, portanto, o sacerdote "queimar
tudo isto
sobre o altar". Tudo era tipicamente puro e destinado para ser
como alimento para o altar de Deus. De alguns sacrifícios
participava o sacerdote; de outros o oferente; mas o holocausto era
"todo" consumido no altar. Era exclusivamente para Deus. Os
sacerdotes podiam preparar a lenha e o fogo, e ver subir a chama;
e isto era um grande e santo privilégio. Mas não comiam do
sacrifício. Deus era o único objetivo de Cristo no aspecto em que o
holocausto tipificava a Sua morte. Não devemos ser
demasiadamente simples na nossa compreensão de tudo isto.
Desde o momento em que o macho sem mancha era
voluntariamente apresentado à porta da lenha da congregação até
ser reduzido a cinzas por ação do fogo, discernimos nele Cristo
oferecendo-se a Si mesmo a Deus incontaminado pelo Espírito
Eterno.
Isto torna o holocausto inefávelmente precioso para a alma.
Dá-nos a visão sublime da obra de Cristo. Nessa obra Deus teve
particular prazer — um gozo em que nenhuma inteligência criada
podia penetrar. Isto deve ter-se sempre em vista. É desenrolado no
holocausto e confirmado "pela lei do holocausto", a que nos vamos
referir imediatamente.
A Lei do Holocausto
"Falou mais o S
ENHOR a Moisés, dizendo: Dá ordem a Arão e
a seus filhos, dizendo: Esta é a lei do holocausto: o holocausto
será queimado sobre o altar toda a noite até pela manhã, e o fogo
do altar arderá nele. E o sacerdote vestirá a sua veste de Unho, e
vestirá as calças de Unho sobre a sua carne, e levantará a cinza,
quando o fogo houver consumido o holocausto sobre o altar, e a
porá junto ao altar. Depois, despirá as suas vestes, e vestirá
outras vestes, e levará a cinza fora do arraial para um lugar limpo.
O fogo, pois, sobre o altar arderá nele, não se apagará; mas o
sacerdote acenderá lenha nele cada manhã, e sobre ele porá em
ordem o holocausto, e sobre ele queimará a gordura das ofertas
pacíficas. O fogo arderá continuamente sobre o altar; não se
apagará" (Lv 6:8 -13). O fogo no altar consumia o holocausto e a
gordura da oferta pacífica. Era a própria expressão da santidade
divina que encontrou em Cristo e no Seu perfeito sacrifício um
elemento próprio para se alimentar. Esse fogo não devia nunca
extinguir-se. Tinha de haver manutenção perpétua daquilo que
representava a ação da santidade divina. No meio das trevas e
vigílias silenciosas da noite o fogo ardia sobre o altar de Deus.
"E o sacerdote vestirá a sua veste de linho". Aqui, o
sacerdote toma, em figura, o lugar de Cristo, cuja justiça pessoal é
representada pela veste de linho. Havendo-se entregado a Si
mesmo à morte de cruz, a fim de cumprir a vontade de Deus,
entrou no céu com a Sua própria justiça, levando consigo os
sinais de ter completado a Sua obra. As cinzas atestavam que o
sacrifício estava consumado e que havia sido aceito por Deus.
Essas cinzas, postas ao lado do altar, indicavam que o fogo tinha
consumido o sacrifício — que era um sacrifício não apenas
consumado, mas aceito. As cinzas do holocausto declaravam a
aceitação do sacrifício. As cinzas da expiação do pecado
declaravam que o pecado fora julgado.
Muitos dos pontos que temos estado a considerar
reaparecerão perante nós no decorrer do estudo dos sacrifícios
com mais clareza, precisão e poder. Postas cm contraste umas
com as outras, as ofertas adquirem mais relevo. Consideradas em
conjunto dão-nos uma visão completa de Cristo. São como
espelhos dispostos de tal maneira que refletem, sob diferentes
aspectos, a imagem do verdadeiro e único sacrifício perfeito.
Nenhuma figura por si só pode representá-Lo em toda a sua
plenitude. E necessário contemplar-mo-Lo na vida e na morte
como Homem e como Vítima em relação com Deus e conosco; e é
assim que no-Lo apresentam os sacrifícios de Levítico.
Deus, que satisfez misericordiosamente as necessidades das
nossas almas, permita que a nossa inteligência seja também
iluminada para compreendermos e desfrutarmos aquilo que nos
preparou.
— CAPÍTULO 2 —
A OFERTA DE MANJARES: CRISTO NA SUA
HUMANIDADE
Vamos considerar agora a oferta de manjares, que, de uma
maneira muito clara, apresenta Cristo Jesus como Homem. Assim
como o holocausto simboliza Cristo
na morte, a oferta de manjares
representa-O na
vida. Nem num nem no outro se trata da questão
de levar o pecado. No holocausto vemos expiação, mas não é uma
questão de levar o pecado (
1) — não é imputação do pecado — nem
manifestação da ira por causa do pecado. Como podemos saber
isto? Porque tudo era consumido sobre o altar. Se houvesse nele
alguma coisa referente à remoção do pecado teria sido consumado
fora do arraial (veja Lv 4:1,12 com Hb 13:11).
Porém, na oferta de manjares nem sequer havia
derramamento de sangue. Encontramos nela uma formosa figura
de Cristo, como viveu, andou e serviu na terra. Este fato, em si, é
suficiente para persuadir a mente espiritual a considerar esta
oferta atentamente e com oração. A humanidade pura e perfeita de
nosso bendito Senhor é um tema que requer a atenção de todo o
verdadeiro crente. É de recear que prevaleça muita liberdade de
pensamento sobre este santo mistério. As expressões que às vezes
se ouvem e se lêem bastam para provar que a doutrina
fundamental da encarnação não é compreendida como a Palavra
de Deus no-la apresenta. Tais expressões podem, muito
provavelmente, proceder de uma má compreensão da natureza
verdadeira das Suas relações e do verdadeiro caráter dos Seus
sofrimentos; mas seja qual for a causa que lhes dá origem, devem
ser julgadas à luz das Sagradas Escrituras e rejeitadas.
Infalivelmente, muitos dos que fazem uso dessas expressões
recuariam como horror e justa indignação ante a verdadeira
doutrina que elas encerram, se esta fosse exposta perante eles no
seu verdadeiro e extenso caráter; e, por esta razão, deve haver o
cuidado de não atribuir erro à verdade fundamental, quando pode
muito bem ser apenas incorreção de linguagem.
____________
(
1) Não se salienta a idéia de levar o pecado. Mas, claro, quando há
expiação existe a questão de pecado.
Existe, contudo, uma consideração que deve pesar
grandemente nas apreciações de todo o cristão, a saber: a
natureza vital da doutrina da humanidade de Cristo. Encontra-se
no próprio fundamento do cristianismo; e, por esta razão, Satanás
tem procurado diligentemente, desde o princípio, induzir as
pessoas em erro a este respeito. Quase todos os erros principais
que se têm introduzido na igreja professa revelam o propósito
satânico de minar a verdade quanto à pessoa de Cristo. E até
homens piedosos ao pretenderem combater esses erros caem, em
muitos casos, em erros do lado oposto. Daí a necessidade de
prestarmos atenção às próprias palavras de que o Espírito Santo
fez uso para revelar este sagrado e profundo mistério.
Na realidade, eu creio que, em todos os casos, a submissão à
autoridade das Sagradas Escrituras e a energia da vida divina na
alma são os melhores meios de proteção contra toda a espécie de
erro. Não são precisos grandes conhecimentos teológicos para
preparar uma alma de modo a evitar erros a respeito da doutrina
de Cristo. Se a palavra de Cristo habitar abundantemente na alma
e "o Espírito de Cristo" estiver nela em poder, não haveria lugar
para Satanás introduzir as suas sombrias e horríveis sugestões.
Se o coração se compraz no Cristo das Escrituras, fugirá
seguramente dos falsos Cristos que Satanás lhe apresenta. Se nos
alimentarmos da realidade de Deus, rejeitaremos sem hesitação as
limitações de Satanás. Este é o melhor meio de escapar aos
enredos do erro, qualquer que seja a sua forma e caráter. "As
ovelhas ouvem a sua voz[...] e o seguem, porque
conhecem a sua
voz.
Mas, de modo nenhum, seguirão o estranho, antes fugirão
dele; porque
não conhecem a voz dos estranhos" (Jo 10:3-5). Não é
necessário, de modo algum, estar-se habituado à voz de um
estranho para se fugir dele; tudo que precisamos é conhecer a voz
do "Bom Pastor". Este conhecimento nos guarda da influência
ardilosa de todos os estranhos. Portanto, embora me sinta
chamado para prevenir o leitor contra sons estranhos, a respeito
do mistério divino da humanidade de Cristo, não me parece
necessário discutir tais sons, mas procurarei antes, pela graça,
avisá-lo contra erros, apresentando a doutrina das Escrituras
sobre o assunto.
Poucas coisas há em que revelamos maior fraqueza do que
em mantermos uma comunhão vigorosa com a perfeita
humanidade de nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso sofremos
tanto com a falta de frutos, inquietação, divagações e erro. Se
estivéssemos compenetrados, mercê de uma fé simples, da
verdade que à direita da Majestade nos céus está um Homem real
— Um cuja simpatia é perfeita, cujo amor é insondável, cujo poder
é onipotente, cuja sabedoria é infinita, cujos recursos são
inesgotáveis, cujas riquezas são inexauríveis, cujo ouvido está
sempre atento às nossas petições, cuja mão está aberta a todas as
nossas necessidades, cujo coração está cheio de ternura e amor
inefável por nós — quanto mais felizes e elevados seríamos e
quanto mais independentes dos meios correntes da criatura
estaríamos, fosse qual fosse o canal por onde viessem"? Não há
nada que o coração possa desejar que não tenhamos em Jesus.
Suspira por verdadeira simpatia"? Onde poderá encontrá-la senão
n'Aquele que pôde juntar as Suas lágrimas às das desoladas irmãs
de Betânia
1?- Anela o gozo de uma sincera afeição"? Só pode
encontrá-la no coração que manifestou o seu amor em gotas de
sangue. Procura a proteção de um poder eficaz"? Nada mais tem a
fazer senão olhar para Aquele que criou o mundo. Sente
necessidade de uma sabedoria infalível para o guiara Entregue-se
Aquele que é a sabedoria; "o qual por nossos pecados foi feito por
Deus sabedoria". Em resumo, temos tudo em Cristo.
A mente divina e as afeições divinas encontraram um
objetivo perfeito em "Jesus Cristo, homem"; e, seguramente, se
existe na pessoa de Cristo o que pode satisfazer Deus
perfeitamente, há também o que nos deveria satisfazer, e nos
satisfará, na proporção em que, pela graça do Espírito Santo,
andarmos em comunhão com Deus.
Cristo, o Homem Perfeito
O Senhor Jesus Cristo foi o único homem perfeito que
jamais pisou esta terra. Era todo perfeito — perfeito em
pensamento, palavras e ação. N'Ele todas as qualidades morais se
encontravam em divina e, portanto, perfeita proporção. Nenhuma
qualidade pré-ponderava. N'Ele entrelaçavam-se singularmente a
majestade que amedrontava e a delicadeza que dava um perfeito à
vontade na Sua presença. Os escribas e fariseus eram
severamente censurados por Ele, enquanto que a samaritana e a
mulher que era "pecadora" eram inexplicável e irresistivelmente
atraídas para Ele. Nenhuma qualidade deslocava outra, porque
tudo estava em bela e airosa proporção. Isto pode verificar-se em
todas as cenas da Sua perfeita vida. Podia dizer a respeito de cinco
mil pessoas famintas: "Dai-lhes vós de comer"; e, depois de
estarem satisfeitas podia acrescentar, "Recolhei os pedaços que
sobejaram, para que nada se perca".
A benevolência e a economia são ambas perfeitas. Uma não
interfere com a outra. Cada uma brilha na sua própria esfera. Não
podia despedir a multidão faminta; tampouco podia permitir que
um simples fragmento do que Deus criara fosse desperdiçado.
Supria com mão-cheia e liberal as necessidades da família
humana, e, quando isso fora feito, guardava cuidadosamente cada
átomo deixado. A mesma mão que estava sempre aberta a toda a
forma de necessidade humana estava firmemente fechada contra
toda a prodigalidade. Nada havia de mesquinho nem tampouco de
extravagante no caráter do Homem perfeito, o Homem do céu.
Que lição para nós! Quantas vezes acontece conosco que a
benevolência degenera em injustificável prodigalidade! E, por
outro lado, quantas vezes a nossa economia é manchada pela
exibição de um espírito avaro!
Por vezes os nossos corações mesquinhos recusam abrir-se
às necessidades que se nos apresentam; enquanto que noutras
ocasiões dissipamos por frívola extravagância o que poderia
satisfazer muitos dos nossos semelhantes necessitados. Oh!
prezado leitor, estudemos atentamente o quadro divino que nos é
apresentado na vida de "Jesus Cristo, homem". Quão confortante
e edificante é para "o homem interior" estar ocupado com Aquele
que foi perfeito em todos os Seus caminhos e que em tudo deve ter
a "preeminência"!
Vede-O no jardim do Getsêmane. Ali, Ele ajoelha-Se no
recôndito profundo de uma humildade que ninguém senão Ele
podia mostrar; mas, todavia, adiante do bando do traidor mostra
uma presença de espírito e majestade que nos faz retroceder e cair
por terra. O seu comportamento diante de Deus é de prostração;
mas perante os Seus juízes e acusadores de dignidade inflexível.
Tudo é perfeito. O desapego, a humildade, a prostração e a
dignidade são divinos.
Assim também quando contemplamos a combinação
formosa das Suas relações divinas e humanas observa-se a
mesma perfeição. Ele podia dizer, "Porque é que me procuráveis?
Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai??-" E,
ao mesmo tempo, podia descer a Nazaré e dar ali um exemplo de
perfeita sujeição à autoridade paternal (veja Lc 2:49-51). Podia
dizer a Sua mãe: "Mulher, que tenho eu contigo?" E contudo ao
passar pela agonia indizível da cruz podia confiar ternamente
aquela mãe ao cuidado do discípulo amado. No primeiro caso, Ele
separou-se no espírito de perfeito nazireu, deu expressão aos
ternos sentimentos do perfeito coração humano. A devoção do
Nazireu e a afeição do homem eram igualmente perfeitas. Não
houve interferência nem num caso nem no outro. Cada uma
brilhava com brilho límpido na sua própria esfera.
Agora, a sombra deste Homem perfeito passa perante nós na
"flor de farinha" que formava a base da oferta de manjares. Não
havia nela um grão mal moído. Nada desigual, nada desproporcional,
nada revelava aspereza. Não importava qual fosse a pressão
vinda do exterior, a superfície era sempre uniforme. O Senhor
nunca foi perturbado por quaisquer circunstâncias. Nunca teve de
retroceder um passo ou retirar uma palavra. Viesse o que viesse
enfrentava sempre as circunstâncias com aquela uniformidade
admiravelmente simbolizada na "flor de farinha".
Em todas estas coisas desnecessário é dizer que Ele está em
flagrante contraste com os Seus mais honrados e consagrados
servos. Por exemplo, Moisés, embora fosse "muito mais manso do
que todos os homens que havia sobre a terra" (Nm 12:3) "falou
imprudentemente com seus lábios" (SI 106:33). Em Pedro vemos
um zelo e uma energia que, por vezes, eram excessivos; e, também
noutras ocasiões, uma covardia que o levava a fugir do lugar de
testemunho e vitupério. Fazia afirmações de uma devoção que,
quando chegava a altura de agir, não se via. João, que respirava
tanto da atmosfera da presença imediata de Cristo, manifestou,
por vezes, um espírito sectário e intolerante. Em Paulo, o mais
consagrado dos servos, descobrimos considerável desigualdade:
dirigiu palavras ao sumo sacerdote que teve de retirar (At 23).
Escreveu uma carta aos Coríntios, de que logo se arrependeu,
para mais tarde não se arrepender (2 Co 7:8). Encontramos em
todos qualquer falha, menos n'Aquele que "é cândido e totalmente
desejável entre dez mil".
No estudo da oferta de manjares, para mais clareza e
simplicidade dos nossos pensamentos, convém considerar
primeiro os materiais de que era composta; depois as diversas
formas em que era apresentada; e, por último, as pessoas que
participavam dela.
Os Ingredientes da Oferta de Manjares
a) A Flor de Farinha Amassada com Azeite
Quanto aos materiais, a "flor de farinha" pode ser
considerada como a base da oferta; nela temos uma figura da
humanidade de Cristo, na qual se encontram todas as perfeições.
Nela se encontram também todas as virtudes prontas para ação
eficiente, a seu tempo. O Espírito Santo deleita-se em mostrar a
glória de Cristo, em O apresentar em toda a Sua excelência
incomparável — em O apresentar diante de nós em contraste com
tudo mais. Põe-no em contraste com Adão, até mesmo no seu
melhor e mais elevado estado, como lemos: "O primeiro homem,
da terra, é terreno; o segundo homem, o Senhor, é do céu" (1 Co
15:47). O primeiro Adão, até mesmo no seu estado de inocência,
era "da terra"; mas o segundo Homem era "o Senhor do céu".
O "azeite", na oferta de manjares, é um símbolo do Espírito
Santo. Mas assim como o azeite é aplicado de um modo duplo, o
Espírito Santo é apresentado num duplo aspecto,
em relação com
a
encarnação do Filho. A flor de farinha era "amassada" com
azeite; e sobre ela era
deitado azeite (versículos 5,6). Tal era o tipo;
e no Antítipo vemos o bendito Senhor Jesus Cristo, primeiro
"concebido"
e então "ungido" pelo Espírito Santo (compare Mt
1:18,23 com capítulo 3:16). Isto é divino! A exatidão é tão clara
que provoca a admiração da alma. O mesmo Espírito que dita os
ingredientes do tipo dá-nos os fatos ocorridos com o Antítipo. O
mesmo que referiu com assombrosa precisão as figuras e sombras
do Livro de Levítico deu-nos também o seu glorioso objetivo nas
páginas do evangelho. O mesmo Espírito sopra através das
páginas do Velho e do Novo Testamento e permite-nos ver como
um corresponde exatamente ao outro.
A concepção da humanidade de Cristo, pelo Espírito Santo,
no ventre da virgem descobre um dos mais profundos mistérios
que pode prender a atenção da mente renovada. E plenamente
revelado no Evangelho de Lucas; e isto é inteiramente
característico, visto que, através de todo esse evangelho, parece
ser objetivo especial do Espírito Santo revelar, na Sua maneira
terna e divina, "o Homem Cristo Jesus". Em Mateus temos "O
Filho de Abraão" — "Filho de Davi". Em Marcos temos o Servo
Divino — o Obreiro Celestial. Em João temos "o Filho de Deus"—o
Verbo Eterno — a Vida, Luz, por Quem todas as coisas foram
feitas. Porém, o grande tema do Espírito Santo no Evangelho de
Lucas é "o Filho do homem".
Quando o anjo Gabriel anunciou a Maria a honra que lhe ia
ser conferida em relação com a grande obra da encarnação, ela,
não com espírito de cepticismo, mas de honesta ignorância,
perguntou: "Como se fará isto, visto que não conheço varãoí"
Claramente, imaginava que o nascimento desta gloriosa Pessoa
que estava prestes a aparecer devia ser segundo os princípios
normais da geração; e este seu pensamento torna-se, na infinita
bondade de Deus, a ocasião de derramar luz sobre a verdade
fundamental da encarnação. A resposta do anjo à pergunta da
virgem é muito interessante e merece ser considerada a fundo. "E
respondendo o anjo disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e
a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; pelo que
também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de
Deus" (Lc 1:35).
Desta magnífica passagem aprendemos que o corpo humano
que o Filho eterno de Deus tomou foi formado pela "virtude do
Altíssimo". Um "corpo me preparaste" (compare-se SI 40:6 com Hb
10:5). Foi um verdadeiro corpo humano—verdadeiramente "carne
e sangue". Não há aqui fundamento possível para as teorias
inúteis e inconsistentes do agnosticismo ou misticismo; nenhuma
justificação para as frias abstrações do primeiro ou a fantasia
obscura do último. Tudo é profunda, sólida e divina realidade. O
que os nossos corações necessitam é precisamente o que Deus
nos deu. A primitiva promessa havia declarado que "a semente da
mulher havia de ferir a cabeça da serpente", e ninguém, a não ser
um verdadeiro homem, podia cumprir esta predição—alguém cuja
natureza humana fosse tão real quanto era pura e incorruptível.
"Eis que em teu ventre conceberás", disse o mensageiro angélico,
"e darás à luz filho ('). E, então, para que não houvesse lugar para
qualquer erro quanto ao modo desta concepção, ele acrescenta
palavras que provam indubitavelmente que "a carne e o sangue"
de que o Filho eterno "participou", ao mesmo tempo que era
absolutamente real, era absolutamente incapaz de receber, reter
ou comunicar uma simples mancha. A humanidade do Senhor
Jesus era, enfaticamente, "O Santo".
E, visto que era inteiramente sem mancha, não havia nela o
princípio mortalidade. Não podemos pensar na mortalidade sem a
relacionar com o pecado; e a humanidade de Cristo não tinha
nada a ver com o pecado, quer pessoal quer relativamente. O
pecado foi-Lhe imputado na cruz, onde "ele foi feito pecado por
nós". Mas a oferta de manjares não é uma figura de Cristo
tomando sobre Si o pecado. Prefigura-O na Sua vida perfeita aqui
na terra — uma vida em que sofreu, sem dúvida, mas não como
Aquele que leva sobre si o pecado, não como substituto nem como
sofrendo às mãos de Deus. Convém distinguir isto claramente.
