quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

ESTUDOS SOBRE LEVÍTICO


C.H. MACKINTOSH


ESTUDOS SOBRE

O LIVRO DE LEVÍTICO


2

a edição


Esta

segunda edição é, essencialmente, igual à primeira de 1967. Alguns


erros de tipografia e ortografia foram intencionalmente corrigidos.

As citações bíblicas seguem a "Edição Revista e Corrigida" de João

Ferreira de Almeida publicada pela Sociedade Bíblica do Brasil, edição de

1995

São Paulo, maio de 2003

Os editores.


Edição original em inglês

2

a Edição em português: maio de 2003


Editoração, Impressão e Acabamento Associação Religiosa Imprensa da Fé


DEPÓSITO DE LITERATURA CRISTÃ


Rua Arlindo Bétio, 117

09911-470 Diadema, SP —BRASIL

Todos os direitos reservados


— CAPÍTULO 1 —


O HOLOCAUSTO


Antes de entrarmos em pormenores sobre este capítulo, há

duas coisas que requerem toda a nossa atenção, a saber: primeiro

a posição de Jeová e segundo a ordem por que são apresentados

os sacrifícios.

"E chamou o S

ENHOR a Moisés e falou com ele da tenda da


congregação." Tal foi a posição de onde o Senhor fez as comunicações

narradas neste livro. Havia falado do Monte Sinai, e a Sua

posição ali imprimiu um caráter particular à comunicação. Do

monte ardente saiu "o fogo da lei" (Dt 33:2). Porém, aqui o Senhor

fala "da tenda da congregação". Era uma posição muito diferente.

Vimos este tabernáculo concluído no final do livro

precedente. "Levantou também o pátio ao redor do tabernáculo e

do altar e pendurou a coberta da porta do pátio. Assim, Moisés

acabou a obra. Então a nuvem cobriu a tenda da congregação, e a

glória do S

ENHOR encheu o tabernáculo,... porquanto a nuvem do


S

ENHOR estava de dia sobre o tabernáculo, e o fogo estava de noite


sobre ele, perante os olhos de toda a casa de Israel, em todas as

suas jornadas". (Êx 40:33-38).

Ora, o tabernáculo era o lugar onde Deus habitava em graça.

Podia estabelecer ali a Sua habitação, porque estava rodeado de

todos os lados por aquilo que representava brilhantemente o

fundamento das Suas relações com o povo. Se tivesse vindo ao

meio deles na plena manifestação do caráter revelado no Monte

Sinai só podia ser para os "consumir num momento", como "povo

obstinado" (Êx 33:5). Porém, retirou-se para dentro do véu —

figura da carne de Cristo (Hb 10:20) e tomou o Seu lugar sobre o

propiciatório, onde o sangue da expiação, e não "o povo obstinado"

de Israel, se apresentava à Sua vista e satisfazia as exigências da

Sua natureza. O sangue que era levado ao santuário pelo sumo

sacerdote era figura do sangue precioso que purifica de todo o

pecado; e, embora Israel, segundo a carne, não discernisse nada

disto, esse sangue, contudo, justificava o fato de Deus habitar no

meio deles; "santificava-os quanto à purificação da carne"

(Hb9:13).

Tal é, pois, a posição do Senhor no Livro de Levítico, posição

esta que deve ser tida em consideração, se se quiser ter um

conhecimento exato das revelações que este livro encerra. Nessas

revelações encontramos inflexível santidade unida à mais pura

graça. Deus é santo, seja qual for o lugar de onde fala. É santo no

monte Sinai e santo no propiciatório; porém, no primeiro caso a

Sua santidade estava ligada a "um fogo consumidor", enquanto

que no segundo estava ligada com paciente graça.