Nem no holocausto nem na oferta de manjares se prefigura Cristo
levando sobre Si o pecado. Nesta vêmo-Lo
vivendo, e naquele
vêmo-Lo
morrendo na cruz; mas em nenhuma destas ofertas existe
a questão de imputar o pecado nem de suportar a ira de Deus por
causa do pecado. Em resumo, apresentar Cristo como o substituto
do pecador em qualquer lugar a não ser na cruz é privar a Sua
vida de toda a sua beleza divina e excelência, e deslocar
inteiramente a cruz. Além disso, isto envolveria em confusão
irremediável as figuras do livro de Levítico.
_______________
(
1) "Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de
mulher, nascido sob a lei" (Gl 4:4). Esta passagem é muito importante, visto que
apresenta o bendito Senhor como Filho de Deus e Filho do homem. "Deus enviou
o seu Filho, nascido de mulher". Que precioso testemunho!
Quero advertir o leitor que nunca poderá ser escrupuloso demais
em referência à verdade essencial da Pessoa do Senhor Jesus
Cristo e Suas relações. Tudo que não tiver esta verdade por base
não pode receber a sanção de Deus. A Pessoa de Cristo é o centro
vivo e divino ao redor do qual o Espírito Santo exerce toda a Sua
atividade. Deixar escapar a verdade a este respeito e, à
semelhança de um barco que parte as amarras e é levado sem
leme ou bússola sobre a turbulenta imensidade líquida, vós
correreis o perigo iminente de vos despedaçardes contra as rochas
do arianismo, da infidelidade ou do ateísmo. Duvidai da eterna
Filiação de Cristo; duvidai da Sua divindade ou da Sua
humanidade incontaminada, e tereis aberto as comportas à
corrente do erro mortal. Ninguém julgue, nem por um momento,
que isto é apenas um assunto para ser discutido entre teólogos —
uma questão curiosa, um mistério abstrato ou um ponto sobre o
qual podemos legalmente discordar. Não; é uma verdade essencial
e basilar, para ser retida na energia do Espírito Santo e mantida a
todo o custo — na verdade, para ser confessada em todas as
circunstâncias, sejam quais forem as conseqüências.
O que nós precisamos é receber simplesmente em nossos
corações, pela graça do Espírito Santo, a revelação que o Pai faz
do Filho, e, então, as nossas almas serão eficazmente preservadas
das ciladas do inimigo, seja qual for a forma que elas tomarem. O
inimigo pode cobrir plausivelmente as armadilhas do arianismo ou
socinianismo com a erva e as folhas de um atrativo e plausível
sistema de interpretação; mas o coração piedoso descobre
imediatamente o que este sistema pretende fazer de Aquele
bendito Senhor a quem tudo deve e onde ele pretende colocá-lo, e,
não encontra dificuldade em o remeter ao lugar de onde veio.
Podemos muito bem dispensar as teorias humanas; mas não
podemos prescindir de Cristo — o Cristo de Deus; o Cristo das
afeições de Deus; o Cristo dos desígnios de Deus; o Cristo da
Palavra de Deus.
O Senhor Jesus Cristo, o Filho eterno de Deus, uma Pessoa
distinta da Trindade gloriosa, Deus manifestado em carne, Deus
sobre todas as coisas, bendito eternamente, tomou um corpo que
era inerente e divinamente puro, santo e sem possibilidade de
contrair mancha—absolutamente isento de toda a semente ou
princípio de pecado e mortalidade. A humanidade de Cristo era tal
que Ele podia a todo o momento, tanto quanto Lhe dizia
pessoalmente respeito, voltar para o céu, de onde tinha vindo, e ao
qual pertencia. Dizendo isto, não me refiro aos desígnios eternos
do amor redentor ou do amor inalterável do coração de Jesus—o
Seu amor por Deus, o Seu amor pelos eleitos de Deus ou da obra
que era necessária para ratificar o concerto eterno de Deus com a
semente de Abraão e toda a criação. As próprias palavras de
Cristo ensinam-nos que "convinha que padecesse e ressuscitasse
ao terceiro dia" (L c 24:46). Era necessário que sofresse para
perfeita manifestação e pleno cumprimento do grande mistério da
redenção. Era Seu clemente propósito "trazer muitos filhos à
glória". Não queria "ficar só", e, portanto, Ele, como "o grão de
trigo", devia "cair na terra e morrer". Quanto melhor
compreendermos
a verdade da Sua Pessoa, tanto melhor
compreenderemos
a graça da Sua obra.
Quando o apóstolo fala de Cristo como havendo sido
consagrado pelas aflições
considera-O como "o príncipe da nossa
salvação" (Hb 2:10); e não como o Filho eterno, que, pelo que diz
respeito à Sua própria pessoa e natureza, era divinamente perfeito
sem que fosse possível acrescentar alguma coisa ao que Ele era.
Assim, também, quando o próprio Senhor diz: "Eis que eu expulso
demônios, e efetuo curas hoje e amanhã, e no terceiro dia sou
consumado" (Lc 13:22) refere-Se ao fato de ser consumado no
poder da ressurreição como o Consumador de toda a obra da
redenção. Tanto quanto Lhe dizia respeito, Ele podia dizer, até
mesmo ao sair do Jardim do Getsêmane: "Ou pensas tu que eu
não poderia, agora, orar a meu Pai e que ele não me daria mais de
doze legiões de anjos? Como, pois se cumpririam as Escrituras,
que dizem que assim convém que aconteça"? (Mt 26:53,54).
É bom que a alma seja esclarecida acerca disto — é bom ter
uma compreensão divina da harmonia que existe entre aquelas
passagens das Escrituras que apresentam Cristo na dignidade
essencial da Sua pessoa e pureza da Sua natureza e aquelas que
O apresentam em relação com o Seu povo e cumprindo a grande
obra da redenção. Por vezes encontramos estes dois aspectos
ligados na mesma passagem, como em Hebreus 5:8 a 9, "Ainda
que
era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu. E,
sendo ele consumado, veio a ser a causa de eterna salvação para
todos os que lhe obedecem". Devemos contudo lembrar que
nenhuma destas relações em que Cristo entrou voluntariamente,
quer como expressão do amor divino para com o mundo perdido,
quer como o Servo dos desígnios divinos, podia de modo algum
interferir com a pureza essencial, a excelência e a glória da Sua
Pessoa. "O Espírito Santo desceu sobre a virgem", e a virtude do
Altíssimo "cobriu-a com a Sua sombra; pelo que também o santo
que dela nasceu foi chamado Filho de Deus". Magnífica revelação
do mistério da humanidade pura e perfeita de Cristo, o grande
Antítipo da
"flor de farinha amassada com azeite"!
Deixai-me observar que entre a humanidade como se vê no
Senhor Jesus Cristo e a humanidade em nós não pode haver
união. Aquilo que é puro nunca pode ligar-se àquilo que é impuro.
Aquilo que é incorruptível nunca pode unir-se ao que é
corruptível. O espiritual e o carnal — o celestial e o terrestre —
nunca podem combinar-se. Portanto, segue-se que a encarnação
não foi, como alguns têm tentado ensinar-nos, Cristo tomando a
nossa natureza decaída em união consigo Mesmo. Se tivesse feito
isto, a morte da cruz não teria sido necessária. Ele não
necessitava, nesse caso, "angustiar-se" até que se cumprisse o
batismo—não havia necessidade de o grão de trigo "cair na terra e
morrer". Isto é um ponto de grande importância.
A mente espiritual deve ponderar atentamente este fato.
Cristo não podia, de modo algum, tomar a natureza humana
pecaminosa em união consigo. Ouvi o que o anjo disse a José no
primeiro capítulo do evangelho de Mateus. "José, filho de Davi,
não temas receber a Maria, tua mulher, porque
o aue nela está
gerado é do Espírito Santo". Veja-se como a sensibilidade natural
de José, assim como a piedosa ignorância de Maria, dão ocasião a
uma revelação mais completa do santo mistério da humanidade de
Cristo e como contribuem também para proteger essa
humanidade contra todos os ataques blasfemos do inimigo!
Como é então que os crentes são unidos a Cristo
1? É na
encarnação ou na ressurreição? Na ressurreição certamente.
Como é que isto se provai "Se o grão de trigo, caindo na terra, não
morrer fica ele só" (Jo 12:24). Deste lado da morte não podia haver
união entre Cristo e o Seu povo. É no poder de uma nova vida que
os crentes são unidos a Cristo. Eles estavam mortos em pecado, e
Ele, em perfeita graça, desceu e, apesar de puro e imaculado em
Si próprio, "foi feito pecado"—"morreu para
o pecado"—, tirou-o,
ressuscitou triunfante sobre ele e na ressurreição tornou-Se a
Cabeça de uma nova raça. Adão era a cabeça da velha criação,
que caiu com ele. Cristo, pela Sua morte, pôs-se a Si próprio sob
todo o peso da condição do Seu povo, e havendo satisfeito tudo
que era contra eles, ressuscitou vitorioso sobre tudo e levou-os
consigo para a nova criação, da qual Ele é o centro e Chefe
glorioso. Por isso lemos: "O que se ajunta com o Senhor é um
mesmo espírito" (1 Co 6:17).
"Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu
muito amor com que nos amou, estando nós ainda
mortos em
nossas ofensas,
nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça
sois salvos) e nos ressuscitou juntamente com ele, e nos fez
assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus" (Ef 2:4-6).
"Porque somos membros do seu corpo", da Sua carne e dos seus
ossos (Ef 5:30). "E, quando vós estáveis
mortos nos pecados e na
incircuncisão da vossa carne,
vos vivificou juntamente com ele,
perdoando-vos todas as ofensas" (Cl 2:13).
Poderíamos multiplicar as passagens, porém as que
reproduzimos são amplamente suficientes para provar que não foi
na encarnação mas na morte que Cristo tomou uma posição na
qual o Seu povo pôde ser "vivificado com ele". Isto parece
insignificante ao leitora Examine-o à luz da Escritura. Pese todas
as conseqüências. Considere-o em relação com a pessoa de Cristo,
com a Sua vida e com a Sua morte, com a nossa condição, por
natureza, na velha criação, e o nosso lugar, por misericórdia, na
nova. Considere-o assim, e estou persuadido que não voltará a
considerá-lo como um assunto de pouca importância. De uma
coisa, pelo menos, pode o leitor estar certo, que o autor destas
páginas não escreveria uma simples linha para provar este ponto,
se não o considerasse pleno dos mais importantes resultados. O
conjunto da revelação divina está unido de tal maneira e tão bem
ajustado pela mão do Espírito Santo — é tão consistente em todas
as suas partes — que se uma verdade é alterada todo o seu arco é
prejudicado. Esta consideração deveria bastar para produzir na
mente de todo o cristão uma santa atitude de precaução, a fim de
evitar que, por qualquer golpe rude, ele possa prejudicar a beleza
da superestrutura. Cada pedra deve ser deixada no seu lugar
divinamente marcado; e a verdade acerca da Pessoa de Cristo é
incontestavelmente a pedra principal da abóbada.
b) A Flor de Farinha sobre a qual "deitarás azeite"
Havendo procurado assim descrever a verdade simbolizada
pela "flor de farinha
amassada com azeite", podemos considerar
outro ponto de grande interesse na expressão "e
sobre ela deitarás
azeite". Nisto temos uma figura da unção do Senhor Jesus Cristo
pelo Espírito Santo. O corpo do Senhor Jesus não foi apenas
preparado misteriosamente pelo Espírito Santo, como foi ungido,
como vaso santo e puro, para o serviço pelo mesmo poder. "E
aconteceu que, como todo o povo se batizava, sendo batizado
também Jesus, orando ele, o céu se abriu e o Espírito Santo
desceu sobre ele, em forma corpórea, como uma pomba; e ouviuse
uma voz do céu que dizia: Tu és o meu Filho amado; em ti me
tenho comprazido" (1x2:21-22).
O fato de o Senhor Jesus ter sido ungido pelo Espírito Santo
antes da Sua entrada no ministério público é, praticamente, da
máxima importância para todo aquele que deseja realmente ser
verdadeiro e eficiente servo de Deus. Embora concebido quanto à
Sua humanidade pelo Espírito Santo; posto que na Sua Própria
Pessoa fosse "Deus manifestado em carne"; se bem que a
plenitude da Divindade habitasse corporalmente n'Ele; contudo, é
bom notar que, quando se manifesta como homem, para fazer a
vontade de Deus na terra, qualquer que fosse essa vontade, quer
pregando o evangelho, ou ensinando nas sinagogas, quer curando
os enfermos ou purificando os leprosos, quer expulsando os
demônios, alimentando os famintos ou ressuscitando os mortos,
fez tudo pelo Espírito Santo. O vaso santo e celestial em que
aprouve ao Deus Filho aparecer no mundo foi formado, ungido e
dirigido pelo Espírito Santo.
Que profunda e santa lição para nós! Uma lição tão
necessária como salutar! Quão propensos somos a correr sem
sermos enviados! Quão propensos a atuar na energia da carne!
Quanto daquilo que se parece com ministério não é somente
atividade inquieta e profana de uma natureza que nunca foi
medida nem julgada na presença divina! Na realidade, nós
precisamos de contemplar atentamente a nossa divina "oferta de
manjares" para compreendermos melhor o significado da "flor de
farinha amassada com azeite". Precisamos de meditar
profundamente sobre o próprio Cristo, que, apesar de possuir, na
Sua própria pessoa, poder divino, contudo, fez toda a Sua obra,
operou todos os Seus milagres, e, finalmente, "ofereceu-se a si
mesmo imaculado a Deus pelo Espírito eterno" (Hb 9:14). Ele
podia dizer "eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus" (Mt
12:28).
Nada tem qualquer valor senão aquilo que é realizado pelo
poder do Espírito Santo. Um homem pode escrever; porém se a
sua pena não for guiada e usada pelo Espírito Santo, as suas
linhas não produzirão resultados permanentes. Um homem pode
falar; mas se os lábios não forem ungidos pelo Espírito Santo, as
suas palavras não criarão raízes. Isto merece a nossa solene
consideração, e, se for devidamente ponderado, levar-nos-á a
muita vigilância sobre nós próprios e a uma dependência fervorosa
do Espírito Santo. O que precisamos é despojarmo-nos
inteiramente do ego, a fim de haver lugar para o Espírito agir por
nosso intermédio. E impossível que um homem cheio de si mesmo
possa ser o vaso do Espírito Santo. Um tal homem deve primeiro
despojar-se de si mesmo, e então o Espírito Santo pode usá-lo.
Quando contemplamos a Pessoa e o ministério do Senhor Jesus,
vemos como em todas as cenas e circunstâncias, atua pelo poder
direto do Espírito Santo. Havendo tomado o Seu lugar, como
homem, no mundo, mostrou que o homem deve viver não somente
da Palavra mas atuar pelo Espírito de Deus. Ainda que, como
homem, a Sua vontade era perfeita — os Seus pensamentos, as
Suas palavras e as Suas obras eram em tudo perfeitas —, contudo
não atuava senão pela direta autoridade da Palavra e pelo poder
do Espírito Santo. Oh! se nisto, como em tudo mais, nós
pudéssemos seguir mais de perto e fielmente nas Suas pisadas!
Então o nosso ministério seria verdadeiramente eficaz, o nosso
testemunho mais fecundo e toda a nossa vida para glória de Deus.
c) O Incenso
Outro ingrediente da oferta de manjares, que requer a nossa
atenção, é "o incenso". Como tivemos ocasião de verificar, a oferta
de manjares era à base de "flor de farinha". O "azeite" e "o incenso"
eram os dois principais ingredientes acrescentados; e, na
realidade, a relação entre estes dois é muito instrutiva. O "azeite"
simboliza
o poder do ministério de Cristo; "o incenso" simboliza o
seu
objetivo. O primeiro ensina-nos que Ele fez tudo pelo Espírito
de Deus; o último que fez tudo para glória de Deus.
O incenso representa aquilo que na vida de Cristo era
exclusivamente para Deus. Isto é evidente pelo segundo versículo:
"E a trará (a oferta de manjares) aos filhos de Arão, os sacerdotes,
um dos quais tomará dela um punhado da flor de farinha e do seu
azeite com
todo o seu incenso; e o sacerdote queimará este
memorial sobre o altar; oferta queimada é; de cheiro suave ao
S
ENHOR". Assim era a verdadeira oferta de manjares — o Homem
Cristo Jesus. Em Sua vida bendita havia o que era exclusivamente
para Deus. Cada pensamento, cada palavra, cada olhar, cada ato
Seu exalava um perfume que subia diretamente para Deus. E
assim como o símbolo era "o fogo do altar" que fazia sair o cheiro
suave do incenso, assim no Antítipo quanto mais "provado" era,
em todas as cenas e circunstâncias da Sua bendita vida, tanto
mais manifesto se tornava que, na Sua humanidade, não havia
nada que não pudesse subir, como cheiro suave, ao trono de
Deus. Se no holocausto vemos Cristo "oferecendo-se a si mesmo
imaculado a Deus", na oferta de manjares vêmo-Lo apresentar a
Deus toda a excelência intrínseca da Sua natureza humana e
perfeita atividade. Um homem perfeito, vazio de si, obediente, na
terra, fazendo a vontade de Deus, agindo pela autoridade da
Palavra e mediante o poder do Espírito, exalava um perfume suave
que só podia ter aceitação divina. O fato de todo "o incenso" ser
consumido sobre o altar revela a sua importância da maneira
mais simples.
d) O Sal
Agora só nos falta considerar um ingrediente que fazia parte
da oferta de manjares, a saber,
"o sal". "E toda a oferta dos teus
manjares salgarás com sal; e não deixarás faltar à tua oferta de
manjares o sal do concerto do teu Deus; em toda a tua oferta
oferecerás sal". A expressão "o sal do concerto" revela o caráter
permanente desse concerto. Deus Mesmo tem ordenado assim o
seu emprego em todas as coisas para que nunca haja alteração —
nenhuma influência poderá corrompê-lo. Sob o ponto de vista
espiritual e prático, é impossível dar demasiado apreço a um tal
ingrediente. "A vossa palavra seja sempre agradável, temperada
com sal"
(Cl 4:6). Em todas as conversas, o Homem perfeito
mostrava sempre o poder deste princípio. As Suas palavras não
eram simplesmente palavras de graça, mas palavras de penetrante
poder—palavras divinamente adaptadas para preservar de toda a
mancha e influência corrupta. Nunca pronunciou uma palavra
que não fosse perfumada com "incenso" e "temperada com sal". O
primeiro era de todo agradável a Deus; o último, o mais proveitoso
para o homem.
Às vezes, infelizmente, o coração corrompido do homem e o
seu gosto viciado não podiam tolerar a acidez da oferta de
manjares salgada por determinação divina. Observemos, por
exemplo, a cena na sinagoga de Nazaré (Lc 4:16-29). O povo podia
dar-lhe testemunho e "todos... se maravilham das
palavras de
graça
que saíam da sua boca"; mas logo que passou a temperar
essas palavras com
sal, que tão necessário era a fim de os
preservar da influência corruptível do seu orgulho nacional, eles
de boa vontade O teriam precipitado do cume do monte em que a
sua cidade estava edificada.
Assim também em Lucas 14, logo que as Suas palavras de
"graça" atraíram "grandes multidões", Ele deitou-lhes
imediatamente o "sal" ao anunciar em palavras de santa fidelidade
os resultados seguros de O seguirem. "Vinde, que já tudo está
preparado". Aqui estava a "graça". Mas logo em seguida diz:
Qualquer de vós que não renunciar a tudo quanto tem não poder
ser meu discípulo. Aqui estava o "sal". A graça é atrativa; mas "o
sal é bom". Um discurso agradável pode ser popular; mas um
discurso temperado com sal nunca o será. A multidão pode, em
certas ocasiões e sob determinadas circunstâncias, seguir por um
pouco de tempo o puro evangelho da graça de Deus; mas logo que
o "sal" de uma aplicação fervorosa e fiel é introduzido, o auditório
é reduzido ao número daqueles que foram trazidos sob o poder da
Palavra.
Os Ingredientes Excluídos da Oferta de Manjares
a) O Fermento
Havendo assim considerado os ingredientes que compunham
a oferta de manjares, referiremos agora os que eram excluídos
dela.
Destes, o primeiro era "o fermento". "Nenhuma oferta de
manjares, que oferecerdes ao S
ENHOR, se fará com fermento". Por
todo o volume inspirado, sem uma única exceção, o fermento é o
símbolo do
mal. Em capítulo 23 de Levítico, que examinaremos na
devida altura, vemos que o fermento era permitido nos dois pães
que eram oferecidos no dia de Pentecostes (versículo 17); porém,
da oferta de manjares, o fermento era cuidadosamente excluído.
Não devia haver nada que azedasse, nada que fizesse levantar a
massa, nada expressivo do mal naquilo que simbolizava "o Homem
Cristo Jesus". N'Ele não podia haver nada com gosto ao azedume
da natureza, nada turvo, nada susceptível de fazer inchar. Tudo
era puro, sólido e genuíno. A Sua palavra podia, por vezes, ferir
até ao vivo; mas nunca era áspera. O Seu estilo nunca se elevou
acima das ocasiões. O Seu comportamento mostrou sempre a
profunda realidade de quem andava na presença imediata de
Deus.
Nós que professamos o nome de Jesus, sabemos muito bem
como, infelizmente, o fermento se mostra em todas as suas
propriedades e efeitos. Só houve uma gabela pura de fruto
humano — uma única oferta de manjares perfeitamente sem
levedura; e, bendito seja Deus, essa é a nossa — para nos
alimentarmos dela no santuário da presença divina, em
comunhão com Deus. Nenhum exercício espiritual pode realmente
edificar melhor e dar maior refrigério à mente renovada do que
firmarmo-nos sobre a perfeição incontaminável da humanidade de
Cristo — para contemplar a vida e o mistério d'Aquele que foi
absoluta e essencialmente sem levedura. Em toda a origem dos
Seus pensamentos, afeições, desejos e imaginação não havia a
mínima partícula de fermento. Ele foi o Homem perfeito, sem
pecado e imaculado. E quanto mais, no poder do Espírito,
aprofundarmos tudo isto, tanto mais profunda será a nossa
experiência da graça que levou este perfeito Senhor a tomar sobre
Si todas as conseqüências dos pecados do Seu povo, como fez
quando foi pendurado na cruz. Porém, este pensamento pertence
inteiramente ao sacrifício de nosso bendito Senhor, simbolizado na
expiação do pecado. Na oferta de manjares, o pecado não está em
questão. Não é uma figura da expiação do pecado por um
substituto, mas de um Homem real, perfeito, imaculado,
concebido e ungido pelo Espírito Santo, possuindo uma natureza
sem fermento e vivendo uma vida isenta de levedura no mundo;
exalando sempre perante Deus a fragrância da Sua excelência
pessoal e mantendo entre os homens um comportamento
caracterizado pela "graça temperada com sal".
b) O Mel
Porém, havia outro ingrediente tão claramente excluído da
oferta de manjares quanto o "fermento", e este era o "mel". "Porque
de nenhum fermento,
nem de mel algum oferecereis oferta
queimada ao S
ENHOR" (versículo 11). Portanto, assim como o
"fermento" é a expressão daquilo que é positiva e manifestamente
mau
na natureza, podemos considerar o "mel" como o símbolo
expressivo do que é aparentemente
doce e atrativo. Ambos são
proibidos por Deus — ambos eram cuidadosamente excluídos da
oferta de manjares —, ambos impróprios para o altar. Os homens
podem aventurar-se, como Saul, a distinguir entre o que é "vil e
desprezível" (1 Sm 15:9) e o que não é: porém o juízo de Deus
conta o polido Agaque com o mais vil dos filhos de Amaleque. Não
há dúvida que existem boas qualidades morais no homem, que
devem ser consideradas pelo seu valor. "Achaste mel come o que
te basta". Mas recorde-se que não era admitido na oferta de
manjares nem no seu Antítipo. Havia a plenitude do Espírito
Santo; havia o fragrante odor do incenso; havia a virtude
preservativa do "sal do concerto". Todas estas coisas
acompanhavam a "flor de farinha" na Pessoa da verdadeira "oferta
de manjares"; mas nenhum mel.
Que lição se encontra aqui para os nossos corações! Sim,
que volume de sã instrução! O bendito Senhor Jesus sabia como
dar à natureza e às suas relações o lugar próprio. Sabia a
quantidade de "mel"
que era conveniente; podia dizer a Sua mãe:
"Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai" E
todavia podia dizer também ao discípulo amado: "Eis aí tua mãe".
Por outras palavras, nunca permitiu que as pretensões da
natureza interferissem com a apresentação a Deus de todas as
energias da perfeita humanidade de Cristo. Maria e outros
também podiam ter pensado que as suas relações humanas com o
bendito Senhor lhes dava algum direito ou influência peculiar com
base em motivos puramente naturais.
"Chegaram, então, seus irmãos e sua mãe; e, estando de
fora, mandaram-no chamar. E a multidão estava assentada ao
redor dele, e disseram-lhe: Eis que tua mãe e teus irmãos
(segundo a carne) te procuram e estão lá fora" (Mc 3:31-32).
Qual foi a resposta de Aquele que a oferta de manjares
simbolizava em Sua perfeição? Abandonou Ele imediatamente a
Sua missão a fim de atender a chamada da natureza? De modo
nenhum. Se o tivesse feito, teria sido a mesma coisa que misturar
"mel" com a oferta de manjares, o que não podia ser permitido. O
mel foi fielmente excluído nesta ocasião, assim como em todas as
ocasiões em que os direitos de Deus deviam ser atendidos, e, em
seu lugar, o poder do Espírito, o odor do "incenso" e as virtudes do
"sal" foram ditosamente patenteados. "E ele lhes respondeu,
dizendo: Quem é minha mãe e meus irmãos? E, olhando em redor
para os que estavam assentados junto dele disse: Eis aqui minha
mãe e meus irmãos. Porquanto qualquer que fizer a vontade de
Deus, esse é meu irmão, e minha irmã, e minha mãe" (') (Mc 3:33-
35).
Há poucas coisas que o servo de Cristo encontra mais
difíceis do que harmonizar, com precisão espiritual, as pretenções
das relações naturais, de forma a não as deixar interferir com os
direitos do Mestre. No caso do nosso bendito Senhor, como bem
sabemos, este ajustamento era divino. No nosso caso, acontece
freqüentemente que os deveres divinamente reconhecidos são
abertamente negligenciados para dar lugar àquilo que imaginamos
ser o serviço de Cristo. A doutrina de Deus é constantemente
sacrificada à obra aparente do evangelho. Porquanto é bom
lembrar que a verdadeira dedicação parte sempre de um ponto em
volta do qual estão inteiramente asseguradas todas as
reivindicações de Deus. Se eu tenho uma colocação que requer os
meus serviços desde as dez às dezesseis horas todos os dias, não
tenho o direito de sair para fazer visitas ou pregar durante aquelas
horas. Se estou estabelecido, sou forçado a manter a integridade
desse negócio de uma maneira cristã. Não tenho o direito de correr
para lá e para cá para pregar, enquanto o meu negócio fica
abandonado e em desordem, trazendo vergonha sobre a santa
doutrina de Deus. Um homem pode dizer: "eu sinto-me chamado
para pregar o evangelho e acho que o meu emprego ou negócio é
um embaraço". Bem, se es
divinamente chamado e apto para a
obra do evangelho e não podes conciliar as duas coisas, então
renuncia à tua colocação ou liquida o teu negócio de uma maneira
cristã e parte em nome do Senhor. Mas, claro, enquanto eu
continuar no meu emprego ou mantiver o meu negócio, o meu
trabalho no evangelho deve partir de um ponto no qual os meus
deveres nessa ocupação ou nesse negócio são inteiramente cumpridos.
Isto é consagração. Tudo o mais é confusão, por mais bem
intencionado. Bendito seja Deus, temos um exemplo perfeito
perante nós na vida do Senhor Jesus e ampla direção para o novo
homem, na Palavra de Deus; de forma que não há razão para
cometermos erros nas diversas responsabilidades que formos
chamados, na providência de Deus, a desempenhar ou quanto aos
vários deveres que o governo moral de Deus tem estabelecido em
relação com tais responsabilidades.
____________________
(
1) Quão importante é vermos nesta magnífica passagem que fazer a
vontade de Deus põe a alma num parentesco com Cristo do qual os Seus irmãos
segundo a carne nada sabiam, pois não se baseia em laços naturais. Era tão
verdadeiro a respeito daqueles irmãos como a respeito de outra qualquer
pessoa, que "aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus".
Maria não podia ter sido salva pelo simples fato de ser a mãe de Jesus. Ela
precisa ter fé pessoal em Cristo como qualquer outro membro da família decaída
de Adão. Precisa de passar por meio do novo nascimento da velha criação para
a nova. Foi por ter entesourado as palavras de Cristo em seu coração que esta
bem-aventurada mulher foi salva. Não há dúvida que ela foi especialmente
agraciada por ter sido escolhida como um vaso para tão santa missão, mas,
como qualquer pecador, ela precisava de "alegrar-se em Deus, seu Salvador".
Ela permanece no mesmo plano, está lavada no mesmo sangue, vestida com as
mesmas vestes de justiça e entoará o mesmo cântico como todos os remidos de
Deus.
Este simples fato dará força adicional e clareza a um ponto que foi já
frisado, a saber: que a encarnação não significou Cristo tomar a nossa natureza
em união consigo. Esta verdade deve ser escrupulosamente ponderada. E
inteiramente apresentada em 2 Coríntios 5: "Porque o amor de Cristo nos
constrange, julgando nós assim: que, se um morreu, logo, todos morreram. E ele
morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para
aquele que por eles morreu e ressuscitou. Assim que, daqui por diante, a
ninguém conhecemos segundo a carne, e, ainda que também tenhamos
conhecido Cristo segundo a carne, contudo, agora; já não o conhecemos desse
modo. Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já
passaram, eis que tudo se fez novo" (versículos 14-17).
A Oferta de Manjares em suas diversas Formas
O segundo ponto do nosso assunto é a forma como era
preparada a oferta de manjares. Isto era feito, como lemos, pela
ação do fogo. Era "cozida no forno", "cozida na caçoula" ou frita
numa "sertã". O processo de cozedura sugere a idéia de
sofrimento. Mas visto que a oferta de manjares é chamada de
"cheiro suave" — um termo que nunca é aplicado à expiação do
pecado ou expiação da culpa — é evidente que há qualquer
relação com o sofrimento do pecado — não sugere o sofrimento
sob a ira de Deus devido ao pecado, nem o sofrimento às mãos da
Justiça infinita com substituto do pecador. As duas idéias de
"cheiro suave" e sofrimento pelo pecado são inteiramente
incompatíveis, segundo a ordem da dispensação levítica. Se
introduzíssemos a idéia do sofrimento pelo pecado na oferta de
manjares, destruiríamos totalmente o seu símbolo.
Ao contemplarmos a vida do Senhor Jesus, que, como já
frisamos, é o principal assunto prefigurado na oferta de manjares,
podemos notar três espécies distintas de sofrimento, a saber:
sofrimento por amor da justiça, sofrimento em virtude da
simpatia, e o sofrimento por antecipação.
a
) Sofrimento por Amor da Justiça
Como Servo justo de Deus, Ele sofreu no meio de uma cena
em que tudo Lhe era adverso; contudo isto era justamente o
oposto do sofrimento pelo pecado. É da máxima importância
distinguir entre estas duas espécies de sofrimento. Confundi-las
conduzir-nos-ia a erros graves. Sofrer com um justo e manter uma
atitude firme entre os homens a favor de Deus é uma coisa; sofrer
em lugar do homem sob a mão de Deus é outra muito diferente. O
Senhor Jesus sofreu por amor da justiça, durante a Sua
vida.
Sofreu pelo pecado, na Sua
morte. Durante a Sua vida os homens
e Satanás sempre se Lhe opuseram; e até mesmo na cruz
empregaram todo o poder de que dispunham; mas depois de ter
sido feito tudo que podiam fazer— depois de haverem chegado, no
seu ódio mortal, ao limite da oposição humana e diabólica —
restava ainda uma região afastada de sombras impenetráveis e
horror que tinha de ser percorrida por Aquele que levava sobre Si
o pecado, no cumprimento da Sua obra. Durante a Sua vida, Ele
sempre andou na luz límpida do semblante divino! Porém, sobre a
cruz de maldição a sombra negra do pecado interveio e ocultou
essa luz e provocou esse brado misterioso:
"Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?" Foi um
momento absolutamente único nos anais da eternidade. De vez
em quando, durante a vida de Cristo na terra, o céu abriu-se para
dar expressão à complacência divina n'Ele; mas na cruz Deus
desamparou-O, porque Ele estava oferecendo a Sua alma em
sacrifício pelo pecado. Se Cristo tivesse carregado com o pecado
em toda a Sua vida, então qual seria a diferença entre a cruz e
qualquer outro período
1? Por que razão não foi Ele desamparado
por Deus durante toda a Sua vida? Qual foi a diferença entre
Cristo na cruz e Cristo no monte da transfiguração? Foi
desamparado de Deus nesse monte
1?- Estaria Ele ali carregando
com o pecado"? Estas interrogações são muito simples, mas que
dêem a resposta aqueles que alimentam a idéia de uma vida com o
peso do pecado.
O fato simples é este, não houve nada quer na humanidade
de Cristo, quer na natureza das Suas relações, que pudesse, de
modo algum, relacioná-Lo com o pecado ou a ira ou a morte. Ele
"foi feito pecado" na cruz; e ali suportou a ira de Deus e deu a Sua
vida, como perfeita expiação pelo pecado. Porém, nada disto
encontra lugar na oferta de manjares. Na realidade, temos o
processo de cozedura — a ação do fogo —; mas isto não é a ira de
Deus. A oferta de manjares não era uma oferta pelo pecado, mas
uma oferta de "cheiro suave". Assim, a sua importância está
definitivamente estabelecida; e, além disso, a sua inteligente
interpretação deve sempre preservar, com santo zelo, a verdade
preciosa da humanidade imaculada de Cristo e verdadeira
natureza das Suas relações. Dizer que Ele, por necessidade do Seu
nascimento, teve de carregar com o pecado, ou colocá-Lo, por esse
motivo, debaixo da maldição da lei e da ira de Deus, é contradizer
toda a verdade de Deus respeitante à encarnação — verdade
anunciada pelo anjo e repetida diversas vezes pelo apóstolo
inspirado. Além disso, tal afirmação destrói todo o caráter e
objetivo da vida de Cristo e rouba à cruz a sua glória
característica. Diminui a significação do pecado e da expiação.
Numa palavra, remove a pedra principal do arco da revelação e
põe tudo em irremediável ruína e confusão em redor de nós.
b) Sofrimento em Virtude da Simpatia
O Senhor Jesus também sofreu em virtude da simpatia — da
compaixão —; e este gênero de sofrimento nos faz penetrar nos
segredos profundos do Seu terno coração. A dor humana e a
miséria sempre impressionaram esse coração de amor. Era
impossível que esse perfeito coração humano não sentisse com a
sua sensibilidade divina as misérias que o pecado havia
transmitido à família humana. Embora livre, pessoalmente, tanto
da causa como do efeito— pertencendo, embora ao céu, e vivendo
uma perfeita vida celestial na terra, contudo, desceu no poder de
uma imensa compaixão aos mais profundos recessos da dor
humana. Assim, Ele sentiu a dor mais vivamente do que aqueles
que eram vítimas dela, porquanto a Sua humanidade era perfeita.
E, além disso, pôde contemplar tanto a dor como a sua causa,
segundo a sua própria medida e caráter perante Deus. Sentia
como ninguém jamais pôde sentir. Os Seus sentimentos — as
Suas afeições, a Sua sensibilidade e simpatia— toda a Sua
constituição moral e mental eram perfeitos; e, por isso, ninguém
pode dizer quanto sofreu ao passar por um mundo como este. Viu
lutar a família humana sob o peso grave da culpa e miséria;
observou como toda a criação gemia debaixo do jugo; o clamor dos
cativos chegava aos Seus ouvidos; as lágrimas das viúvas
saltavam aos Seus olhos; as privações e a pobreza comoviam o
Seu coração sensível; perante a doença e a morte "moveu-se muito
em espírito; os Seus sofrimentos em virtude de simpatia excediam
todo o entendimento humano.
Transcrevo a seguir uma passagem ilustrativa do caráter do
sofrimento a que nos referimos. "E, chegada a tarde, trouxeramlhe
muitos endemoninhados, e ele, com a sua palavra, expulsou
deles os espíritos e curou todos os que estavam enfermos, para
que se cumprisse o que fora dito pelo profeta Isaías, que diz:
"Ele
tomou sobre si as nossas enfermidades e levou as nossas doenças"
(Mt 8:16-17). Isto era verdadeira compaixão — o poder de
interesse comum, que n'Ele era perfeito. Não havia n'Ele
enfermidades ou fraquezas. Essas coisas de que, por vezes, se fala
como de "fraquezas inocentes", no Seu caso, eram apenas provas
de uma real, verdadeira e perfeita humanidade. Porém, por
compaixão — por um perfeito interesse comum — "Ele tomou
sobre si as nossas enfermidades e levou as nossas doenças" (Mt
8:17). Só um homem absolutamente perfeito podia ter feito isto.
Nós podemos simpatizar com os outros: mas só Jesus podia
tornar Suas as enfermidades e fraquezas humanas.
Logo, houvesse Ele tomado todas estas dores em virtude do
Seu nascimento ou das Suas relações com Israel, e a família
humana, nós teríamos perdido toda a beleza e preciosidade da
Sua voluntária simpatia. Não podia haver lugar para ação
voluntária se a necessidade absoluta lhe tivesse sido imposta.
Mas, por outro lado, quando vemos a Sua inteira liberdade, tanto
pessoal como relativamente, da miséria humana e daquilo que a
produz, podemos compreender aquela perfeita graça e compaixão
que O levou a "tomar sobre si as nossas enfermidades e levar as
nossas doenças" no poder de verdadeira simpatia. Existe,
portanto, uma manifesta diferença entre os sofrimentos de Cristo
por voluntária simpatia com as misérias humanas e os Seus
sofrimentos como substituto do pecador. Os primeiros são
manifestos ao longo de toda a Sua
vida; os últimos são restrigidos
à Sua
morte.
c) Sofrimento por Antecipação
Finalmente, temos de considerar os sofrimentos de Cristo
por antecipação. Vemos a sombra tétrica da cruz projetar-se sobre
o Seu caminho e produzir uma ordem aguda de sofrimento, que,
não obstante, deve distinguir-se com tanta precisão do Seu
sofrimento expiatório como o Seu sofrimento por amor da justiça
se distingue do Seu sofrimento por simpatia. Tomemos como
exemplo de prova uma ou duas passagens.
"E, saindo, foi, como costumava, para o monte das Oliveiras;
e também os seus discípulos o seguiram. E, quando chegou
àquele lugar, disse-lhes: Orai, para que não entreis em tentação. E
apartou-se deles cerca de um tiro de pedra; e, pondo-se de joelhos,
orava, dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice, todavia
não se faça a minha vontade, mas a tua. E apareceu-lhe um anjo
do céu, que o confortava. E, posto em agonia, orava mais
intensamente. E o seu suor tornou-se em grandes gotas de sangue
que corriam até ao chão" (Lc 22:39-44). "E, levando Pedro e os
dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se
muito. Então lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até à
morte; ficai aqui e velai comigo... E
; indo segunda vez, orou,
dizendo: Meu pai, se este cálice não pode passar de mim sem eu o
beber, faça-se a tua vontade" (Mt 26:37-42).
Da leitura destes versículos é evidente que havia qualquer
coisa em perspectiva que o bendito Senhor nunca havia
encontrado antes. Estava sendo cheio um "cálice" para Si do qual
nunca tinha bebido. Se tivesse carregado com o pecado durante
toda a Sua vida, qual a razão dessa intensa agonia ante o
pensamento de entrar em contato com o pecado e ter de suportar
a ira de Deus devido ao pecado? Que diferença havia entre Cristo
no Gêtsemani e Cristo no Calvário, se Ele carregou com o pecado
toda a Sua vida? Existiu uma diferença essencial! Mas foi porque
Ele não carregou com o pecado durante toda a Sua vida. Qual é,
logo, a diferença? No Gêtsemani Ele estava
antecipando a cruz! No
Calvário,
suportava-a. No Gêtsemani "Apareceu-lhe um anjo do
céu que o confortava"; no Calvário foi desamparado por todos. Não
houve ali ministério dos anjos. No Gêtsemani dirigiu-se a Deus
como
"Pai", gozando assim a comunhão desse inefável parentesco;
mas no Calvário clama:
"Deus meu, Deus meu, porque me
desamparaste?" Aqui Aquele que leva sobre Si o pecado olha para
cima e vê o trono da Justiça eterna envolvo em nuvens carregadas
e o semblante da santidade inflexível desviado d'Ele porque estava
sendo "feito pecado por nós".
O leitor não terá dificuldade em prosseguir este assunto por
si mesmo. Poderá traçar pormenorizadamente as três espécies de
sofrimento da
vida de nosso bendito Senhor e fazer distinção entre
eles e os sofrimentos da Sua
morte — os Seus sofrimentos pelo
pecado. Verá como, depois de os homens e Satanás terem feito o
pior que podiam restava ainda uma espécie do sofrimento que era
perfeitamente único no seu gênero, ou seja, às mãos de Deus, por
causa do pecado — o sofrimento como substituto do pecador.
Antes de chegar à cruz, Ele podia olhar para cima e alegrar-se na
luz clara do rosto de Seu Pai. Nas horas mais sombrias sempre
encontrara um auxílio certo nas alturas. O caminho que trilhava
na terra era escabroso. Como poderia ser de outra maneira num
mundo onde tudo estava em oposição direta à Sua natureza santa
e pura? Ele teve de suportar a "contradição dos pecadores contra
Si mesmo". Teve de suportar a afronta dos que se opunham a
Deus. O que não teve Ele de suportara Foi mal compreendido, mal
interpretado, injuriado, difamado, acusado de estar fora de Si e de
ter demônio. Foi traído, negado, abandonado, escarnecido,
esbofeteado, cuspido, coroado de espinhos, expulso, condenado e
cravado entre dois malfeitores. Todas estas coisas Ele sofreu às
mãos dos homens juntamente com os terrores indizíveis com que
Satanás atormentou o Seu espírito; mas, deixai-me repetir mais
uma vez e com ênfase, depois de os homens e Satanás terem
esgotado o seu poder e inimizade o nosso bendito Senhor e
Salvador tinha de suportar alguma coisa comparada com a qual
tudo o mais era como nada, e isto era a ocultação da face de Deus
— as três horas de trevas e terrível escuridão, durante as quais
sofreu aquilo que ninguém senão Deus pode conhecer.