Ora, a união da perfeita santidade com a graça perfeita é o

que caracteriza a redenção que há em Cristo Jesus, redenção que

é, de diversas maneiras, tipificada no livro de Levítico. É preciso

que Deus seja santo, ainda que seja na condenação eterna dos

pecadores impenitentes; porém a revelação plena da Sua

santidade na salvação dos pecadores faz ressoar no céu um coro

de louvor. "Glória a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade

para com os homens" (Lc 2:14). Esta doxologia não podia ter sido

entoada em relação com "o fogo da lei". Sem dúvida, havia "glória

nas alturas", mas não havia "paz na terra" nem "boa vontade para

com os homens", porquanto a lei era a declaração do que os

homens deviam ser, antes que Deus pudesse ter prazer neles. Mas

quando "o Filho" ocupou o Seu lugar como homem na terra, o céu

pôde exprimir todo o Seu prazer n'Aquele cuja Pessoa e obra

podiam ligar, da maneira mais perfeita, a glória divina com a bemaventurança

humana.


A Ordem dos Sacrifícios


E agora algumas palavras sobre a ordem dos sacrifícios, nos

primeiros capítulos do livro de Levítico. O Senhor começa com o

holocausto e termina com a expiação da culpa. Quer dizer,

termina onde nós começamos. Esta ordem é notável e muito

instrutiva. Quando pela primeira vez a seta da convicção penetra

na alma dá-se um profundo exame de consciência quanto aos

pecados cometidos. A memória volve a sua vista iluminada para as

páginas da vida passada e vê-as manchadas com inumeráveis

transgressões contra Deus e contra o homem. Neste momento da

história da alma, ela não se ocupa tanto com a raiz de onde

brotaram essas transgressões como com o fato palpável que este e

aquele ato foram cometidos por ela; e, por isso, tem necessidade

de saber que Deus proveu um sacrifício por cuja virtude "todas as

ofensas" podem ser perdoadas livremente. E este sacrifício é-nos

apresentado no sacrifício da expiação da culpa.

Mas à medida que a alma progride na vida divina torna-se

consciente do fato que

esses pecados que cometeu não são mais


que rebentos de uma raiz, correntes de uma mesma fonte; e, além

disso, que

o pecado na sua natureza — ou seja: na carne — é essa


fonte, essa raiz. Isto conduz-nos a um exercício íntimo ainda mais

profundo, que nada pode tranqüilizar senão um conhecimento

mais profundo da obra da cruz. Em suma, a cruz deve ser

compreendida como o lugar onde Deus Mesmo

"condenou o pecado


na carne"

(Rm 8:3).


O leitor há - de notar que esta passagem não diz

"pecados na


vida",

mas a raiz de onde os pecados provêm, a saber, o "pecado


na carne".


E uma verdade de grande importância. Cristo não somente

morreu por nossos

pecados, "segundo as Escrituras" (1 Co 15:3),


como foi feito

pecado por nós (1 Co 5:21). Esta é a doutrina do


sacrifício da expiação do pecado.

E quando o coração e a consciência encontram descanso

mediante o conhecimento da obra de Cristo, que nos podemos

alimentar d'Ele como o fundamento da nossa paz e do nosso gozo,

na presença de Deus. Não pode haver paz ou gozo antes de

sabermos que todas as nossas transgressões foram perdoadas e o

nosso pecado julgado. A expiação da culpa e a expiação do pecado

têm de ser conhecidas antes que os sacrifícios pacíficos, de

manjares ou de ações de graças possam ser convenientemente

apreciados. Por isso, a ordem em que está o sacrifício pacífico

corresponde à ordem da nossa apreciação espiritual de Cristo.

Nota-se a mesma perfeita ordem em referência à oferta de

manjares. Quando a alma é levada a apreciar a doçura da

comunhão espiritual com Cristo — a alimentar-se d'Ele em paz e

gratidão na presença divina — sente um desejo arrebatador de

conhecer melhor os mistérios gloriosos da Sua pessoa; e este

desejo é ditosamente satisfeito na oferta de manjares, que é o tipo

da perfeita humanidade de Cristo.

Em seguida, no holocausto, somos conduzidos a um ponto

para além do qual é impossível ir, e esse ponto é a obra da cruz,

realizada sob as vistas de Deus como expressão do afeto

inquebrantável do coração de Cristo. Todas estas coisas nos serão

apresentadas em belos pormenores, à medida que as

examinarmos; aqui consideramos apenas a ordem dos sacrifícios,

a qual é verdadeiramente maravilhosa, seja qual for o sentido em

que caminharmos, seja exteriormente de Deus para nós, ou

intimamente de nós até Deus. Em qualquer dos casos começamos

e terminamos com a cruz. Se começamos com o holocausto, vemos

Cristo na cruz fazendo a vontade de Deus — fazendo expiação,

segundo a medida da Sua perfeita rendição a Deus. Se

começamos com a expiação da culpa, vemos Cristo na cruz

levando os nossos pecados e tirando-os, segundo a perfeição do

Seu sacrifício expiatório; enquanto que em cada um e em todos

eles vemos a excelência, a beleza e a perfeição da Sua divina e

adorável pessoa.

Certamente, tudo isto é suficiente para despertar em nossos

corações o mais profundo interesse pelo estudo desses símbolos

preciosos que passaremos a analisar pormenorizadamente. E que

Deus Espírito Santo, que inspirou o livro de Levítico, dê a sua

explicação, em poder vivo, aos nossos corações, para que, quando

chegarmos ao fim, possamos ter motivo de sobra para bendizer ao

Senhor por tantas e tão admiráveis imagens da pessoa e obra de

nosso bendito Senhor e Salvador Jesus Cristo, a quem seja dada

glória, agora e para todo o sempre. Amém.

No holocausto, com o qual abre o livro de Levítico, temos

uma figura de Cristo, que "se ofereceu a si mesmo imaculado a

Deus" (Hb 9:14). Daí a posição que o Espírito Santo lhe dá. Se o

Senhor Jesus Cristo Se manifestou para realizar a obra gloriosa

da expiação, o Seu mais desejável e supremo objetivo, na sua

consecução estava a glória de Deus.

"Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade" (Hb

10:9), era o grande lema em todas as cenas e circunstâncias da

Sua vida, e em nenhuma tão completamente como na obra da

cruz. Fosse qual fosse a vontade de Deus, Ele veio para a fazer.

Bendito seja Deus, nós conhecemos qual é a nossa parte na

realização dessa "vontade"; pois por ela "temos sido santificados

pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez" (Hb 10:10).

Contudo, o aspecto primário da obra de Cristo era Deus. Era

Seu prazer inefável cumprir a vontade de Deus na terra. Ninguém

a tinha feito. Alguns, pela graça, haviam feito o que era reto aos

olhos do Senhor; porém ninguém jamais tinha, perfeita e

invariavelmente, desde o princípio ao fim, sem hesitação e sem

divergência, feito a vontade de Deus. Mas foi isto exatamente que

o Senhor Jesus fez. Ele foi "obediente até à morte e morte de cruz"

(Fp 2:8): "...manifestou o firme propósito de ir a Jerusalém" (Lc

9:51). E quando se dirigia do jardim de Getsêmane ao Calvário, o

afeto intenso de Seu coração foi expresso nestas palavras: "Não

beberei eu o cálice que o Pai me deu?"(Jo 18:11).

Certamente, havia um perfume de cheiro suave nesta

absoluta devoção a Deus. Um Homem perfeito na terra,

cumprindo a vontade de Deus, até mesmo na morte, era assunto

de profundo interesse para o céu. Quem poderia sondar as

profundezas desse coração dedicado, que se manifestou aos olhos

de Deus, na cruz? Seguramente, ninguém senão Deus; porque

nisto, como em tudo mais, certo é que "ninguém conhece o Filho

senão o Pai"; e ninguém pode conhecer nada, até certo ponto, a

Seu respeito se o Pai o não revelar. A mente humana pode

compreender, até certo ponto, qualquer coisa do que se passa

"abaixo do sol". A ciência humana pode ser compreendida pelo

intelecto humano; mas nenhum homem conhece o Filho de Deus,

se o Pai não lho revelar pelo poder do Espírito e por meio da

Palavra escrita. O Espírito Santo deleita-se em revelar o Filho —

em tomar das coisas de Jesus e revelar-no-las. Estas coisas temolas,

em toda a sua beleza e plenitude, nas Escrituras. Não pode

haver novas revelações, pois o Espírito trouxe

"todas as coisas" à


memória dos apóstolos e conduziu-os a

"toda a verdade" (Jo 14:26;