Ora, quando a Escritura fala de termos comunhão com os
sofrimentos de Cristo, refere-se, simplesmente, aos Seus sofrimentos
por amor da justiça — aos Seus sofrimentos às mãos dos
homens. Cristo sofreu pelo pecado, para que nós não tivéssemos
de sofrer por ele. Sofreu a ira de Deus, para que nós não
tivéssemos de sofrê-la. Este é o fundamento da nossa paz. Mas
pelo que respeita aos sofrimentos infligidos pelos homens,
descobrimos sempre que quanto mais fielmente seguirmos as
pisadas de Cristo, mais sofreremos nesse sentido; porém, isto é
um assunto de privilégio, uma mercê, uma honra (veja-se Fp 1:29-
30). Andar nos passos de Cristo — gozar da Sua companhia, ter
parte na Sua simpatia, são privilégios dos mais elevados. Quão
bom seria que todos nós os aproveitássemos melhor! Mas,
infelizmente, contentamo-nos em passar sem eles — contentamonos,
à semelhança de Pedro, em "seguir de longe" — de nos
mantermos à distância do Cristo desprezado e sofredor. Tudo isto
é, indubitavelmente, um grande privilégio. Tivéssemos nós apenas
um pouco mais de comunhão com os Seus sofrimentos, e a nossa
coroa resplandeceria com maior brilho na visão da nossa alma.
Quando fugimos aos sofrimentos de Cristo privamo-nos da profunda
alegria da Sua companhia e também do poder moral da
esperança da Sua glória futura.
A Parte dos Sacerdotes
Havendo examinado os ingredientes que compunham a
oferta de manjares e as diversas formas em que era oferecida, só
nos resta aludir às pessoas que participam dela. Estas eram o
chefe e os membros da família sacerdotal. "E o que sobejar da
oferta de manjares será de Arão e de seus filhos; coisa santíssima
é, de ofertas queimadas ao S
ENHOR" (versículos3e 10). Assim como
o holocausto, como já frisamos, os filhos de Arão são apresentados
como figuras de todos os verdadeiros crentes, não como pecadores
convictos, mas como sacerdotes em adoração, assim na oferta de
manjares encontramo-los alimentando-se do que sobejava daquilo
que havia sido posto, por assim dizer, sobre a mesa do Deus de
Israel. Isto era um elevado e santo privilégio. Ninguém senão os
sacerdotes podia usufruí-lo. E o que está estabelecido, com grande
clareza, na "Lei da oferta de manjares", que passamos a reproduzir
por completo. "E esta é a lei da oferta de manjares: um dos filhos
de Arão a oferecerá perante o S
ENHOR diante do altar. E tomará o
seu punho cheio da flor de farinha da oferta e do seu azeite e
todo
o incenso
que estiver sobre a oferta de manjares; então, o
queimará sobre o altar; cheiro suave é isso, por ser memorial ao
S
ENHOR. E O restante, dela comerão Arão e seus filhos: asmo se
comerá
no lugar santo; no pátio da tenda da congregação o
comerão. Levedado não se cozerá; sua porção é que lhes dei das
minhas ofertas queimadas; coisa santíssima é, como a expiação do
pecado e como a expiação da culpa.
Todo o varão entre os filhos de
Arão comerá dela estatuto perpétuo será para as vossas gerações
das ofertas queimadas do S
ENHOR; tudo o que tocar nelas será
santo"
(Lv6:14-18).
Aqui, pois, é-nos dada uma bela figura da Igreja
alimentando-se no "lugar santo", no poder da santidade prática,
das perfeições do "Homem Cristo Jesus". Esta é a nossa porção
por meio da graça de Deus; mas temos de lembrar que é para ser
comida com pão "asmo". Não podemos alimentar-nos de Cristo se
estamos condescendendo com o mal. "Tudo que tocar nela será
santo". Além disso, deve comer-se "no lugar santo". A nossa
posição, os nossos costumes, as nossas pessoas, as nossas
relações, devem ser santos, antes de podermos alimentar-nos da
oferta de manjares. Finalmente, lemos que "todo o varão entre os
filhos de Arão comerá dela". Quer dizer, é necessário verdadeira
energia sacerdotal, segundo o pensamento divino a seu respeito,
para se apreciar esta santa porção "Os
filhos de Arão" realçam a
idéia
de energia na ação sacerdotal. As suas "filhas" representam
debilidade
nessa mesma ação (veja Nm 18:8-13). Havia algumas
coisas que os filhos podiam comer e que as filhas não podiam. Os
nossos corações deveriam desejar ardentemente a medida mais
elevada de energia sacerdotal, a fim de podermos desempenhar as
mais elevadas funções sacerdotais e participar da ordem mais
elevada do alimento sacerdotal.
Em conclusão, devo acrescentar que, visto que somos feitos,
mediante a graça, "participantes da natureza divina", podemos, se
vivermos na energia dessa natureza, seguir as pisadas d Aquele
que é prefigurado na oferta de manjares. Se nos despojarmos do
ego, cada um dos nossos atos poderá emitir um cheiro suave para
Deus. Os mais insignificantes assim como os mais importantes
serviços podem, pelo poder do Espírito Santo, representar o bom
perfume de Cristo.
Fazer uma visita, escrever uma carta, exercer o ministério
público da Palavra, dar um copo de água fria a um discípulo do
Senhor ou uma moeda a um pobre, sim, até os atos vulgares de
comer e beber, podem todos exalar o perfume suave do nome e
graça de Jesus.
Assim também se tão-somente a natureza for mantida no
lugar da morte, poderá manifestar-se em nós o que não é
corruptível, até a própria conversação temperada com o "sal" da
permanente comunhão com Deus. Porém, falhamos e faltamos em
todas estas coisas. Entristecemos o Espírito de Deus na nossa
linha de conduta. Somos propensos a ser egoístas ou a procurar
os louvores dos homens nos nossos melhores serviços, e assim
deixamos de "temperar" a nossa conversação. Daí, a nossa
deficiência em "azeite", "incenso" e o "sal"; enquanto que, ao
mesmo tempo, existe a tendência para alterar o "fermento" e
permitir que se manifeste "o mel" da natureza. Só houve uma
"oferta de manjares" perfeita; e, bendito seja Deus, estamos
aceites n'Ele. Somos
filhos do verdadeiro Arão; o nosso lugar é no
santuário, onde podemos alimentar-nos com a santa porção.
Lugar ditoso! Ditosa porção! Possamos nós apreciá-la mais do que
o temos feito! Que os nossos corações estejam mais
desinteressados pelo mundo e aprofundados em Cristo. Que os
nossos olhos estejam tão fixos n'Ele, que não haja lugar em nós
para os atrativos da cena que nos rodeia nem tão-pouco para as
mil e uma circunstâncias mesquinhas da nossa vida, que
perturbam o coração e embaraçam a mente.
Regozijemo-nos em Cristo, tanto à luz brilhante do sol como
nas trevas; quando a brisa suave do verão se faz sentir à nossa
volta, e quando rugem as tempestades do inverno ao longe;
quando vagamos sobre a superfície de um tranqüilo lago, ou
somos sacudidos sobre o mar encapelado. Graças a Deus!
"Achamos aquele" que será para sempre a nossa porção
abundante. Passaremos a eternidade contemplando as perfeições
divinas do Senhor Jesus. Os nossos olhos nunca mais serão
desviados d'Ele, uma vez que o tivermos visto tal qual Ele é.
Que o Espírito Santo possa operar poderosamente em nós
para nos fortalecer "no homem interior". Que Ele nos habilite a
alimentarmo-nos com a perfeita oferta de manjares, com cujo
memorial o próprio Deus se tem alimentado! Este é o nosso santo
e feliz privilégio. Que o possamos realizar ainda mais amplamente!
— CAPITULO 3 —
O SACRIFÍCIO PACÍFICO: A COMUNHÃO
Quanto mais atentamente consideramos as ofertas, mais
amplamente vemos que nenhum sacrifício apresenta um tipo
completo de Cristo. É só comparando-as em conjunto que se pode
obter uma idéia algo tanto exata. Cada oferta, como era de
esperar, tem as suas próprias características. O sacrifício pacífico
difere do Holocausto em muitos pontos; e uma compreensão clara
dos pontos em que qualquer figura difere das outras ajudar-nos-á
a compreender o seu significado especial.
A Diferença entre o Holocausto e o Sacrifício de Pacífico
Assim, quando comparamos o sacrifício pacífico com o
holocausto, descobrimos que o tríplice ato de "esfolar", "partir em
pedaços" e "lavar a fressura e as pernas" é inteiramente omitido.
Mas isto é natural. No holocausto, como temos notado,
encontramos Cristo oferecendo-se a Si mesmo a Deus e sendo
aceito. Por isso tinha de ser simbolizada não só a Sua inteira
rendição como também o processo de perscrutação a que Ele se
submeteu. Na oferta pacífica o pensamento principal é a
comunhão do adorador. Não é Cristo como objeto exclusivamente
deleitável para Deus, mas de gozo para o adorador, em comunhão
com Deus. Por isso a ação é menos intensa, em toda a linha.
Nenhum coração, por muito elevado que seja o seu amor,
pode, de modo algum, elevar-se à altura da dedicação de Cristo a
Deus ou da aceitação de Cristo por Deus. Ninguém senão o
próprio Deus podia anotar devidamente as pulsações do coração
que batia no seio de Jesus; e, portanto, era necessário um símbolo
para mostrar este aspecto da morte de Cristo, a saber, a Sua
perfeita dedicação a Deus na morte. Este símbolo têmo-lo no
holocausto, a única oferta em que observamos a ação tríplice a
que acima nos referimos.
Assim também em referência ao caráter do sacrifício. No
holocausto, a vítima devia ser "macho sem mancha"; ao passo que
no sacrifício pacífico podia ser "macho ou fêmea", contanto que
não houvesse neles qualquer mancha. A natureza de Cristo, quer
O consideremos como sendo apreciado exclusivamente por Deus
ou pelo adorador em comunhão com Deus, deve ser sempre a
mesma. Não pode haver alteração nela. A única razão por que era
consentido oferecer uma fêmea no sacrifício pacífico era para se
avaliar a capacidade do adorador quanto à apresentação do
bendito Ser que, em Si mesmo, "é o mesmo ontem, hoje e para
sempre" (Hb 13).
Além disso, no holocausto lemos, "o sacerdote tudo
queimará"; ao passo que no sacrifício pacífico só
uma parte era
queimada, isto é, "a gordura, os rins e o redenho". Isto torna o
caso muito simples. A porção mais excelente do sacrifício era
posto sobre o altar de Deus. As entranhas — as ternas
sensibilidades do bendito Jesus eram dedicadas a Deus como o
único que podia perfeitamente apreciá-las. Aarão e seus filhos
alimentavam-se do "peito" e da "espádua direita" (') (Veja-se
atentamente Lv 7:28-36). Todos os membros da família sacerdotal,
em comunhão com o seu chefe, tinham a sua própria porção da
oferta pacífica. E agora todos os verdadeiros crentes, constituídos
pela graça sacerdotes para Deus, podem alimentar-se das
afeições
e da
força da verdadeira oferta pacífica — podem f ruir a feliz
certeza de terem o seu coração amantíssimo e o Seu ombro
poderoso para os confortar e suster continuamente (
2)." Esta é a
porção de Arão e a porção de seus filho, das ofertas queimadas do
S
ENHOR, no dia em que os apresentou para administrar o
sacerdócio ao S
ENHOR. O que o SENHOR ordenou que se lhes desse
dentre os filhos de Israel no dia em que os ungiu estatuto
perpétuo é pelas suas gerações" (Lv 7:35-36).
__________________
(
1) "O peito" e "a espádua" são emblemáticos de amor e poder — força e
afeição.
(
2) Há força e beleza no versículo 31: "... o peito será de Aarão e de seus
filhos". É privilégio de todos os verdadeiros crentes alimentarem-se das afeições
de Cristo — do amor imutável desse coração que bate com amor imortal e
imutável por eles.
Uma Porção Comum entre Deus e os Sacerdotes
São importantes todos estes pontos de diferença entre o
holocausto e o sacrifício pacífico; e quando considerados em
conjunto, mostram com grande clareza as duas ofertas perante a
mente. No sacrifício pacífico há mais alguma coisa do que a
dedicação abstrata de Cristo à vontade de Deus. O adorador é
apresentado, não simplesmente como espectador, mas como
participante não apenas para observar mas para se alimentar. Isto
dá um caráter notável a esta oferta. Quando observo o Senhor
Jesus no holocausto, vejo-o como Aquele cujo coração foi
consagrado ao objetivo de glorificar Deus e cumprir a Sua
vontade. Mas quando O vejo no sacrifício pacífico, descubro
Aquele que tem um lugar no Seu coração amantíssimo e sobre os
Seus ombros poderosos para um pecador indigno e desamparado.
No holocausto, o peito, as pernas e as entranhas, a cabeça e a
gordura, tudo era queimado em cima do altar — tudo subia como
cheiro suave a Deus. Porém no sacrifício pacífico a própria porção
que me convém é reservada para mim. E não tenho de alimentarme
daquilo que satisfaz a minha própria necessidade na solidão.
De modo nenhum. Alimento-me em comunhão com Deus e em
comunhão com os meus companheiros no sacerdócio. Alimentome
com o perfeito e feliz conhecimento que o mesmíssimo sacrifício
que nutre a minha alma tem já satisfeito o coração de Deus;
e, além disso, de que a mesma porção que me alimenta também
alimenta todos os meus companheiros em adoração. A ordem da
comunhão encontra-se aqui — comunhão com Deus e comunhão
com os santos. Não havia nada que se parecesse com isolamento
na oferta pacífica. Deus tinha a Sua porção e a família sacerdotal
tinha a sua.
Assim é com o Antítipo do sacrifício pacífico. O mesmo Jesus
que é o objeto das delícias do céu é a fonte de gozo, de força e de
conforto para todo o coração crente; e não só para cada coração,
em particular, mas também para toda a Igreja de Deus, em
comunhão. Deus, em Sua infinita graça tem dado ao Seu povo o
mesmo objetivo que Ele tem. "A nossa comunhão é com o Pai e
com seu Filho Jesus Cristo" (1 Jo 1:3). É verdade que os nossos
pensamentos acerca de Jesus nunca poderão chegará altura dos
pensamentos de Deus. A nossa apreciação de um tal objeto deve
ficar sempre muito aquém da Sua; e, por isso, no símbolo, a casa
de Arão não podia participar da gordura.
Mas, apesar de nunca podermos atingir o padrão de apreço
divino da Pessoa de Cristo e do Seu sacrifício, estamos todavia
ocupados com o mesmo objeto e portanto a casa de Arão tinha "o
peito e a espádua direita". Tudo isto está repleto de conforto e
alegria para o coração. O Senhor Jesus Cristo—Aquele que "foi
morto, mas vive para todo o sempre", é agora o objeto exclusivo
ante os olhos e pensamentos de Deus; e, em graça perfeita, Deus
deu-nos uma parte nesta mesma bendita e gloriosa Pessoa. Cristo
é também o nosso objetivo — o objetivo dos nossos corações e
tema do nosso cântico. "Havendo feito a paz, pelo sangue da sua
cruz", subiu ao céu e enviou o Espírito Santo, o "outro
Consolador", por cujo ministério poderoso nos alimentamos do
"peito e da espádua direita" do divino "Sacrifício Pacífico". Ele é, na
verdade, a nossa paz; e temos o gozo inexcedível de saber que o
agrado de Deus na obra da nossa paz é tal que o cheiro suave da
nossa oferta pacífica deu alegria ao Seu coração. Este fato dá um
encanto peculiar a este símbolo. Cristo, como holocausto, desperta
a admiração dos nossos corações; Cristo, como sacrifício pacífico,
estabelece a paz da consciência e satisfaz as múltiplas e
profundas necessidades da alma. Os filhos de Arão podiam
prostrar-se em redor do altar do holocausto: podiam observar
como a chama desse sacrifício subia para o Deus de Israel;
podiam ver o sacrifício reduzido a cinzas; podiam, à vista de tudo
isto, curvar as suas cabeças e adorar; mas ao retirarem-se nada
levavam para si mesmos. Não sucedia o mesmo com o sacrifício
pacífico. Neste eles viam não só o que podia emitir um cheiro
suave para Deus, mas também render uma porção substancial
para si mesmos, da qual podiam alimentar-se em feliz e santa
comunhão.
O Gozo da Comunhão
E, certamente, é motivo de grande alegria para todo o
verdadeiro sacerdote saber (para empregar a linguagem do nosso
símbolo) que
Deus teve a Sua parte, antes de ele receber o peito e a
espádua. Este pensamento dá força e fervor, engrandecimento e
alegria ao culto e à comunhão. Revela a graça maravilhosa
d'Aquele que nos deu o mesmo objetivo, o mesmo tema, e a
mesma alegria que Ele tem. Nada inferior—nada menos do que
isto podia satisfazê-Lo. O Pai quer que o pródigo se alimente do
bezerro cevado, em comunhão consigo. Não lhe dá um lugar
inferior à Sua própria mesa, nem qualquer outra porção senão
aquela de que Ele Próprio se alimenta. A linguagem do sacrifício é
esta: "era justo alegrarmo-nos e folgarmos" — "comamos e
alegremo-nos". Tal é a preciosa graça de Deus! Sem dúvida, temos
motivos para nos alegrarmos, pois participamos de uma tal graça.
Porém, quando podemos ouvir o bendito Deus dizer
"comamos e
alegremo-nos", dos nossos corações devia brotar uma corrente
contínua de louvores e ações de graças. O gozo de Deus na
salvação de pecadores e o Seu gozo na comunhão dos santos
podem muito bem despertar a admiração dos homens e dos anjos
por toda a eternidade.
A Diferença entre a Oferta de Manjares e o Sacrifício Pacífico
Havendo assim comparado o sacrifício pacífico com o
holocausto, podemos, agora, observar rapidamente a sua relação
com a oferta de manjares. Aqui o ponto principal de diferença é
este: no sacrifício pacífico havia derramamento de sangue; na
oferta de manjares não. Ambos eram ofertas de "cheiro suave"; e,
como aprendemos no capítulo 7:12, as duas ofertas estavam
intimamente ligadas entre si. Ora, tanto a relação como o
contraste são cheios de significado e instrução.
É só em comunhão com Deus que a alma pode deleitar-se na
contemplação da humanidade perfeita do Senhor Jesus Cristo.
Deus o Espírito Santo
deve dar assim como deve dirigir, pela
Palavra, a visão mediante a qual podemos contemplar o "Homem
Cristo Jesus". Ele podia ter sido revelado "em semelhança da
carne do pecado"; podia ter vivido e laborado na terra; podia ter
brilhado entre as trevas deste mundo, em todo o fulgor celestial e
beleza inerente à Sua Pessoa; podia ter passado rapidamente,
como astro brilhante, através do horizonte deste mundo; e
durante todo o tempo ter permanecido fora do alcance da visão do
pecador.
O homem não podia sentir o gozo profundo de comunhão
com tudo isto, simplesmente porque não havia base para esta
comunhão. No sacrifício pacífico, a base indispensável está inteira
e claramente estabelecida. "E porá a sua mão sobre a sua cabeça,
e a degolará diante da tenda da congregação: e os filhos de Aarão
espargirão o sangue sobre o altar em redor" (versículo 2). Temos
aqui o que a oferta de manjares não proporciona, quer dizer, um
fundamento sólido para a comunhão do adorador com toda a
plenitude, preciosidade e beleza de Cristo, tanto quanto ele, pela
energia do Espírito Santo, é capaz de penetrar.
Para ter comunhão com Deus devemos estar "na luz". E
como podemos estar nela? Só com base nesta preciosa declaração.
"O sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o
pecado" (l Jo 1:7). Quanto mais permanecermos na luz, mais
profunda será a nossa compreensão de tudo que seja contrário a
essa luz, e mais profundo também será o sentimento do valor
desse sangue que nos dá o direito de estarmos na luz. Quanto
mais perto andarmos de Deus, mais conheceremos "as riquezas
incontáveis de Cristo".
O Precioso Exemplo do Filho Pródigo (ou: Perdido)
É absolutamente necessário conhecer a verdade de que
estamos na presença de Deus somente como participantes da vida
divina e beneficiando da justiça divina. O Pai só podia ter o
pródigo à sua mesa vestido com "o melhor vestido" e em toda a
integridade daquele parentesco em que o via. Tivesse o pródigo
conservado os seus andrajos ou sido admitido "como um dos
servos da casa, e nós nunca teríamos ouvido essas gloriosas
palavras, "comamos e alegremo-nos; porque este meu filho estava
morto, e reviveu, tinha-se perdido, e foi achado". Assim acontece
com todos os verdadeiros crentes. A sua velha natureza não é
reconhecida como existente diante de Deus. Ele considera-a
morta, e assim eles a deviam considerar. Esta morta para Deus —
morta para a fé. Deve ser mantida no lugar da morte. Não é
melhorando a nossa velha natureza que chegamos à presença
divina; mas como possuidores de uma nova natureza. Não foi
remendando os trapos da sua condição anterior que o pródigo
obteve um lugar à mesa do Pai, mas por ter sido vestido com um
vestido que nunca havia visto ou pensado. Não trouxe esse vestido
da "terra longínqua", nem o obteve de caminho; mas o pai tinha-o
para ele em casa. O pródigo não o fez nem ajudou a fazê-lo; mas o
pai adquiriu-o para ele e alegrou-se por o ver vestido com ele. Foi
assim que se assentaram à mesa para se alimentarem em feliz
comunhão "do bezerro cevado".
A Lei do Sacrifício Pacífico
Prosseguirei agora citando na íntegra a lei do Sacrifício
Pacífico, na qual encontramos alguns pontos adicionais de grande
interesse — pontos que lhe são peculiares.
"E esta é a lei do sacrifício pacífico que se oferecerá ao
S
ENHOR: Se o oferecer por oferta de louvores, com o sacrifício de
louvores, oferecerá bolos asmos amassados com azeite e coscorões
asmos amassados com azeite; e os bolos amassados com azeite
serão fritos, de flor de farinha. Com os bolos oferecerá pão
levedado como sua oferta, com o sacrifício de louvores da sua
oferta pacífica. E de toda oferta oferecerá um deles por oferta
alçada ao S
ENHOR, que será do sacerdote que espargir o sangue da
oferta pacífica. Mas a carne do sacrifício de louvores da sua oferta
pacífica se comerá no dia do seu oferecimento; nada se deixará
dela até à amanhã. E, se o sacrifício da sua oferta for voto ou
oferta voluntária, no dia em que oferecer o seu sacrifício se
comerá; e o que dele ficar também se comerá no dia seguinte. E o
que ainda ficar da carne do sacrifício ao terceiro dia será
queimado no fogo. Porque, se da carne do seu sacrifício pacífico se
comer ao terceiro dia, aquele que a ofereceu não será aceito, nem
lhe será imputado; coisa abominável será, e a pessoa que comer
dela levará a sua iniqüidade. E a carne que tocar alguma coisa
imunda não se comerá; com fogo será queimada; mas da outra
camequalquerque estiver limpo comerá dela. Porém, se alguma
pessoa comer a carne do sacrifício pacífico, que é do S
ENHOR,
tendo ela sobre si a sua imundícia, aquela pessoa será extirpada
dos seus povos.
E, se uma pessoa tocar alguma coisa imunda, como
imundície de homem, ou gado imundo, ou qualquer abominação
imunda, e comer da carne do sacrifício pacífico, que é do S
ENHOR,
aquela pessoa será extirpada dos seus povos" (Lv 7:11-21).
Distinção entre "pecado na carne" e "pecado na consciência"
É da máxima importância fazer distinção entre pecado
na
carne
e pecado na consciência. Se confundirmos os dois, as nossas
almas serão necessariamente transtornadas e o nosso culto será
manchado. Um exame atento de 1 Jo 1:8-10 lançará muita luz
sobre este assunto, cuja compreensão é tão essencial para a
devida apreciação de toda a doutrina do sacrifício pacífico e
principalmente do ponto nele a que chegamos agora. Ninguém terá
uma noção tão exata do pecado no íntimo como o homem que
anda na luz. "Se dissermos que
não temos pecado, enganamo-nos
a nós mesmos, e não há verdade em nós". No versículo precedente
lemos que "... o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de
todo o pecado".
Aqui a distinção entre o pecado em nós e o pecado
sobre
nós está claramente estabelecida. Dizer que o crente tem
pecado sobre si, na presença de Deus, é pôr em dúvida a eficácia
purificadora do sangue de Jesus e negar a verdade divina a esse
respeito. Se o sangue de Jesus pode purificar perfeitamente, então
a consciência do crente está perfeitamente purificada. É assim que
a Palavra de Deus põe a questão; e nós devemos sempre recordar
que é de Deus mesmo que temos de aprender qual é, aos seus
olhos, a verdadeira condição do crente.
Estamos mais dispostos a dizer a Deus o que somos em nós
mesmos do que permitir que Deus nos diga o que somos em
Cristo. Por outras palavras, estamos mais ocupados com a
faculdade de perceber do que coma revelação que Deus nos dá de
Si mesmo. Deus fala-nos baseado no que Ele é em Si mesmo e no
que cumpriu em Cristo. Tal é a natureza e o caráter da Sua
revelação, da qual a fé toma posse e assim enche a alma de
perfeita paz. A revelação de Deus é uma coisa; a minha percepção
é outra muito diferente.
Porém a mesma palavra que nos diz que não temos pecado
sobre
nós, diz-nos, com igual clareza e poder, que temos pecado
em
nós. "Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a
nós mesmos, e não há verdade em nós". Todo aquele que tem a
"verdade" em si também saberá que
tem pecado "em si"; pois a
verdade revela todas as coisas como são. Que devemos, então,
fazer? É nosso privilégio andar de tal maneira no poder da nova
natureza, que o
"pecado", que habita em nós, não possa
manifestar-se na forma de
"pecados". A posição do cristão é de
vitória e liberdade. Ele é libertado não só da pena do pecado, mas
também do pecado como princípio dominante na sua vida.
"Sabendo isto: que o nosso velho homem foi com ele crucificado,
para que o corpo do pecado seja desfeito, afim de que não
sirvamos mais ao pecado. Porque aquele que está morto, está
justificado do pecado... não reine, portanto, o pecado em vosso
corpo mortal, para lhe
obedecerdes em suas concupiscências...
porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais
debaixo da lei, mas debaixo da graça" (Rm 6:6-14). O pecado está
ali em todo o seu aviltamento; porém o crente está "morto para
ele". Como? Morreu em Cristo. Por natureza estava morto
em
pecado. Pela graça está
morto para o pecado. Que direito pode
alguém ter sobre um morto? Nenhum. Cristo "morreu de uma vez
para o pecado", e o crente morreu n'Ele. "Ora, se já morremos com
Cristo, cremos que também com ele viveremos; sabendo que
havendo, Cristo ressuscitado dos mortos, já não morre; a morte
não mais terá domínio sobre ele. Pois, quanto a ter morrido, de
uma vez morreu para o pecado, mas, quanto a viver, vive para
Deus". Qual é o resultado disto, em relação aos crentes?
"Assim
também vós considerai-vos como
mortos para o pecado, mas vivos
para Deus, em Cristo Jesus, nosso Senhor" (Rm 6:8-11). Tal é a
posição inalterável do crente diante de Deus! Por isso é seu alto
privilégio gozar liberdade do domínio do pecado
sobre si, embora o
pecado
habite em si.
A Confissão dos Pecados
Mas, "se alguém pecar", que deve fazer? O apóstolo inspirado
dá uma resposta clara e bendita: "Se confessarmos os nossos
pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos
purificar de toda injustiça" (1 Jo 1:9). Confissão é a maneira de
manter a consciência livre. O apóstolo não diz, "se orarmos por
perdão, ele é benigno e misericordioso para nos perdoar" .Sem
dúvida, é sempre um alívio para qualquer filho fazer chegar aos
ouvidos do pai as suas necessidades — contar-lhe as suas
fraquezas, confessar-lhe a sua loucura, defeitos e faltas. Tudo isto
é muito verdade; e além disso é igualmente verdade que o nosso
Pai é terno e misericordioso para atender os Seus filhos em todas
as suas fraquezas e ignorância; porém, apesar de tudo isto ser
verdade, o Espírito Santo declara, por intermédio do apóstolo, que,
"se confessarmos
os nossos pecados", Deus é fiel e justo para nos
perdoar. Portanto, a confissão é o método divino. Um cristão que
tenha errado em pensamento, palavras ou ação, pode orar,
pedindo perdão, durante dias e meses e não ter a certeza, segundo
1 João 1:9, de ter sido perdoado; ao passo que no momento em
que verdadeiramente confessar o seu pecado, diante de Deus, é
simplesmente uma questão de fé saber que está perdoado e
perfeitamente purificado.
A Diferença entre Pedir Perdão e Confessar os Pecados
Existe uma grande diferença moral entre orar pedindo
perdão e confessar os nossos pecados, quer encaremos o problema
em relação ao caráter de Deus, quer em relação ao sacrifício de
Cristo ou ainda à condição da alma. É muito possível que a oração
de uma pessoa envolva a confissão do pecado, qualquer que seja a
sua natureza, e assim chegar ao mesmo resultado. Porém, é
sempre bom não nos afastarmos da Escritura no que pensamos,
dizemos e fazemos. É evidente que quando o Espírito Santo fala de
confissão,
não quer dizer oração. E é também evidente que Ele
sabe que existem elementos morais na confissão e que dela
resultam efeitos práticos que não pertencem à oração. De fato,
descobrimos amiúde que o hábito de importunar Deus com o
pedido do perdão dos pecados revela ignorância a respeito da
forma como Deus se revelou na Pessoa e obra de Cristo; acerca da
relação em que o sacrifício de Cristo colocou o crente e quanto ao
modo divino de alijar a consciência do fardo do pecado e de a
purificar da mancha do pecado.
Deus ficou perfeitamente satisfeito, quanto aos pecados do
crente, na cruz de Cristo. Na cruz foi feita completa expiação por
todo o pecado na natureza do crente e na sua consciência. Por
isso, Deus não necessita ainda de mais propiciação. Não precisa
de qualquer coisa mais para despertar o Seu coração pelo crente.
Não precisamos de Lhe suplicar que seja "fiel e justo", pois a Sua
fidelidade e justiça foram gloriosamente patenteadas, justificadas
e satisfeitas na morte de Cristo. Os nossos pecados nunca poderão
vir à presença de Deus, visto que Cristo, que os levou todos e os
tirou, está ali. Contudo, se pecamos, a consciência sente—deve
senti-lo; sim, o Espírito Santo far-nos-á senti-lo. Não pode deixar
passar um simples pensamento vão sem ser julgado. Então4 O
nosso pecado abriu caminho para a presença de Deus? Terá
encontrado lugar na luz pura do santuário? Deus nos livre! O
"Advogado" está ali—"Jesus Cristo o Justo", para manter, em
integridade inquebrantável, o parentesco em que nos
encontramos. Todavia, embora o pecado não possa afetar os
pensamentos de Deus a nosso respeito, pode afetar e afeta os
nossos pensamentos em referência a Ele ('). Embora não tenha
acesso à Sua presença, pode chegar à nossa, da maneira mais
triste. Embora não possa ocultar o Advogado dos olhos de Deus,
pode encobri-Lo dos nossos. Amontoa-se, como uma nuvem
sombria e espessa, sobre o nosso horizonte espiritual, de sorte que
as nossas almas não podem desfrutar a claridade bendita da face
do Pai. Não pode afetar o nosso parentesco com Deus, mas pode
afetar seriamente o dele. Que devemos, pois fazer? A Palavra de
Deus responde: "Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e
justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda a
injustiça".
Por meio da confissão desembaraçamos a nossa consciência;
o sentimento agradável da nossa posição de filhos é restaurado; a
nuvem sombria dissipa-se; a influência desanimadora desaparece;
os nossos pensamentos em relação a Deus são corrigidos. Tal é o
método divino; e podemos dizer que, na realidade, o coração que
sabe o que é ter estado no lugar da confissão sentirá o poder
divino das palavras do apóstolo: "Meus filhinhos, estas coisas vos
escrevo PARA QUE NÃO PEQUEIS" (l Jo 2:l).
__________________
(1) O leitor deve lembrar-se que o assunto tratado no texto deixa
inteiramente por considerar uma verdade muito importante e prática ensinada
em João 14:21-28, a saber, o amor particular do Pai para com o filho obediente e
a comunhão especial de tal filho com o Pai e o Filho. Que esta verdade seja
gravada em nossos corações pela pena do Deus Espírito Santo.
Em contrapartida, há um meio de orar pedindo perdão em
que se perde de vista o fundamento perfeito do perdão, o qual foi
lançado no sacrifício da cruz. Se Deus perdoa pecados, tem de ser
"fiel e justo" ao perdoar. Mas é evidente que as nossas orações, por
mais sinceras e fervorosas que sejam, nunca poderiam constituir
a base da fidelidade e justiça de Deus para perdoar os nossos
pecados. Nada, salvo a obra da cruz podia conseguir isto. Ali a
fidelidade e a justiça de Deus foram plenamente estabelecidas, e
isso também com relação imediata aos nossos pecados atuais e a
sua raiz na nossa natureza. Deus já julgou os nossos pecados na
Pessoa do nosso substituto "no madeiro"; e, no ato da confissão,
nós julgamo-nos a nós próprios. Isto é essencial para se alcançar
o perdão divino e restauração. O menor pecado por confessar e
por julgar, na consciência, manchará inteiramente a nossa
comunhão com Deus. O pecado em nós não requer este efeito;
porém se permitirmos que o pecado permaneça
sobre nós não
podemos ter comunhão com Deus. Ele tirou os nossos pecados de
tal maneira, que pode ter-nos na Sua presença; e enquanto
estivermos na Sua presença o pecado não poderá perturbar-nos.
Porém se saímos da Sua presença e cometemos pecado, ainda que
seja só em pensamento, a nossa comunhão deve, por necessidade,
ser suspensa, até que, pela confissão, nos libertemos do pecado.
Tudo isto está fundado exclusivamente sobre o sacrifício perfeito e
a justa advocacia do Senhor Jesus Cristo.
O Julgamento Pessoal
Finalmente, a diferença entre a oração e a confissão, pelo
que diz respeito ao estado do coração perante Deus, e o seu
sentimento moral de aversão ao pecado, não pode ser, de modo
algum considerada demais.
É muito mais fácil pedir, de uma maneira geral, o perdão dos
nossos pecados do que confessar esses pecados. A confissão
implica
o julgamento pessoal; pedir o perdão pode não envolver e,
em si, não envolve esse juízo. Isto, só por si, seria o suficiente para
salientara diferença. O juízo próprio é um dos mais valiosos e
saudáveis exercícios da vida cristã. Portanto, tudo que tende a
produzi-lo deve ser altamente apreciado por todo o cristão sincero.
A diferença entre pedir perdão e confessar o pecado é
continuamente exemplificada no nosso tratamento com as
crianças. Se uma criança tem feito alguma maldade, acha menos
dificuldade em pedir ao pai que a perdoe do que em confessar
abertamente e sem reservas a maldade. Ao pedir perdão, a criança
pode ter em seu pensamento um determinado número de coisas
que tendam a diminuir o sentimento do mal, pode pensar que,
afinal, não havia muita razão para a censurarem, embora seja
conveniente pedir perdão ao pai; enquanto que, ao confessar a
maldade, faz o seu próprio julgamento.
Além disso, ao pedir perdão a criança pode ser influenciada
principalmente pelo desejo de escapar às conseqüências da sua
maldade; enquanto que um pai sensato procurará despertar no
filho exatamente a convicção do mal, e essa convicção só pode
conseguir-se em relação com franca confissão da falta relacionada
com o julgamento de si próprio.
Assim é também na maneira de Deus proceder para com os
Seus filhos, quando eles procedem mal. Tudo tem de ser exposto
completamente e julgado pela pessoa. Ele quer fazer-nos recear
não só as conseqüências do pecado — que são inexprimíveis —
mas detestar também o próprio mal, por causa da sua hediondez
aos Seus olhos. Se fosse possível, quando cometemos pecado,
sermos perdoados simplesmente, porque pedimos perdão, a nossa
compreensão do pecado e atitude perante ele não seriam tão
intensas; e, como conseqüência, a nossa apreciação da comunhão
com que somos abençoados não seria tão elevada. O efeito moral
de tudo isto sobre o caráter da nossa constituição espiritual e a
natureza da vida prática deve ser claro para todo o crente
experimentado (
1).
________________
(
1) O caso de Simão, o mago, em Atos 8, pode apresentar uma dificuldade
para o leitor. Mas basta dizer dele que uma pessoa que está "em fel de
amargura e laço de iniqüidade" nunca podia ser apresentada como modelo para
os filhos de Deus. O seu caso não interfere, de modo algum, com a doutrina de 1
João 1:9. Ele não tinha o parentesco de filho e, conseqüentemente, não
beneficiava da advocacia do nosso Advogado junto do Pai. Devo acrescentar
ainda que o assunto da oração do Senhor não está de modo algum envolvido
neste caso. Desejo limitar-me à passagem que se segue. Devemos evitar sempre
a adoção de regras rígidas. Uma alma pode clamar a Deus em quaisquer
circunstâncias e pedir o que carece. Ele está sempre pronto a ouvir e a
responder.
O "Pecado" e os "Pecados"
Esta série de pensamentos está intimamente relacionada e
plenamente confirmada por dois princípios estabelecidos na "Lei
do sacrifício pacífico".
No versículo 13 do capítulo 7 de Levítico lemos: "Com os
bolos
oferecerá pão levedado". E ainda no versículo 20 lemos:
"Porém, se alguma pessoa comer a carne do sacrifício pacífico, que
é do S
ENHOR, tendo ela sobre si a sua imundícia, aquela pessoa
será extirpada dos seus povos". Aqui temos as duas coisas
claramente postas diante de nós, a saber; o pecado em nós e o
pecado
sobre nós. O "fermento" era permitido porque havia pecado
na natureza do adorador. A "imundícia" não era permitida porque
não devia haver pecado na consciência do adorador. Onde há
pecado não pode haver comunhão. Deus tem provido expiação
pelo sangue para o pecado que Ele sabe existir em nós. Por isso
lemos acerca do pão levedado no sacrifício pacífico "E de toda
oferta oferecerá um deles por oferta alçada ao S
ENHOR, que será do
sacerdote que espargir o sangue da oferta pacífica"
(versículo 14).
Por outras palavras, o "fermento" (
2) na natureza do adorador
estava perfeitamente expiado pelo "sangue" do sacrifício. O sacerdote
que recebe o pão levedado é quem deve espargir o sangue.
Deus afastou da Sua vista o nosso pecado para sempre. Apesar do
pecado estar em nós, não é objeto para fixar os Seus olhos. Ele vê
só o sangue; e portanto pode andar conosco e consentir
ininterrupta comunhão consigo. Porém, se permitirmos que
"o
pecado"
que está em nós se desenvolva na forma de "pecados",
então, tem de haver confissão, perdão e purificação, antes de
podermos comer outra vez da carne da oferta pacífica. A exclusão
do adorador, por causa de impureza mencionada no cerimonial,
corresponde à suspensão de um crente da comunhão, por causa
de pecado por confessar. Intentar ter comunhão com Deus em
nossos pecados implicaria a blasfema insinuação de que Ele podia
andar em companhia do pecado. "Se dissermos que temos
comunhão com ele, e andarmos em trevas, mentimos e não
praticamos a verdade" (1 Jo 1:6).
______________
(
2) O leitor não deve esquecer que o fermento é sempre um símbolo do mal
(N. do T.).
A luz da precedente linha de verdade, podemos finalmente
ver quanto erramos, quando supomos ser um sinal de
espiritualidade estarmos ocupados com os nossos pecados.
Poderia o pecado ou os pecados jamais serem o fundamento ou
alimentar a nossa comunhão com Deus? Não, certamente. Já
vimos que, enquanto o pecado é o objetivo que temos perante nós,
a comunhão tem de ser interrompida. A comunhão só pode ser
"na luz"; é indubitável que não há pecado na luz. Na luz só se
pode ver o sangue que tirou os nossos pecados e nos trouxe para
perto, e o Advogado que nos mantém perto de Si. O pecado foi
esquecido para sempre naquele lugar onde Deus e o adorador se
encontram em santa comunhão. O que é que constituiu o
elemento de comunhão entre o Pai e o pródigo? Foram os trapos
deste? Foram as bolotas da "terra longínqua"
1?- De modo
nenhum. Não foi nada que o pródigo trouxe consigo. Foi a rica
provisão do amor do Pai—"o bezerro cevado". Assim é com Deus e
o verdadeiro adorador. Alimentam-se em conjunto e elevada
comunhão d'Aquele cujo precioso sangue os associou para sempre
nessa luz da qual nenhum pecado pode jamais acercar-se.
Nem por um instante precisamos de supor que a verdadeira
humildade se mostre ou se promova recordando os nossos
pecados ou lamentando-nos sobre eles. Uma tristeza impura e
dolorosa pode assim ser aumentada; mas a verdadeira humildade
salta sempre de uma origem totalmente diferente.
Quando é que o pródigo mais se humilhou? Quando "caiu
em si", na terra longínqua, ou quando chegou a casa do Pai e se
reclinou no seu seio? Não é evidente que a graça que nos eleva às
mais elevadas alturas de comunhão com Deus, é a única que nos
conduz às maiores profundidades de uma genuína humildade?
Sem dúvida. A humildade que tem a sua origem na remoção dos
nossos pecados deve ser sempre mais profunda do que aquela que
resulta de os descobrirmos. A primeira liga-nos com Deus; a
última relaciona-nos com o ego. O meio de se ser verdadeiramente
humilde é andar com Deus no conhecimento e poder do
parentesco em que Ele nos colocou. Ele fez-nos Seus filhos; e se
andarmos como tais seremos humildes.
A Ceia do Senhor
Antes de deixarmos esta parte do assunto, quero fazer uma
observação sobre a ceia do Senhor, que, sendo um ato
proeminente da comunhão da Igreja, pode, com estrita
propriedade, ser considerada em ligação com a doutrina do
sacrifício pacífico. A celebração inteligente da ceia do Senhor deve
depender sempre do reconhecimento do Seu caráter puramente
eucarístico ou de ações de graças. É especialmente uma festa de
ação de graças — ação de graças por uma redenção cumprida.
"Porventura, o cálice de bênção que abençoamos não é a
comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é,
porventura, a comunhão do corpo de Cristo?" (1 Co 10:16). Por
isso, uma alma curvada sob o peso do fardo do pecado não pode
comer a ceia do Senhor com inteligência espiritual, visto que essa
festa é expressiva da completa remoção do pecado pela morte de
Cristo:"... anunciais a morte do Senhor, até que venha" (1 Co
11:26). Na morte de Cristo, a fé vê o fim de tudo que pertencia ao
nosso lugar na velha criação; e, visto que a ceia do Senhor
anuncia
essa morte, deve ser considerada como a recordação do
fato glorioso que o fardo do pecado do crente foi levado por Aquele
que o tirou para sempre.
Declara que a cadeia dos nossos pecados, com que
estávamos presos e amarrados, foi partida para sempre pela morte
de Cristo e não pode j amais prender-nos ou amarrar-nos de novo.