16:13). Não pode haver nada mais além de "toda a verdade"; e, por

isso, as pretensões de novas revelações e do descobrimento da

verdade — quer dizer, verdade não mencionada no cânone

sagrado de inspiração — representam apenas os esforços do

homem para acrescentar alguma coisa àquilo que Deus designa

por "toda a verdade". O Espírito pode, certamente, mostrar e

aplicar, com nova e extraordinária energia, a verdade contida na

Escritura; porém, isto é claramente uma coisa muito diferente da

ímpia presunção que abandona o campo da revelação divina com

o propósito de encontrar princípios, idéias e dogmas que tenham

autoridade sobre a consciência.

Na narrativa do evangelho Cristo é-nos apresentado nos

vários aspectos do Seu caráter, Sua Pessoa e obra. Em todas as

épocas o povo de Deus tem achado alegria em recorrer a essas

preciosas Escrituras, sedentando-se nas revelações celestiais do

objeto do seu amor e confiança—Aquele a quem tudo devem, quer

no tempo presente, quer no tocante à eternidade. Contudo, muito

poucos comparativamente têm sido induzidos a considerar os ritos

e cerimônias da dispensação levítica como cheios das mais

minuciosas instruções referentes ao mesmo assunto dominante.

Os sacrifícios de Levítico, por exemplo, têm sido considerados

freqüentemente como registros de antigos costumes judaicos, sem

nenhum outro significado para nós nem nenhuma luz espiritual

para iluminar os nossos entendimentos. Mas tem de admitir-se

que as páginas aparentemente obscuras de Levítico, assim como

as expressões sublimes de Isaías, têm o seu lugar entre "tudo que

dantes foi escrito" (Rm 15:4), e são, portanto, "para nosso ensino".

Certamente, precisamos de estudar estes registros, assim como

também toda a Escritura, com espírito humilde e despretensioso,

em reverente dependência do ensino d'Aquele que graciosamente

os inspirou para nosso ensino, e com atenção diligente pelo

grande objetivo, alvo e analogia geral de todo o corpo da revelação

divina; dominando a nossa imaginação, para que se não extravie

com entusiasmo profano; mas se assim, mediante a graça,

entrarmos no estudo dos símbolos de Levítico, encontraremos um

filão do mais rico e precioso minério.


A Vítima


Vamos prosseguir agora com o exame do holocausto, que,

como havemos acentuado, representa Cristo oferecendo-se a Si

mesmo incontaminado a Deus.

"Se a sua oferta for holocausto de gado, oferecerá macho

sem mancha." A glória essencial e dignidade da pessoa de Cristo

formam a base do cristianismo. Ele transmite esta dignidade e

essa glória a tudo que faz e a cada uma das funções que assume.

Nenhuma função podia de algum modo acrescentar glória Aquele

que é sobre todos, "Deus bendito eternamente" (Rm9:5) — "Deus

manifestado em carne" (1 Tm 3:16) —, o glorioso "Emanuel"—Deus

conosco —, o Verbo eterno, o Criador e Mantenedor do universo.

Que função poderia acrescentar dignidade a uma tal Pessoal De

fato, sabemos que todas as Suas funções estão relacionadas com

a Sua humanidade; e assumindo essa humanidade, Ele desceu da

glória que tinha com o Pai antes da criação do mundo. Desceu,

deste modo, a fim de glorificar Deus perfeitamente no próprio meio

de uma cena onde tudo Lhe era hostil. Veio para ser "devorado"

por santo e inextinguível zelo (SI 69:9) pela glória de Deus e a

realização eficiente dos Seus desígnios eternos.