Nós reunimo-nos ao redor da mesa do Senhor com toda a alegria
de vencedores. Volvemos os olhos para a cruz onde se travou e
ganhou a batalha; e antevemos a glória em que entraremos nos
resultados plenos e eternos da vitória.
Decerto, temos "fermento"
em nós; mas não temos nenhuma
"imundície"
sobre nós. Não temos que fixar os olhos nos nossos
pecados; mas, sim, n Aquele que os levou sobre a cruz e os tirou
para sempre. Não temos de nos enganar a nós mesmos com a
idéia presunçosa de que "não temos pecado" em nós; nem vamos
negar a verdade da Palavra de Deus e a eficácia do sangue de
Cristo recusando alegrarmo-nos com a verdade preciosa que não
temos pecado sobre nós, porque "o sangue de Jesus Cristo, seu
Filho, nos purifica de todo pecado". É verdadeiramente deplorável
ver a nuvem carregada que se forma sobre a ceia do Senhor, com
o parecer de tantos cristãos professos. Este fato contribui, tanto
como tudo o mais, para revelar a enorme falta de compreensão a
que se pode chegar com respeito às verdades mais elementares do
evangelho. De fato, sabemos que quando a ceia do Senhor é
tomada por uma razão qualquer que não seja o conhecimento da
salvação — o gozo do perdão —, consciência da libertação, a alma
é envolvida em maior obscuridade do que nunca.
Aquilo que é apenas um memorial de Cristo é usado para O
deslocar. Aquilo que celebra uma redenção efetuada é empregado
como um degrau para ela. É assim que se abusa das ordenações,
as almas são submergidas nas trevas e cai-se na confusão e no
erro.
O Valor do Sangue de Cristo
Quão diferente de tudo isto é a bela ordenação do sacrifício
pacífico! Neste, considerado sob a sua importância simbólica,
vemos que, logo que o sangue era derramado, Deus e o adorador
podiam alimentar-se em feliz e pacífica comunhão. Nada mais era
necessário. A paz estava estabelecida pelo sangue; e, sobre essa
base, prosseguia a comunhão. Uma simples dúvida quanto ao
estabelecimento da paz é fatalmente o golpe mortal na comunhão.
Se estamos ocupados com esforços inúteis para conseguir a paz
com Deus, então desconhecemos totalmente o que é a comunhão
e o culto. Se o sangue do sacrifício pacífico não foi derramado, é
impossível alimentarmo-nos com "o peito" ou a "espádua". Mas,
por outro lado, se o sangue foi derramado, então a paz já está
feita. Deus mesmo fez a paz e isto é bastante para a fé; e,
portanto, pela fé temos comunhão com Deus, no conhecimento e
gozo da redenção efetuada. Provamos a frescura do próprio gozo
de Deus naquilo que Ele fez. Alimentamo-nos de Cristo em toda a
plenitude e bem-aventurança da presença de Deus.
O Culto
Este último ponto está relacionado e baseado sobre outra
verdade fundamental da "lei do sacrifício pacífico". "Mas a carne
do sacrifício de louvores da sua oferta pacífica se comerá no dia do
seu oferecimento; nada se deixará dela até amanhã." Quer dizer, a
comunhão do adorador nunca deve separar-se do sacrifício sobre
o qual a comunhão está baseada. Desde que se tenha energia
espiritual para manter a conexão, o culto e a comunhão
subsistirão em frescura e aceitação, mas só assim.
Devemos estar
perto do sacrifício,
no espírito do nosso entendimento, as afeições
do nosso coração e a experiência das nossas almas. É isto que
dará poder e duração ao nosso culto. Pode dar-se o caso de
começarmos qualquer ato ou expressão de culto com os nossos
corações ocupados imediatamente com Cristo; e, antes de
chegarmos ao fim, estarmos ocupados com o que estamos fazendo
ou dizendo ou com as pessoas que nos escutam; e, desta forma,
caímos naquilo que pode chamar-se "iniqüidade nas nossas coisas
santas". Isto é profundamente solene e deveria tornar-nos
vigilantes. Começamos o culto no Espírito e acabamos na carne.
Devemos ter sempre o cuidado de não nos afoitarmos a proceder,
nem por um momento, para lá da energia do Espírito, porque o
Espírito manter-nos-á sempre ocupados com Cristo. Se o Espírito
Santo nos inspira "cinco palavras" de adoração ou de ações de
graças, pronunciemos as cinco e calemo-nos. Se continuarmos a
falar, estamos comendo a carne do nosso sacrifício depois do
tempo fixado; e, longe de ser "aceitável", é, na realidade, "uma
abominação". Lembremo-nos disto e vigiemos. Não há necessidade
para alarme. Deus quer que sejamos guiados pelo Espírito e assim
cheios de Cristo em todo o nosso culto. Ele só pode aceitar aquilo
que é divino; e, portanto, não quer que seja apresentado senão o
que é divino.
"E, se o sacrifício da sua oferta for voto ou oferta voluntária,
no dia em que oferecer o seu sacrifício se comerá;
e o que dele ficar
também se comerá no dia seguinte"
(Lv 7:16). Quando a alma se
eleva a Deus em um ato voluntário de adoração, tal adoração
provêm de uma maior medida de energia espiritual do que quando
procede simplesmente de alguma graça particular do próprio
momento. Se se há recebido uma favor especial da mão do
Senhor, a alma eleva-se imediatamente em ação de graças. Neste
caso, o culto é suscitado por e ligado com esta mercê de graça,
qualquer que possa ser, e acaba aí. Porém quando o coração é
levado pelo Espírito Santo a qualquer expressão voluntária ou
deliberada de louvor, o culto terá um caráter mais duradouro.
Todavia, o culto espiritual ligar-se-á sempre com o precioso
sacrifício de Cristo.
"E o que ainda ficar da carne do sacrifício ao terceiro dia
será queimado no fogo. Porque, se da carne do seu sacrifício
pacífico se comer ao terceiro dia, aquele que a ofereceu não será
aceito, nem lhe será imputado; coisa abominável será, e a pessoa
que comer dela levará a sua iniqüidade". Nada tem qualquer valor,
segundo o juízo de Deus, senão aquilo que está intimamente
ligado com Cristo. Pode existir muita aparência de culto, e ser,
afinal, a mera excitação e expressão de sentimentos naturais.
Pode haver uma grande aparente devoção, que é, simplesmente,
devoção carnal.
A natureza pode excitar-se, no campo religioso, de diversas
maneiras, tais como pompa, cerimônias, procissões, atitudes,
ricas vestimentas, uma liturgia eloqüente e todos os atrativos de
um esplêndido ritualismo; e, contudo, pode haver uma absoluta
ausência de culto espiritual. Sim, acontece freqüentemente que os
mesmos gostos e inclinações, que são excitados e satisfeitos por
formas pomposas de um culto chamado religioso, encontrariam
um alimento mais apropriado na ópera ou nos concertos.
Aqueles que sabem que "Deus é espírito e aqueles que o
adoram devem adorá-Lo em espírito e em verdade" (João 4) e que
desejam rememorá-Lo devem pôr-se em guarda contra tudo isto. A
religião, assim chamada, reveste-se, em nossos dias, dos mais
poderosos atrativos. Abandonando a grosseria da idade média, ela
chama em seu auxílio todos os recursos de gosto requintado de
um século iluminado e culto. A escultura, a música, e a pintura,
vazam os seus ricos tesouros no seu seio, a fim de que ela possa,
com isso, preparar um poderoso narcótico para embalar as
multidões irrefletidas numa sonolência, que só será interrompida
pelos indescritíveis horrores da morte, do juízo e do lago de fogo.
Ela pode também dizer:
"Sacrifícios pacíficos tenho comigo; hoje
paguei os meus
votos... Já cobri a minha cama com cobertas de
tapeçaria, com obras lavradas com Unho fino do Egito; já perfumei
o meu leito com mirra, aloés e canela" (Pv 7:14-17). Assim a
religião corrompida seduz, por sua poderosa influência, aqueles
que não querem escutar a voz celestial da sabedoria.
Guarde-se o leitor de tudo isto. Certifique-se de que o seu
culto está inseparavelmente ligado com a obra da cruz. Veja se
Cristo é o fundamento, Cristo o elemento e o Espírito Santo o
poder do seu culto. Guarde-se de que o ato exterior do seu culto
não se alongue para lá deste poder íntimo. É necessária muita
vigilância para se evitar este mal. Os seus manejos secretos são
dos mais difíceis de detectar e impedir. Podemos começar um hino
no verdadeiro espírito de culto, e, por falta de poder espiritual,
podemos, antes de chegar ao fim, cair no mal que corresponde ao
ato do cerimonial de comer a carne do sacrifício pacífico ao
terceiro dia. A nossa única salvaguarda consiste em estarmos
perto de Jesus. Se elevarmos os nossos corações em "ações de
graças" por qualquer mercê especial, façamo-lo no poder do nome
e do sacrifício de Cristo. Se as nossas almas se elevam em
adoração "voluntária", que seja na energia do Espírito Santo.
Deste modo o nosso culto terá aquela frescura, essa fragrância e
profundidade de tom, essa elevação moral, que devem resultar do
fato de se ter o Pai por objeto, o Filho por fundamento e o Espírito
Santo com o poder do culto.
_________________
NOTA: É interessante observar que, embora o sacrifício pacífico seja o
terceiro na ordem dos sacrifícios, contudo "a Lei" dele é dada depois de todos.
Esta circunstância não deixa de ter a sua importância. Em nenhum dos
sacrifícios a comunhão do adorador é tão claramente revelada como no sacrifício
pacífico. No holocausto vemos Cristo oferecendo-se a Si mesmo a Deus. Na
oferta de manjares, temos a perfeita humanidade de Cristo. Depois, passando
ao sacrifício pelo pecado, aprendemos que o pecado em sua raiz é inteiramente
expiado. No sacrifício pelo sacrilégio, há plena provisão para os pecados na vida
presente. Mas em nenhum é revelada a comunhão do adorador. A comunhão
pertence ao "sacrifício pacífico"; e, daí, creio, a posição que ocupa a ''lei deste
sacrifício". Aparece no fim de todas, ensinando-nos com isso que, quando se
trata de uma questão de a alma se alimentar de Cristo, tem de ser um Cristo
completo, considerado sob todas as fases possíveis da Sua vida — o Seu
caráter, a Sua Pessoa, Sua Obra, e Seu cargo. E, além disso, que, quando
tivermos acabado para sempre com o pecado e os pecados, deleitar-nos-emos
em Cristo e nos alimentaremos d'Ele por todos os séculos eternos. Seria, creio,
uma falta grave no nosso estudo dos sacrifícios se deixássemos de considerar
uma circunstância tão digna de ser notada como a que acabamos de frisar. Se a
"lei do sacrifício pacífico" fosse dada pela ordem em que ocorre o próprio
sacrifício viria imediatamente depois da lei da oferta de manjares; porém em vez
disso, são dadas "A lei da expiação do pecado" e "a lei da expiação da culpa" e,
então, em conclusão, segue-se a "lei do sacrifício pacífico".
Que assim seja, ó Senhor, com todos os que te adoram, até
nos encontrarmos em corpo, alma e espírito na segurança da tua
presença eterna, fora do alcance de toda a influência perniciosa do
falso culto e da religião corrompida, e também fora do alcance dos
diferentes impedimentos que provêm destes corpos de pecado e
morte que trazemos em nós!
—CAPÍTULOS 4 a 5:13 —
OS SACRIFÍCIOS QUE
NÃO SÃO DE CHEIRO SUAVE
Os Sacrifícios pelo Pecado
Tendo considerado as ofertas de "cheiro suave", chegamos
agora aos "sacrifícios pelo pecado". Estes eram divididos em duas
classes, a saber, sacrifícios pelo pecado e expiação do pecado. Na
primeira havia três categorias; primeiro, o sacrifício pelo
"sacerdote ungido" e por "toda a congregação". Estes dois tinham
os mesmos ritos e cerimônias (compare-se os versículos 3 a 12
com os versículos 13a 23). Era o mesmo, quer tivesse sido o
representante da assembléia ou a própria assembléia que tivesse
pecado. Em qualquer dos casos três coisas estavam envolvidas: a
habitação de Deus na assembléia, a adoração da assembléia e a
consciência individual. Ora, visto que as três coisas dependiam do
sangue, verificamos que, na primeira categoria do sacrifício pelo
pecado, três coisas eram feitas com o sangue. Era aspargido "sete
vezes perante o S
ENHOR, diante do véu do santuário". Isto
assegurava as relações de Jeová com o povo e a Sua habitação no
meio deles.
O Sangue da Vítima
Depois lemos: "Também porá o sacerdote daquele sangue
sobre as pontas do altar do incenso aromático, perante o S
ENHOR,
altar que está na tenda da congregação". Isto assegurava a
adoração da assembléia. Pondo o sangue sobre "o altar de ouro", a
verdadeira base de adoração era mantida; de forma que a chama
do incenso e a sua fragrância podiam subir continuamente.
Finalmente, "todo o resto do sangue do novilho derramará à base
do altar do holocausto, que está à porta da tenda da congregação".
Aqui temos o que satisfaz plenamente as exigência da consciência
de cada indivíduo; pois o altar de cobre era o lugar de acesso
individual. Era onde Deus encontrava o pecador.
Nas outras duas categorias, "um príncipe" ou "qualquer
outra pessoa do povo da terra", era apenas uma questão de
consciência individual; e portanto uma única coisa era feita com o
sangue. Era todo derramado "à base do altar do holocausto"
(compare-se verso 7 com os versos 25,30). Existe em tudo isto
uma precisão divina que requer toda a atenção do leitor, se deseja
compreender os pormenores maravilhosos deste símbolo (').
O efeito do pecado individual não podia prolongar-se para
além dos limites da consciência do indivíduo. O pecado de "um
príncipe" ou de "qualquer outra pessoa do povo", não podia, em
sua influência, atingir "o altar do incenso" — o lugar da adoração
sacerdotal. Não podia tão-pouco chegar ao "véu do santuário" — o
limite sagrado da habitação de Deus no meio do Seu povo. É bom
ponderar isto. Nunca devemos levantar uma questão de pecado
pessoal ou falta no lugar de culto sacerdotal ou na assembléia.
Deve ser tratada no lugar de aproximação pessoal. Muitos erram
sobre este ponto. Vêm à assembléia ou lugar público de culto com
a sua consciência manchada, e desta forma arrastam toda a
assembléia e contaminam o seu culto. Deveria examinar-se
rigorosamente este mal e haver cuidadosa vigilância contra ele.
Precisamos de andar com maior vigilância para que a nossa
consciência possa estar sempre na luz. E quando falhamos, como,
infelizmente, acontece em tantas coisas, devemos tratar com Deus
sobre a nossa falta em oculto, para que a nossa verdadeira
adoração e a posição da assembléia possam ser mantidas sempre
plenamente com clareza diante da alma.
(
1) Entre a oferta por "um príncipe" e a oferta por "qualquer outra pessoa"
há esta diferença: na primeira era um "macho sem mancha"; na última "uma
fêmea sem mancha". O pecado de um príncipe exercia necessariamente maior
influência do que o de uma pessoa comum; e, portanto, era necessária uma
aplicação mais poderosa do valor do sangue. Em capítulo 5:13 encontramos
casos que requerem uma aplicação ainda mais inferior à da oferta de expiação
pelo pecado — casos de juramento e de contato com formas de impureza, em
que "a décima parte de um efa de flor de farinha" era admitido como oferta de
expiação pelo pecado (Veja-se capítulo 5:11-13). Que contraste entre o aspecto
de expiação apresentado por um bode de um príncipe e a mão-cheia de flor de
farinha de um pobre homem! E, todavia, no último, tão certo como no primeiro,
lemos, "e ser-lhe-á perdoado".
O leitor há de notar que o capítulo 5:1-13 forma uma parte do capítulo 4.
Ambos estão compreendidos sob o mesmo título, e apresentam a doutrina da
oferta de expiação do pecado, em todas as suas aplicações, desde um bode a
uma mão-cheia de flor de farinha. Cada classe de oferta é anunciada pelas
palavras. "Falou mais o S
ENHOR a Moisés". Assim, por exemplo, com as ofertas
de "cheiro suave" (Capítulos 1-3) são introduzidas pelas palavras: "E chamou o
S
ENHOR a Moisés". Estas palavras não são repetidas até ao capítulo 4:1, onde
introduzem o sacrifício de expiação do pecado. Ocorrem outra vez no capítulo
5:14, onde é introduzida a Oferta de transgressão por pecados cometidos "nas
coisas sagradas do S
ENHOR"; e outra vez em capítulo 6:1, onde introduzem a
oferta de transgressão por pecados cometidos contra o Senhor no tocante ao seu
próximo.
É uma classificação bela e simples, e pode auxiliar o leitor a compreender
as diversas classes de ofertas. Quanto às diversas categorias em cada classe,
"um bode", "um carneiro", "uma fêmea", "uma pomba", "uma mão-cheia de flor de
farinha", parece serem outras tantas aplicações diversas da mesma grande
verdade.
O Pecado por Erro (ou Ignorância)
Havendo assim dito o bastante quanto às três categorias de
sacrifício pelo pecado, vamos proceder ao exame, pormenorizado
dos princípios desenvolvidos na primeira classe. Fazendo-o, poderemos
formar, até certo ponto, uma idéia exata dos princípios de
todos. Desejo contudo, ao entrar na comparação imediata atrás
referida, chamar a atenção do leitor para um ponto notável que é
revelado no segundo verso deste capítulo. "Quando uma alma
pecar por
erro". Isto apresenta uma verdade de profunda bemaventurança,
em relação com a expiação do Senhor Jesus Cristo.
Ao contemplarmos essa expiação, vemos infinitamente mais do
que a simples satisfação das exigências da consciência, ainda que
essa consciência tivesse atingido o ponto mais alto de polida
sensibilidade. Temos o privilégio de ver nela o que satisfaz
plenamente todas as exigências da santidade divina, a justiça
divina e a majestade divina.
A santidade da habitação de Deus e o fundamento da Sua
união com o Seu povo nunca poderiam ser regulamentadas pelo
padrão da consciência do homem, por muito elevado que esse
padrão pudesse ser. Há muitas coisas que a consciência do
homem omitiria — muitas coisas que poderiam escapar à
percepção do homem —, muitas coisas que o seu coração poderia
considerar lícitas, mas que Deus não podia tolerar; e que, como
conseqüência, haviam de interferir com a aproximação do homem
de Deus e impedi-lo de render adoração e prejudicar as suas
relações. Pelo que, se a expiação de Cristo fizesse apenas provisão
para os pecados que estão ao alcance da compreensão do homem,
nós estaríamos muito aquém do verdadeiro fundamento da paz.
Precisamos de compreender que o pecado foi expiado segundo a
avaliação que Deus fez dele — que as exigências do Seu trono
foram perfeitamente cumpridas —, o pecado, tal qual é visto à luz
da Sua inflexível santidade, foi divinamente julgado. É isto que dá
paz segura à alma. Fez-se perfeita expiação tanto pelos pecados de
ignorância do crente como pelos seus pecados conhecidos. O
sacrifício de Cristo é o fundamento das suas relações e comunhão
com Deus, segundo a apreciação divina das suas exigências.
Um conhecimento claro deste fato é de incalculável valor. A
não ser que se lance mão deste aspecto da expiação, não pode
haver paz firme, nem poderá haver compreensão moral da
extensão e plenitude da obra de Cristo ou da verdadeira natureza
do parentesco baseado nela. Deus sabia o que era necessário para
que o homem pudesse estar na Sua presença sem o mais simples
temor; e fez para isso ampla provisão na cruz. A comunhão entre
Deus e o homem era inteiramente impossível se o pecado não
tivesse sido liquidado segundo os pensamentos de Deus sobre ele;
porque, embora a consciência do homem estivesse satisfeita, a
pergunta levantar-se-ia sempre, Deus ficou satisfeito? Se esta
pergunta não pudesse ser respondida afirmativamente, a
comunhão nunca poderia subsistir ('). O pensamento de que nos
pormenores da vida se manifestavam coisas que a santidade
divina não podia tolerar intrometer-se-ia continuamente com o
coração. Decerto, podíamos fazer essas coisas "por ignorância";
porém isto não podia alterar o assunto perante Deus, visto que
tudo é do Seu conhecimento. Por isso, haveria constante receio,
dúvida e temor. Todas estas coisas são divinamente atendidas
pelo fato de que o pecado foi expiado, não segundo a nossa
"ignorância", mas conforme o conhecimento de Deus. Esta certeza
dá grande descanso ao coração e à consciência. Todas as
exigências de Deus foram satisfeitas pela Sua própria obra. Ele
Próprio fez a provisão; e, portanto, quanto mais requintada se
torna a consciência do crente, sob a ação combinada da Palavra e
do Espírito de Deus — quanto mais ele cresce no conhecimento
divinamente adaptado a que tudo moralmente convém ao
santuário —, tanto mais sensível ele se torna a tudo que é
incompatível com a presença divina, e mais vigorosa, clara e
profunda será a sua compreensão do valor infinito daquele
sacrifício pelo pecado que não só ultrapassa os limites da
consciência humana, mas satisfaz também, em perfeição absoluta,
todas as exigências da santidade divina.
_____________________
(
1) Desejo lembrar que o ponto saliente no texto é simplesmente expiação.
O leitor cristão sabe muito bem, sem dúvida, que a possessão da "natureza
divina" é essencial à comunhão com Deus. Eu preciso não só de uma direito
para me acercar de Deus, mas de um natureza para gozar d'Ele. A alma que
"crê no Filho unigênito de Deus" tem tanto um como outro (veja-se Jo 1:12-13;
3:36; 5:24; 20:31; 1 Jo 5:11-13).