Cristo Oferecendo-se a Si Mesmo a Deus


O macho sem mancha de um ano era uma figura do Senhor

Jesus Cristo oferecendo-se a Si mesmo para o cumprimento

perfeito da vontade de Deus. Não deveria haver nada que

detonasse fraqueza ou imperfeição. Devia ser "um macho de um

ano". Teremos ocasião de ver, quando tivermos ocasião de

examinar os outros sacrifícios, que era permitido oferecer, nalguns

casos, uma "fêmea"; mas essa era apenas a forma de mostrar a

imperfeição inerente à compreensão do adorador, e de modo

nenhum um defeito da oferenda, porquanto esta era "sem

mancha" tanto num caso como no outro.

Contudo, o holocausto era um sacrifício da mais elevada

ordem, porque representava Cristo oferecendo-se a Si mesmo a

Deus — Cristo no holocausto exclusivamente para a vista e o

coração de Deus. Eis um ponto que deve ser claramente

compreendido. Só Deus podia apreciar devidamente a Pessoa e

obra de Cristo. Só Ele podia apreciar plenamente a cruz como a

expressão do perfeito afeto de Cristo. A cruz tal qual é simbolizada

no holocausto, encerra qualquer coisa que só a mente divina pode

compreender. Tinha profundidades tais que nem o mortal nem os

anjos podiam sondar. Nela havia uma voz que se dirigia exclusiva

e diretamente aos ouvidos do Pai. Entre o Calvário e o trono de

Deus houve comunicações que excedem em muito as mais altas

capacidades dos entes criados.

"A porta da tenda da congregação a oferecerá, de sua própria

vontade, perante o S

ENHOR." O emprego do vocábulo "vontade",


nesta passagem, revela claramente o grande propósito no

holocausto. Leva-nos a contemplar a cruz sob um aspecto que não

é suficientemente compreendido. Estamos sempre prontos a

contemplar a cruz simplesmente como o lugar onde a grande

questão do pecado foi tratada e liquidada entre a justiça eterna e a

vítima incontaminada — o lugar onde a nossa culpa foi expiada e

onde Satanás foi gloriosamente vencido. Louvor universal seja

dado eternamente ao amor redentor! A cruz foi tudo isto. E mais

do que isto. Foi o lugar onde o amor de Cristo pelo Pai se

expressou em linguagem tal que só o Pai podia ouvir e

compreender. E sob este último aspecto que a vemos simbolizada

no holocausto e é, portanto, por isso que a palavra "vontade"

ocorre. Se fosse apenas uma questão de imputação do pecado e de

sofrer a ira de Deus por causa do pecado, essa expressão não

estaria dentro da ordem moral. O bendito Senhor Jesus não podia,

com estrita propriedade, ser apresentado como aquele que


desejava

ser feito pecado — desejar sofrer a ira de Deus e ser


privado da vista do Seu rosto; e, neste fato, por si só, aprendemos

da maneira mais evidente, que o

holocausto não representa Cristo


sobre a cruz levando o pecado,

mas, sim, Cristo sobre a cruz


cumprindo a vontade de Deus. Que Cristo mesmo contemplava a

cruz nestes dois aspectos é evidente pelas Suas próprias palavras.

Quando contemplou a cruz como o lugar onde foi feito pecado —

quando previu os horrores que, sob este ponto de vista, ela

encerrava, exclamou: "Pai, se queres, passa de mim este cálice" (Lc

22:42). Fugia daquilo que a Sua obra, por ter de levar sobre Si o

pecado, comportava. A Sua mente santa e pura fugia ao

pensamento de contato com o pecado; e o Seu terno coração fugia

da idéia de perder, por um momento, a luz do semblante de Deus.


O Amor de Cristo pelo Pai


Porém, a cruz tinha outro aspecto. Aparecia à vista de Cristo

como uma cena em que Ele podia revelar plenamente os segredos

profundos do Seu amor ao Pai — um lugar onde podia, "de Sua

própria vontade", tomar o cálice que o Pai lhe havia dado e esgotálo

até às fezes. É verdade que toda a vida de Cristo emitiu um

fragrante odor, que subia sem cessar até ao trono do Pai — Ele

fazia sempre as coisas que agradavam ao Pai —, fez sempre a

vontade de Deus; mas o holocausto não O representa na Sua vida

— precioso além de todo o pensamento como foi cada ato dessa

vida —, mas na Sua morte, e não como Aquele que foi feito

"maldição por nós", mas como Aquele que apresenta ao coração do

Pai um perfume de incomparável fragrância.