A Exigência da Santidade Divina ante a Ignorância do Crente
Nada pode demonstrar claramente a incapacidade do
homem para tratar do pecado como o fato de existir aquilo que é
descrito como "pecado de ignorância". Como poderia ele tratar
daquilo que não conhecei Como poderia ele dispor daquilo que
nunca entrou nos limites da sua consciência? Era impossível. A
ignorância em que o homem está acerca do pecado é prova da sua
absoluta incapacidade para o tirar. Se não o conhece, que pode
fazer acerca dele? Nada. É tão impotente como ignorante. Nem isto
é tudo. O fato de haver "pecado de ignorância" demonstra
claramente a incerteza que deve acompanhar toda a solução da
questão do pecado, a qual não pode aplicar-se a noções mais
elevadas do que aquelas que podem resultar da consciência
humana mais delicada. Nunca poderá haver paz duradoura sobre
este fundamento. Existirá sempre a compreensão dolorosa de que
há qualquer coisa que está mal.
Se o coração não é conduzido a um estado de repouso
permanente pelo testemunho da Escritura de que os direitos
inflexíveis da justiça divina foram satisfeitos, haverá,
necessariamente, uma sensação de mal-estar, e uma tal sensação
representa um obstáculo à nossa adoração, à nossa comunhão e
ao nosso testemunho. Se eu me sentir inquieto a respeito da
solução da questão do pecado, não posso adorar; não posso gozar
de comunhão com Deus nem com o Seu povo; nem tão-pouco
posso ser uma testemunha inteligente ou apta de Cristo. O
coração tem de estar tranqüilo, perante Deus, quanto à perfeita
remissão do pecado, antes de podermos "adorar em espírito e
verdade". Se houver culpa sobre a consciência, deve haver terror
no coração; e, seguramente, um coração cheio de terror não pode
ser um coração feliz e adorador. É somente de um coração cheio
desse doce e santo repouso que proporcionou o sangue de Cristo
que pode subir adoração verdadeira e aceitável ao Pai.
O mesmo princípio é verdadeiro a respeito da nossa
comunhão com o povo de Deus, e o nosso serviço e testemunho
entre os homens. Tudo deve descansar sobre o fundamento de paz
estabelecida; e esta paz descansa sobre o fundamento de uma
consciência perfeitamente purificada; e esta consciência purificada
descansa sobre o fundamento da perfeita remissão de todos os
nossos pecados, quer sejam pecados do nosso conhecimento ou
pecados de ignorância.
Comparação do Holocausto com o Sacrifício pelo Pecado
Vamos prosseguir agora com a comparação entre o sacrifício
pelo pecado e o holocausto, em cujo confronto encontraremos dois
aspectos de Cristo muito diferentes. Porém, embora os aspectos
sejam diferentes, é um só e o mesmo Cristo; e, por isso, em ambos
os casos, o sacrifício era "sem mancha". Isto é fácil de
compreender. Não importa sob que aspecto contemplarmos o
Senhor Jesus Cristo, Ele é sempre o mesmo Ser perfeito,
imaculado e santo. É verdade que, em Sua abundante graça, teve
de curvar-Se para tomar sobre Si o pecado do Seu povo; mas foi
como um Cristo perfeito, puro, que o fez; e seria nada menos do
que perversidade diabólica alguém valer-se da profundidade da
Sua humilhação para manchar a glória pessoal d'Aquele que
assim se humilhou. A excelência intrínseca, a pureza inalterável e
a glória divina do nosso bendito
Senhor aparecem no sacrifício pelo pecado tão claramente
como no holocausto. Seja em que relação for que Ele se apresente,
em qualquer ocupação ou obra que execute, ou posição que
ocupe, a Sua glória pessoal brilha em todo o esplendor divino.
Esta verdade de um só e mesmo Cristo, quer seja no
Holocausto ou no sacrifício pelo pecado vê-se não apenas no fato
que, em ambos os casos, a oferta era "sem mancha", como
também na "lei da expiação do pecado", na qual lemos: "Esta é a
lei da expiação do pecado no lugar onde se degola o holocausto, se
degolará a oferta pela expiação do pecado perante o S
ENHOR; coisa
santíssima é" (Lv 6:25). Os dois tipos indicam um e mesmo grande
Antítipo, embora o apresentem sob aspectos diferentes da Sua
obra. No holocausto vemos Cristo correspondendo aos afetos
divinos; na expiação do pecado vêmo-Lo satisfazendo as
profundidades da necessidade humana. Aquele apresenta-O como
Aquele que cumpre a vontade de Deus; este como Aquele que
levou o pecado do homem. No primeiro aprendemos qual é o
elevado preço do sacrifício; no último o que é a aversão do pecado.
Isto basta quanto às duas ofertas, em geral. Um exame minucioso
dos pormenores não fará mais que confirmar a mente na verdade
desta asserção.
Quando consideramos, em primeiro lugar, o holocausto,
notamos que era uma oferta voluntária. "... a oferecerá de sua
própria vontade perante o S
ENHOR" ('). Ora, o vocábulo "própria"
não é mencionado na expiação pelo pecado. E precisamente o que
poderíamos esperar. A omissão está de perfeito acordo com o alvo
específico do Espírito Santo no holocausto, que é apresentá-lo
como uma oferta voluntária. Era a comida e bebida de Cristo fazer
a vontade de Deus, qualquer que pudesse ser essa vontade. Nunca
pensou em inquirir quais eram os ingredientes do cálice que Seu
Pai ia pôr em Suas mãos. Bastava-Lhe saber que o Pai o havia
preparado. Assim acontecia com o Senhor Jesus simbolizado no
holocausto.
____________________
(
1) Alguns podem encontrar dificuldade no fato de a palavra "própria" se
referir ao adorador e não ao sacrifício; mas isto não pode de modo algum afetar
a doutrina exposta no texto, que é fundada no fato de que uma palavra
empregada no holocausto é omitida na oferta de expiação pelo pecado. O
contraste subsiste, quer pensemos no ofertante ou na oferta.
Porém, na oferta de expiação do pecado temos uma linha de
verdade completamente diferente. Este símbolo apresenta Cristo
aos nossos pensamentos, não como Aquele que realiza
voluntariamente
a vontade de Deus, mas como Aquele que levou
sobre Si essa coisa terrível chamada "pecado", e o Sofredor de
todas as suas conseqüências aterradoras, das quais a mais
aterradora, para Si, consistiu em que Deus ocultasse d'Ele o Seu
rosto. Por isso, a palavra "própria" não estaria de acordo com o
objetivo do Espírito na oferta de expiação pelo pecado. Esta
expressão estaria tão deslocada neste símbolo como está
divinamente em seu lugar no holocausto. O seu emprego e a sua
omissão são igualmente divinos; e mostram tanto uma como a
outra a precisão perfeita e divina dos tipos de Levítico.
Ora, o ponto de contraste que temos estado a considerar
explica, ou, antes, harmoniza duas expressões empregadas por
nosso Senhor. Em uma ocasião diz:"... não beberei eu o cálice que
o Pai me deu?-" E, todavia, diz também: "Meu Pai, se é possível
passe de mim este cálice."
A primeira destas expressões era o perfeito cumprimento das
palavras com que havia começado a Sua carreira, a saber: "Eis
aqui venho para fazer, ó Deus, a tua vontade"; e é, além disso, a
elocução de Cristo como o holocausto. A última, por outro lado, é
a exclamação de Cristo quando contemplava o lugar que estava
prestar a ocupar como sacrifício pelo pecado. O que esse lugar era
e o que estava envolvido n'ele, tomando-o, é o que veremos no
prosseguimento do nosso estudo; é contudo interessante e
instrutivo encontrar toda a doutrina dos dois sacrifícios
encerrada, com efeito, no fato de uma simples palavra ser
introduzida num e omitida no outro. Se encontramos no
holocausto a prontidão com que Cristo Se ofereceu a Si mesmo
para o cumprimento da vontade de Deus, na expiação do pecado
vemos com que profunda abnegação tomou todas as
conseqüências do pecado do homem e como chegou à distância
longínqua da posição do homem no que se referia a Deus.
Deleitava-se em fazer a vontade de Deus; estremecia ante a idéia
de perder, por um momento, a luz do Seu bendito rosto.
Nenhum sacrifício podia tê-lo simbolizado debaixo destes
dois aspectos. Precisávamos de uma figura que no-Lo
apresentasse como Aquele que se comprazia em fazer a vontade de
Deus; e necessitávamos de uma figura que no-Lo mostrasse como
Aquele cuja natureza santa retrocedia ante as conseqüências do
pecado imputado. Bendito seja Deus, temos tanto uma como a
outra. O holocausto mostra-nos uma, a oferta de expiação dá-nos
a outra. Pelo que quanto mais aprofundamos o afeto do coração de
Cristo a Deus, mais compreendemos o Seu horror ao pecado; e
vice-versa.
Cada um destes símbolos põe em relevo o outro; e o
emprego da palavra "própria" em um e não no outro fixa a
importância especial de cada um.
Mas, pode perguntar-se, não era da vontade de Deus que
Cristo Se oferecesse em sacrifício de expiação pelo pecado? E, se
assim é, como podia hesitar em cumprir essa vontade?
Seguramente o conselho de Deus tinha determinado que Cristo
sofresse. Além disso era o prazer de Cristo fazer a vontade de
Deus. Porém, como devemos compreender a expressão," Se é
possível passe de mim este cálice"? Não é a exclamação de Cristo
1?
E não existe nela um símbolo especial d'Aque!e que a proferiu?
Certamente. Haveria uma lacuna grave entre os símbolos da
economia Moisaica se não houvesse um para refletir o Senhor
Jesus na atitude exata em que esta expressão O apresenta.
Contudo, o holocausto não O apresenta assim. Não há uma
só circunstância em relação com essa oferta que corresponda a
uma tal linguagem. Só a oferta de expiação do pecado oferece a
figura apropriada ao Senhor Jesus como Aquele que exalou esses
acentos de intensa agonia, porque só nela encontramos as
circunstâncias que evocaram tais acentos das profundezas da Sua
alma imaculada.
A sombra terrível da cruz, com a sua ignomínia, a sua
maldição e a sua exclusão da luz da face de Deus, passava pelo
Seu espírito e Ele não podia sequer contemplá-la sem exclamar:
"Se é possível passe de mim este cálice". Porém, apenas havia
pronunciado estas palavras, quando a Sua profunda submissão se
mostra nestas palavras: "faça-se a tua vontade". Que "cálice"
amargoso deve ter sido para arrancar de um coração
perfeitamente submisso as palavras "passe de mim"! Que perfeita
submissão deve ter havido para, em presença do cálice amargoso,
o coração ter exclamado "faça-se a tua vontade"!
A Imposição das Mãos: Identificação com a Vítima
Vamos considerar agora o ato típico da imposição das mãos.
Este ato era comum tanto ao holocausto como à oferta de expiação
do pecado; porém, no caso do primeiro identificava o oferente com
a oferta sem mancha; no caso do segundo implicava a
transferência do pecado do ofertante para a cabeça da oferenda.
Era assim no tipo; e, quando consideramos o Antítipo,
aprendemos uma lição da natureza mais consoladora e edificante
— uma verdade que, se fosse mais bem compreendida e
plenamente realizada, proporcionaria uma paz muito mais
constante do que aquela que geralmente se goza.
Qual é, pois, a doutrina exposta no ato da imposição das
mãos? É esta: Cristo foi feito pecado por nós para que nós
fôssemos feitos justiça de Deus (2 Co 5:21). Ele tomou a nossa
posição com todas as suas conseqüências para que nós
pudéssemos ter a Sua com todas as suas conseqüências. Foi
tratado como pecado sobre a cruz para que nós pudéssemos ser
tratados como justiça na presença da santidade infinita. Foi
retirado da presença de Deus porque tinha pecado sobre Si, por
imputação, para que nós pudéssemos ser recebidos na casa de
Deus e em Seu seio, porque, por imputação, temos uma perfeita
justiça. Teve de suportar a invisibilidade do semblante de Deus
para que nós pudéssemos gozar da luz desse semblante. Teve de
passar três horas de trevas para que nós pudéssemos andar na
luz eterna. Foi desamparado por Deus por um tempo, para que
nós pudéssemos gozar a Sua presença para sempre. Tudo que nos
era imposto, como pecadores arruinados, foi posto sobre Si para
que tudo que Lhe era devido, como Realizador da redenção,
pudesse ser nosso. Tudo foi contra Si quando foi pendurado no
madeiro de maldição para que nada pudesse haver contra nós.
Identificou-se conosco, na realidade da morte e do juízo, para que
nós pudéssemos ser identificados consigo, na realidade da vida e
justiça. Bebeu o cálice da ira — o cálice do terror— para que nós
pudéssemos beber o cálice da salvação — o cálice do favor infinito.
Foi tratado conforme os nossos méritos para que nós pudéssemos
ser tratados segundo os Seus.
Tal é a maravilhosa verdade ilustrada pelo ato cerimonial da
imposição das mãos. Depois de o adorador ter posto a sua mão
sobre a cabeça do holocausto, já não se tratava da questão do que
ele era ou do que merecia e tornava-se inteiramente uma questão
do que a oferta era segundo o juízo do Senhor. Se a oferta era sem
mancha, o oferente era-o também; se a oferta era aceite também o
era o oferente. Estavam perfeitamente identificados. O ato de
impor as mãos constituía-os em um aos olhos de Deus. Ele via o
oferente por meio da oferta. Era assim no caso do holocausto.
Mas na oferta de expiação do pecado, quando o oferente
tinha posto a sua mão sobre a cabeça da oferta, tornava-se uma
questão de saber o que o oferente era e o que ele merecia. A oferta
era tratada segundo os méritos do ofertante. Eram perfeitamente
identificados. O ato de impor as mãos constituía-os em um, no
parecer de Deus. O pecado do ofertante era tratado na oferta de
expiação do pecado; a pessoa do oferente era aceite no holocausto.
Isto fazia uma grande diferença. Por isso, embora o ato de impor
as mãos fosse comum às duas figuras, e, além disso, fosse
expressivo, em ambos os casos de identificação, todavia as
conseqüências eram tão diferentes quanto o podiam ser. O justo
tratado como injusto; o injusto aceito no justo."... Cristo padeceu
uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a
Deus" (1 Pe 3:18). Esta é a doutrina.
Os nossos pecados levaram Cristo à cruz; mas Ele leva-nos a
Deus. E se Ele nos leva a Deus é por Sua própria aceitabilidade
como ressuscitado de entre os mortos, havendo tirado os nossos
pecados, segundo a perfeição da Sua obra. Ele levou os nossos
pecados para longe do santuário de Deus a fim de nos poder
trazer perto, até mesmo ao lugar santíssimo, em inteira confiança
de coração, tendo a consciência purificada de toda a mancha de
pecado pelo Seu precioso sangue.
Bem, quanto mais compararmos todos os pormenores do
holocausto e da oferta de expiação do pecado, tanto mais
claramente compreenderemos a verdade do que tem sido
acentuado a respeito do ato de impor as mãos e dos seus
resultados, em ambos os casos.
No capítulo primeiro deste volume notamos o fato que "os
filhos de Arão" são introduzidos no holocausto, mas não na oferta
de expiação do pecado. Como sacerdotes tinham o privilégio de
permanecer em redor do altar e de contemplar a chama de um
sacrifício aceitável subindo para o Senhor. Porém na oferta de
expiação do pecado, em seu aspecto primário, tratava-se de uma
questão de julgamento solene do pecado, e não de adoração ou
admiração sacerdotal; e, portanto, os filhos de Arão não aparecem.
É como pecadores convictos que temos de tratar em relação a
Cristo como o Antítipo da oferta de expiação do pecado. É como
sacerdotes em adoração, vestidos com as vestes da salvação, que
contemplamos Cristo como o Antítipo do holocausto.
Demais, o leitor poderá notar que o holocausto era
"esfolado", enquanto que a oferta de expiação do pecado não o era.
O holocausto era "partido em pedaços", mas a oferta de expiação
do pecado não o era. A "fressura e as pernas" no holocausto eram
"lavadas com água", cujo ato era inteiramente omitido na oferta de
expiação do pecado. Finalmente, o holocausto era queimado, em
cima do altar; a oferta de expiação do pecado era queimada fora
do arraial.
São pontos de grande diferença provenientes do caráter
distinto das oferendas. Sabemos que não há nada na Palavra de
Deus sem o seu significado específico; e todo o estudioso
inteligente e atento das Escrituras notará estes pontos de
diferença; e, notando-os, procurará, naturalmente, determinara
sua verdadeira importância. Pode haver
ignorância do seu valor;
mão não deveria haver
indiferença, a seu respeito. Em qualquer
parte das páginas inspiradas, sobretudo uma tão rica como aquela
que temos perante nós, omitir um simples ponto seria desonrar o
Autor Divino e privar as nossas próprias almas de muito proveito.
Deveríamo-nos debruçar sobre o mais simples pormenor, já para
louvar a Deus pela sabedoria nelas revelada, por Ele, já para
confessar a nossa própria ignorância deles. Desprezá-los, com
espírito de indiferença, é supor que o Espírito Santo tomou o
incômodo de escrever coisas que não julgamos dignas de intentar
compreender. Nenhum cristão reto deveria supor tal coisa. Se o
Espírito, escrevendo sobre a ordenação da oferta de expiação do
pecado, omitiu os diversos ritos a que nos referimos — ritos que
ocupam um lugar proeminente na ordenação do holocausto —
deve haver seguramente alguma razão para isso e qualquer
propósito importante em o fazer. Devemos procurar compreender
estes pontos; e, sem dúvida, eles resultam do propósito especial
da mente divina em cada oferta. A oferta de expiação do pecado
mostra aquele aspecto da obra de Cristo em que O vemos tomando
judicialmente o lugar que nos pertencia moralmente. Por esta
razão não podemos procurar essa expressão intensa daquilo que
Ele era em todos os motivos secretos de ação, patenteados no ato
simbólico de "esfolar" o holocausto. Tampouco podia existir essa
ampla exibição do que Ele era, não apenas como um todo, mas
nos mais minuciosos traços do Seu caráter, conforme se vê no ato
de partir o holocausto "em pedaços". Nem, ainda, podia haver
aquela manifestação do que Ele era pessoal, prática e
intrinsecamente, como se mostra no ato significativo de
lavar a
fressura e as pernas do holocausto com água.
Todas estas coisas pertenciam à fase de nosso bendito
Senhor no holocausto, e só a essa, porque nela vêmo-Lo
oferecendo-Se à vista, ao coração, e ao altar de Jeová, sem
imputação de pecado, de ira ou de juízo. Na oferta de expiação do
pecado, pelo contrário, em vez da idéia proeminente daquilo que
Cristo é, temos o que é o pecado. Em vez do alto apreço de Jesus,
encontramos o ódio do pecado. No holocausto, visto que é Cristo
oferecendo-se a Si mesmo a Deus e sendo aceito por Ele, vemos
que se faz tudo para mostrar o que Ele era em todos os aspectos.
Na oferta de expiação do pecado, visto tratar-se do pecado julgado
por Deus, dá-se um caso precisamente oposto. Tudo isto é tão
claro que não exige esforço da mente para o compreender. Deriva
naturalmente do caráter distinto do símbolo.
A Gordura da Vítima:
Imagem da Excelência de Cristo em sua Morte pelo Pecado
Contudo, embora o objetivo principal na oferta de expiação
do pecado seja mostrar o que Cristo se fez por nós, e não o que Ele
era em Si mesmo, há um rito em relação a este símbolo que revela
claramente a Sua aceitabilidade pessoal por Jeová. Este rito é
estabelecido nas seguintes palavras: "E toda a gordura do novilho
da expiação tirará dele: a gordura que cobre a fressura, e toda a
gordura que está sobre a fressura, e os dois rins, e a gordura que
está sobre eles, que está sobre as tripas, e o redenho de sobre o
fígado, com os rins, tirará, como se tira do boi do sacrifício
pacífico; e o sacerdote a queimará sobre o altar do holocausto"
(versículos 8-10). Assim, a excelência intrínseca de Cristo não é
omitida, nem mesmo na oferta de expiação do pecado. A gordura
queimada sobre o altar é a expressão adequada da apreciação
divina do valor da pessoa de Cristo, qualquer que fosse o lugar
que, em perfeita graça, tomasse, em nosso favor ou em nosso
lugar; foi feito pecado por nós, e a oferta de expiação é a sombra
que O apresenta sobre este aspecto. Porém, visto que era o Senhor
Jesus Cristo, o eleito de Deus, o Santo, o Seu Filho puro,
imaculado e eterno que foi feito pecado, a gordura da oferta de
expiação era portanto queimada sobre o altar, como material
próprio para o fogo que era a exibição da santidade divina.
Mas até mesmo neste ponto vemos o contraste entre a oferta
de expiação e o holocausto. No caso do último, não era apenas a
gordura, mas toda a oferta que era queimada sobre o altar, porque
representava Cristo sem relação alguma com o pecado. No caso da
primeira, não havia nada a queimar sobre o altar senão a gordura,
porque se tratava de uma questão de levar o pecado, embora
Cristo fosse o portador. A glória divina da pessoa de Cristo brilha
até mesmo por entre as trevas espessas desse madeiro de
maldição a que consentiu que O pregassem como maldição por
nós. A aversão daquilo com que, no exercício do amor divino, Ele
ligou a Sua bendita pessoa, na cruz, não podia evitar que o cheiro
suave do Seu valor subisse até ao trono de Deus.