Esta verdade envolve a cruz de atrativos particulares para a

mente espiritual. Dá aos sofrimentos do nosso bendito Senhor um

interesse do caráter mais intenso. O pecador culpado encontra,

incontestavelmente, na cruz uma resposta divina aos mais profundos

e ardentes desejos do coração. O verdadeiro crente encontra

na cruz aquilo que cativa todas as afeições do seu coração e deixa

aturdido todo o seu ser moral. Os anjos encontram na cruz um

tema para contínua admiração. Tudo isto é verdade; mas há

alguma coisa na cruz que ultrapassa as mais elevadas concepções

dos santos ou dos anjos; isto é, a profunda devoção do coração do

Filho para com o Pai e como Este a apreciou. Este é o assunto

elevado da cruz, que é manifestado de um modo tão notável no

holocausto.

E deixai-me observar que a beleza própria do holocausto

deve ser inteiramente sacrificada se admitirmos a idéia de que

Cristo carregou com o pecado toda a Sua vida. Deixa de haver

então força, valor e significado nas palavras "sua própria vontade".

Não poderá haver lugar para ação voluntária no caso de uma

pessoa que era compelida, pela própria necessidade da sua

posição, a morrer. Se Cristo tivesse carregado com o nosso pecado

na Sua vida, então segue-se que a Sua morte seria

obrigatória e


não um ato voluntário.

De fato, pode afirmar-se com segurança que não há uma

oferta sequer entre todas cuja beleza não fosse manchada e a sua

integridade sacrificada pela teoria de

uma vida carregando com o


pecado. Este é especialmente o caso no holocausto, porquanto não

é uma questão de carregar com o pecado ou de sofrer a ira de

Deus, mas inteiramente de dedicação voluntária, manifestada na

morte da cruz. No holocausto reconhecemos uma figura de Deus o

Filho, cumprindo, por intermédio de Deus Espírito, a vontade de

Deus Pai. Isto fez Ele de "sua própria vontade". "Por isso, o Pai me

ama, porque dou a minha vida para tornar a tomá-la" (Jo 10:17).

Temos aqui o aspecto da morte de Cristo no holocausto. Por outro

lado, o profeta contemplando-O como oferta pelo pecado, diz: "... a

sua vida é

tirada da terra" (At 8:33 —versão LXX(,) de Isaías 53:8).


Outro tanto, Cristo diz, — Ninguém ma tira, mas eu de mim

mesmo a dou". Estaria Ele levando o nosso pecado sobre Si

quando disse isto? Note-se que Ele diz "ninguém" — homens,

anjos, demônios ou qualquer outra criatura. Foi um ato voluntário

da Sua própria parte: deu a Sua vida para tornar a tomá-la.

"Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu" (SI 40:8). Tal era

a linguagem do holocausto divino — de Aquele que achou gozo

inexprimível em Se oferecer incontaminado a Deus.

É, pois, da máxima importância aprender com distinção o

primário objetivo de Cristo na obra de redenção. Contribui para

consolidar a paz do crente. O cumprimento da vontade de Deus,

estabelecer os Seus desígnios e parentear a glória de Deus, era o

que preocupava esse coração dedicado, que via e avaliava todas as

coisas em relação com Deus.


_________________


(1) LXX - "Septuaginta" - versão grega do Velho Testamento.


O Senhor Jesus nunca se deteve para averiguar até que

ponto qualquer ato ou circunstância O afetaria. "O Aniquilou-se a

si mesmo" (Fp 2:7-8). Renunciou a tudo. E, por isso, quando

chegou ao fim da Sua carreira, pôde refletir sobre o passado, olhar

para trás e, com os olhos levantados ao céu, dizer, "Eu glorifiqueite

na terra, tendo consumado a obra que me deste a fazer" (Jo

17:4).