Vemos assim a revelação do profundo mistério da face de
Deus se ter ocultado daquilo que Cristo se
fez, e o modo como o
coração de Deus se deleitou no que Cristo era. É isto que dá um
encanto peculiar à oferta de expiação. Os raios brilhantes da
glória pessoal de Cristo replandecendo por entre a terrível
escuridão do Calvário, o Seu valor pessoal destacando-se nas
próprias profundidades da Sua humilhação, o deleite de Deus
n'Aquele de quem havia ocultado a Sua face, em justificação da
Sua justiça inflexível, tudo isto é mostrado no fato de a gordura da
oferta de expiação do pecado ser queimada sobre o altar.
O Corpo da Vítima é Queimado fora do Arraial
Havendo assim procurado indicar, em primeiro lugar, o que
se fazia com "o sangue", e, em segundo lugar, o que se fazia da
"gordura", temos agora de considerar o que se fazia da "carne".
"Mas o couro do novilho e
toda a sua carne..., todo aquele novilho,
levará fora do arraial a um lugar limpo, onde se lança a cinza e o
queimará com fogo sobre a lenha; onde se lança a cinza se
queimará" (versículos 11,12). Neste fato temos a principal fase da
oferta de expiação — aquela que a distingue tanto do holocausto
como do sacrifício pacífico. A sua carne não era queimada sobre o
altar, como no holocausto; nem tampouco era comida pelo
sacerdote ou o adorador, como no sacrifício pacífico. Era
queimada inteiramente fora do arraial (
1). "Porém nenhuma oferta
pela expiação de pecado, cujo sangue se traz à tenda da
congregação, para expiar no santuário, se comerá; no fogo será
queimada" (Lv 6:30). "E, por isso, também Jesus, para santificar o
povo pelo seu próprio sangue, padeceu fora da porta"(Hbl3:12).
Uma Aplicação Prática para o Culto
Comparando o que se fazia do "sangue" com o que se fazia
da "carne" ou do corpo do sacrifício, duas ordens de verdade se
apresentam aos nossos olhos, isto é, o culto e o discipulado. O
sangue que era levado ao santuário é o fundamento da primeira.
O corpo queimado fora do arraial é a base da segunda. Antes que
possamos adorar, em paz de consciência e tranqüilidade de
coração, temos de saber, com base na autoridade da Palavra e
pelo poder do Espírito, que a questão do pecado foi inteiramente
resolvida para sempre pelo sangue da oferta divina de expiação
que o Seu sangue foi espargido com perfeição perante o Senhor —
que todas as exigências de Deus e todas as nossas necessidades,
como pecadores culpados e arruinados, foram satisfeitas para
sempre. Este conhecimento dá perfeita paz; e, no gozo desta paz,
adoramos a Deus. Quando um Israelita da antigüidade havia
oferecido a sua oferta de expiação, a sua consciência ficava em
paz, tanto quanto esse sacrifício era capaz de dar paz. E verdade
que era uma paz temporária, sendo o fruto de um sacrifício
temporário. Porém, é claro que qualquer que fosse o gênero de paz
que o sacrifício podia proporcionar, o oferente podia desfrutá-la.
________________
(
1) O texto diz respeito unicamente à expiação de pecados em que o
sangue era trazido para dentro do santuário. Havia ofertas pelo pecado das
quais Arão e seus filhos participavam (veja-se Lv 6:26, 29; Nm 18:9-10).
Portanto, sendo o nosso sacrifício divino e eterno, a nossa
paz é também divina e eterna. Assim como é o sacrifício tal é o
descanso baseado nele. Um judeu nunca poderia ter uma
consciência eternamente purificada, simplesmente porque não
tinha um sacrifício eternamente eficaz. Podia, de certo modo, ter a
sua consciência purificada por um dia, um mês ou um ano; mas
não podia tê-la purificada para sempre. "Mas, vindo Cristo, o
sumo sacerdote dos bens futuros, por um maior e mais perfeito
tabernáculo, não feito por mãos, isto é, não desta criação, nem por
sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou
uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção.
Porque se o sangue dos touros e bodes e a cinza de uma novilha,
esparzida sobre os imundos, os santificam, quanto à purificação
da carne, quanto mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito
eterno, se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará a
vossa consciência das obras mortas, para servirdes ao Deus
vivo?"(Hb9:ll-14).
Temos aqui a exposição plena e explícita da doutrina. O
sangue de bodes e bezerros proporcionava uma redenção
temporária; o sangue de Cristo proporciona eterna redenção. A
primeira purificava a carne exteriormente; a última purificava
intimamente. Aquela purificava a carne por algum tempo; esta
purificava a consciência para sempre. A questão anda toda à roda,
não do caráter ou condição do ofertante, mas, do valor do
sacrifício. A questão não é, de modo algum, se um cristão é
melhor do que um judeu, mas se o sangue de Cristo é melhor do
que o sangue de um novilho. Seguramente, é melhor. Melhor, até
que ponto?? Infinitamente melhor. O Filho de Deus comunica toda
a dignidade da Sua pessoa divina ao sacrifício que ofereceu; e, se o
sangue de um novilho purificava a carne por um ano, "quanto
mais o sangue" do Filho de Deus purificará a consciência para
sempre"? Se aquele
tirava algum pecado, quanto mais este tirará o
pecado
1?
Bem, por que razão sentia a alma de um judeu descanso,
por algum tempo, depois de haver oferecido o seu sacrifício? Como
sabia ele que o pecado especial pelo qual havia trazido o seu
sacrifício estava perdoado
1? Porque Deus havia dito "E ser-lhe-á
perdoado". A sua paz de coração, a respeito desse pecado
particular, repousava sobre o testemunho do Deus de Israel e o
sangue da vítima. Assim agora a paz do crente a respeito de
"TODO O PECADO" baseia-se sobre a autoridade da Palavra de
Deus e "o precioso sangue de Cristo". Se um judeu havia pecado, e
descuidava fazer a sua oferta de expiação tinha de ser "cortado de
entre o seu povo"; porém quando tomava o seu lugar como
pecador—quando punha as suas mãos sobre a cabeça da oferta de
expiação, então a oferta era "cortada em pedaços" em vez dele, e
ele era livre. A oferta era tratada como merecia o oferente; e, por
isso, não saber que o seu pecado era perdoado, seria fazer de
Deus mentiroso e tratar o sangue da oferta de expiação
divinamente indicada como nula.
E se isto era verdadeiro quanto àquele que só podia
descansar sobre o sangue de um bode, "quanto mais" se aplica
àquele que tem o precioso sangue de Cristo para descansara O
crente vê em Cristo Aquele que foi julgado por todo o seu pecado—
Aquele que, quando foi pendurado na cruz, suportou todo o fardo
do seu pecado — Aquele que, havendo-Se tornado responsável por
esse pecado, não podia estar onde agora está, se toda a questão
do pecado não tivesse sido liquidada segundo todas as exigências
da justiça divina. Cristo tomou de tal forma o lugar do crente na
cruz — de tal maneira o crente se identificou com Ele — de tal
forma Lhe foi imputado todo o pecado do crente, ali e então, que
toda a questão da culpabilidade do crente — todo o pensamento
da sua culpa —, toda a idéia de exposição à ira ou ao juízo está
eternamente posta de parte ('). Tudo foi resolvido na cruz entre a
Justiça Divina e a Vítima Imaculada. E agora o crente está tão
intimamente identificado com Cristo no trono, como Cristo Se
identificou com ele na cruz.
A justiça não tem nenhuma acusação a fazer ao crente,
porque não tem acusação alguma a fazer contra Cristo. A questão
está assim liquidada, para sempre. Se pudesse apresentar-se uma
acusação contra o crente, seria pôr em dúvida a realidade da
identificação de Cristo com ele na cruz e a perfeição da obra de
Cristo a seu favor. Se quando o adorador da antigüidade
regressava a sua casa, depois de haver oferecido a sua expiação,
alguém o tivesse acusado do mesmo pecado pelo qual havia sido
derramado o sangue da vítima do seu sacrifício, qual teria sido a
sua resposta? Só poderia ser esta:
Cristo: O Antítipo
O pecado foi removido pelo sangue da vítima, e Jeová disse
estas palavras: "Ser-lhe-á perdoado". A vítima havia morrido em
lugar dele; e ele vivia em lugar da vítima.
Tal era o tipo. E, quanto ao antítipo, quando o olhar da fé
descansa sobre Cristo como o sacrifício de expiação, vê-O como
Aquele que, havendo tomado uma perfeita vida humana, deu essa
vida na cruz, porque o pecado foi ali e então ligado por imputação
com ela. Mas vê-O também como Aquele que, tendo em Si mesmo
o poder da vida divina e eterna, saiu por meio dele do sepulcro e
agora comunica esta Sua vida de ressurreição—divina e eterna —
a todos os que crêem no Seu nome. O pecado desapareceu, porque
a vida a que foi ligado desapareceu. E agora em lugar da vida a
que fora ligado o pecado, todos os verdadeiros crentes possuem a
vida a que está unida a Justiça.
_______________
(
1) Temos um exemplo notavelmente belo na precisão divina das
Escrituras em 2 Coríntios 5:21: "Aquele que não conheceu pecado, o fez pecado
por nós para que nele fôssemos feitos justiça de Deus". O significado do
vocábulo "fez" não é, como poderia supor-se, o mesmo em ambas as cláusulas
desta passagem.
A questão do pecado nunca poderá ser levantada quanto à
vida ressuscitada e vitoriosa de Cristo; mas é esta a vida que os
crentes possuem. Não há outra vida. Tudo fora dela é morte,
porque fora dela tudo está sob o poder do pecado. "Aquele que tem
o Filho tem a vida"; e aquele que tem a vida tem a justiça também.
As duas coisas são inseparáveis, porque Cristo é tanto uma como
a outra. Se o juízo e morte de Cristo, na cruz, foram realidades,
então a vida e a justiça do crente são realidades. Se a imputação
do pecado foi uma realidade para Cristo, a imputação da justiça
ao crente é uma realidade. São tão reais uma como a outra,
porque se não fosse assim Cristo teria morrido em vão. O
verdadeiro e incontestável fundamento de paz é este: que as
exigências da natureza de Deus, quanto ao pecado, foram perfeitamente
satisfeitas. A morte de Jesus satisfê-las todas e satisfê-las
para sempre. Qual é a prova disto para a consciência
despertada"?- O grande fato da ressurreição. Um Cristo
ressuscitado proclama plena libertação do crente —a sua perfeita
absolvição de toda a demanda possível. "O qual por nossos
pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação" (Rm
4:25). Para um crente não saber que o seu pecado foi tirado, e
tirado para sempre, é fazer pouco caso do sangue da sua divina
oferta de expiação. É negar que se fez perfeita apresentação— a
aspersão do sangue sete vezes perante o Senhor.
A nossa Posição é Resultado da Obra na Cruz
E agora, antes de deixar este ponto fundamental que nos
tem ocupado, desejo fazer um apelo sincero e solene ao coração e
à consciência do leitor. Permita que lhe pergunte, prezado amigo,
haveis sido induzido a descansar sobre este santo e feliz
fundamentou Sabeis que a questão do vosso pecado foi para
sempre arrumada"? Haveis posto, mediante a fé, a vossa mão
sobre a cabeça da vítima do sacrifício de expiação
1? Haveis visto o
sangue expiatório de Jesus tirar toda a vossa culpa e arrojá-la às
águas do esquecimento de Deus?
A justiça Divina tem ainda alguma coisa contra vós? Estais
livre do pavor inexprimível de uma consciência culpada ? Não vos
entregueis ao repouso, rogo-vos, antes de poderdes dar uma
resposta feliz a estas interrogações. Ficai certo de que é privilégio
ditoso até do mais fraco crente em Cristo regozijar-se na plena e
eterna remissão dos seus pecados, com base numa expiação
efetuada. Por isso, se alguém ensina outra coisa, rebaixa o
sacrifício de Cristo ao nível de "bodes e bezerros". Se não podemos
saber que os nossos pecados estão perdoados, então onde estão as
boas novas do evangelho? Um cristão não está em melhores
circunstâncias, quanto ao sacrifício de expiação, do que um
judeu? Este tinha o privilégio de saber que os seus interesses
estavam assegurados por um ano por meio do sangue de um
sacrifício anual. Aquele não pode ter nenhuma certeza? Decerto
que pode. Pois bem, se há alguma certeza tem de ser eterna, visto
que descansa sobre um sacrifício eterno.
Isto e isto somente é o fundamento de adoração. A
segurança perfeita do perdão do pecado produz não um espírito de
confiança própria, mas um espírito de louvor, gratidão e adoração.
Produz, não um espírito de complacência própria, mas de gratidão
pela complacência de Cristo, que, bendito seja Deus, é o espírito
que há - de caracterizar os remidos por toda a eternidade. Não nos
induz alguém a fazer pouco caso do pecado, mas a pensar na
graça que o perdoou perfeitamente, do sangue que o cancelou
inteiramente. É impossível que alguém possa contemplar a cruz —
possa ver o lugar que Cristo tomou e meditar nos sofrimentos —, e
ponderar sobre essas três horas terríveis de trevas e, ao mesmo
tempo, olhar o pecado como coisa sem importância. Quando todas
estas coisas são compreendidas, no poder do Espírito Santo,
devem seguir-se dois resultados, a saber, horror do pecado, sob
todas as suas formas, e amor verdadeiro por Cristo, o Seu povo e a
Sua causa.
Saiamos a Ele fora do Arraial
Consideremos agora o que era feito da "carne" ou "corpo" do
sacrifício, no qual, como já foi acentuado, encontramos o
verdadeiro fundamento de discipulado. "Todo aquele novilho,
levará
fora do arraial, a um lugar limpo, onde se lança a cinza, e o
queimará com fogo" (Lv 4:12). Este ato deve ser encarado sob um
duplo aspecto: primeiro, como expressão do lugar que o Senhor
Jesus tomou por nós, levando o pecado; depois, como expressão
do lugar para onde foi lançado por um mundo que O havia
rejeitado.
E para este último ponto que pretendo chamar a atenção do
leitor.
O uso que o apóstolo faz em Hebreus 13:13 do fato de Cristo
haver padecido "fora da porta" é profundamente prático. "Saiamos,
pois,
a ele fora do arraial, levando o seu vitupério". Se os
sofrimentos de Cristo nos têm assegurado uma entrada no céu, o
lugar onde Ele sofreu representa a nossa rejeição pela terra. A sua
morte tem-nos proporcionado uma cidade nas alturas; o lugar
onde Ele morreu priva-nos de uma cidade aqui ('). Ele "padeceu
fora da porta", e, fazendo-o, pôs de lado Jerusalém como centro
das operações divinas. Não existe aquilo que poderíamos chamar
um lugar consagrado na Terra. Cristo tomou o Seu lugar, como o
Sofredor, fora dos limites da religião deste mundo — da sua
política e tudo que lhe pertence. O mundo aborreceu-O e lançou-O
fora. Portanto, a Escritura diz "Saiamos". Este é o lema quanto a
tudo que os homens levantem como "arraial" não obstante o que
esse arraial possa ser. Se os homens levantarem uma "cidade
santa" devemos procurar um Cristo rejeitado" fora da porta". Se os
homens levantarem um arraial religioso, qualquer que seja o nome
que se lhe queira dar, "saiamos" dele a fim de encontrarmos o
Cristo rejeitado. Não é que a cega superstição não possa escavar
as ruínas de Jerusalém para nelas encontrar as relíquias de
Cristo. Certamente que o fará e já o tem feito. Fingirá ter
encontrado e honrado o sítio da Sua cruz e do Seu sepulcro. A
cobiça da natureza, aproveitando-se da superstição da natureza,
também tem levado a efeito durante séculos um tráfego lucrativo,
com o astuto pretexto de prestar honra aos chamados lugares
sagrados da antigüidade. Porém um simples raio de luz da
lâmpada da Revelação celestial é suficiente para nos autorizar a
dizer que é preciso
sair de todas estas coisas a fim de encontrar e
gozar comunhão com um Cristo rejeitado.
_________________
(
1) A Epístola aos Efésios apresenta um aspecto muito elevado da Igreja
nas alturas, não meramente como uma prerrogativa, mas também quanto ao
método. O direito é certamente o sangue; mas o método é assim estabelecido: "
Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos
amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente
com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com ele, e nos
fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo" (Ef 2:4-6).
Todavia, o leitor precisa recordar que o convite
impressionante de "sair" implica muito mais do que o alijamento
dos absurdos crassos de uma superstição ignorante ou as
intenções de uma astuta cobiça. Há muitos que podem falar
poderosa e eloqüentemente em desabono destas coisas, e que
estão muito longe, na verdade, de obedecer à notificação
apostólica. Quando os homens levantam um"arraial" e se reúnem
em redor de um pendão embelezado com qualquer dogma
importante de verdade ou alguma instituição valiosa — quando
podem recorrer a um credo ortodoxo, a um plano de doutrina
avançado e iluminado ou a um esplêndido ritual capaz de
satisfazer as mais ardentes aspirações da natureza devocional do
homem — quando alguma ou todas estas coisas existem é
necessária muita inteligência espiritual para se discernir a força
real e própria aplicação da palavra " Saiamos" e muita energia
espiritual e decisão para se atuar de conformidade com ela.
Contudo, deve atuar-se de conformidade com ela, porque é
absolutamente certo que a atmosfera de um arraial, se ja qual for
o seu fundamento ou padrão, é destrutivo da comunhão pessoal
com Cristo rejeitado; e nenhuma vantagem da chamada religião
poderá jamais substituir a perda dessa comunhão. É propensão
dos nossos corações caírem em formas fixadas. Este tem sido
sempre o caso com a igreja professa.
Estas formas podem ter sido produzidas por verdadeiro
poder. Podem ter resultado de graça positiva do Espírito de Deus.
Há a tentação de fixar formas logo que o espírito e poder deixam
de existir. Isto é, em princípio, estabelecer um arraial.
O sistema judeu podia vangloriar-se da sua origem divina.
Um judeu podia apontar vitoriosamente para o templo, com o seu
sistema esplêndido de culto, o seu sacerdócio, os seus sacrifícios,
todo o seu equipamento, e mostrar que tudo havia sido dado pelo
Deus de Israel. Podia citar o capítulo e o verso, como nós
diríamos, de tudo que se relacionava com o sistema com que ele
estava ligado. Onde está o sistema, antigo, medieval ou moderno,
que possa apresentar tão elevadas e poderosas pretensões ou
descer até ao coração com tal peso de autoridade? E contudo a
ordem era "SAIAMOS".
Este assunto é profundamente solene, e diz-nos respeito a
todos, porque somos todos propensos e esquivarmo-nos da
comunhão com Cristo para cairmos na rotina morta. Daí o poder
prático das palavras, "saiamos", pois
a ele.
Não é SAIR de um sistema para outro — de uma ordem de
opiniões para outra ou de um grupo de pessoas para outro. Não!
Mas sair de tudo que merece a designação de um arraial para
Aquele
que "padeceu fora do arraial".
O Senhor Jesus está tão fora da porta agora como quando
padeceu ali há dezoito séculos. O que foi que o pôs fora da portai
"O mundo religioso" desse tempo: e o mundo religioso desse tempo
é, em espírito e princípio, o mundo religioso deste tempo. O
mundo é ainda o mundo. "Não há nada novo debaixo do sol".
Cristo e o mundo não são um. O mundo cobriu-se com a capa do
cristianismo; porém fê-lo para que o seu ódio contra Cristo possa
desenvolver-se em formas implacáveis. Não nos enganemos. Se
andarmos com um Cristo rejeitado, teremos de ser um povo
rejeitado. Se o nosso Mestre" padeceu
fora do arraial", nós não
podemos esperar reinar
dentro do arraial. Se andarmos nas Suas
pisadas, aonde nos conduzirão elas? Não, seguramente, às altas
posições deste mundo sem Deus e sem Cristo.
Ele é um Cristo desprezado, um Cristo rejeitado, um Cristo
fora do arraial. Oh, saiamos, pois, a Ele, levando o Seu vitupério.
Não nos deixemos envolver com a luz do favor deste mundo, visto
que crucificou e ainda aborrece com ódio implacável o Ente amado
a quem devemos tudo quanto possuímos no presente e na
eternidade, e que nos ama com um amor que as muitas águas não
poderiam apagar. Não aceitemos, quer direta quer indiretamente,
aquilo que se cobre com o Seu nome sagrado, mas que, na
realidade, odeia os
Seus caminhos, odeia a Sua verdade e odeia a simples
menção do Seu advento. Sejamos fiéis ao nosso Senhor ausente.
Vivamos para Aquele que morreu por nós.
Enquanto as nossas consciências repousam sobre o Seu
sangue, que os afetos dos nossos corações se enlacem em redor da
Sua pessoa; de sorte que a nossa separação "deste presente século
mau" não seja meramente um coro de princípios frios, mas uma
separação afetuosa porque o objeto das nossas afeições não se
encontra aqui. Que o Senhor nos liberte da influência desse
egoísmo consagrado e prudente, tão comum no tempo presente,
que não pode estar sem religião, mas que é inimigo da cruz de
Cristo. O que nós necessitamos, para podermos resistir com êxito
a essa forma terrível de mal, não são formas de ver peculiares, ou
princípios especiais ou teorias singulares ou uma fria exatidão
intelectual. Necessitamos de uma profunda devoção pela pessoa
do Filho de Deus; uma inteira consagração de nós próprios, de
alma, corpo e espírito ao Seu serviço; e de um ardente desejo do
Seu glorioso advento. Estas são, prezado leitor, as necessidades
especiais dos tempos em que vivemos. Não quererá, portanto,
unir-se, do profundo do seu coração, ao grito: Oh Senhor, vivifica
a tua obra! Completa o número dos teus eleitos! Apressa o teu
reino, "Vem, Senhor Jesus"!
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