É impossível contemplar a obra de Cristo sob este aspecto

sem que o coração se sinta cheio das mais gratas afeições para

com a Sua Pessoa. O conhecimento de que o Seu primeiro objetivo

na obra da cruz era Deus não diminui em nada o sentimento que

temos do Seu amor por nós. Pelo contrário, o Seu amor por nós, e

a nossa salvação n'EIe só podiam ser fundamentados no

estabelecimento da glória de Deus. Essa glória deve formar a base

sólida de todas as coisas. "Porém, tão certamente como eu vivo e

como a glória do S

ENHOR encherá toda a terra" (Nm 14:21). Mas


nós sabemos que a glória eterna de Deus e a bem-aventurança

eterna da criatura estão inseparavelmente ligadas nos desígnios

divinos, de sorte que se a primeira está assegurada, a segunda

tem de sê-lo também.


A Identificação do Adorador com o Holocausto


"E porá a sua mão sobre a cabeça do holocausto, para que

seja aceito por ele, para a sua expiação." O ato da imposição das

mãos exprimia completa identificação. Por este ato significativo o

oferente e a oferta tornavam-se um; e esta unidade, no caso do

holocausto, assegurava ao oferente que a sua oferta era aceite. A

aplicação deste fato a Cristo e ao crente realça uma verdade das

mais preciosas, uma das mais largamente desenroladas no Novo

Testamento, a saber: a identificação eterna do crente com Cristo e

a sua aceitação em Cristo:"... qual ele é, somos nós também neste

mundo... No que é verdadeiro estamos."(l jo4:17;5:20).

Nada menos do que isto nos podia aproveitar. O homem que

não está em Cristo está nos seus pecados. Não há terreno neutro.

Ou havemos de estar em Cristo ou fora d'Ele. Não se pode estar


parcialmente

em Cristo. Ainda que seja apenas a espessura de um


cabelo que se interponha entre vós e Cristo, estais num estado

positivo de ira e condenação. Pelo contrário, se estais n'Ele, então

sois "qual ele é" perante Deus, e assim considerados na presença

da santidade infinita.

Tal é o ensino claro da Palavra de Deus. "Estais perfeitos

nele", sois "membros do seu corpo", da Sua carne e dos Seus

ossos, "agradáveis" a Deus "no amado", porque "o que se ajunta

com o Senhor é um mesmo espírito" (1 Co 6:17; Ef 1:6; 5:20,

C12:20). Ora, não é possível que a Cabeça esteja num grau de

aceitação e os membros noutro. Não; a Cabeça e os membros são

um. Deus considera-os um; e, portanto, são um. Esta verdade é,

ao mesmo tempo, o fundamento da mais elevada confiança e da

mais profunda humildade. Dá-nos a mais completa segurança

"para que no dia do juízo tenhamos confiança" (1 Jo 4:17), visto

que não é possível haver qualquer acusação contra Aquele com

quem estamos unidos. Dá-nos uma profunda impressão da nossa

própria nulidade, visto que a nossa união com Cristo é baseada na

morte da velha natureza e na abolição total de todos os seus

direitos e pretensões.

Visto que, portanto, a Cabeça e os membros são

considerados na mesma posição de infinito favor e aceitação

perante Deus, é evidente que todos os membros têm uma mesma

aceitação, uma mesma salvação, a mesma vida e uma mesma

justiça. Não há graus diferentes na justificação. O recém-nascido

em Cristo e o crente de cinqüenta anos estão no mesmo plano de

justificação. Um está em Cristo, e o outro também; e assim como

estar em Cristo é a única base de vida, também o é de justificação.

Não há duas espécies de vida nem duas espécies de justificação.

Não há dúvida que existem diversos graus de gozo desta

justificação — vários graus no conhecimento da sua plenitude e

extensão — vários graus na capacidade de mostrar o seu poder

sobre o coração e a vida; e estas coisas são freqüentemente

confundidas com a própria justificação, a qual, sendo divina, é,

necessariamente, eterna, absoluta, invariável, e não pode ser

afetada pela flutuação dos sentimentos ou experiências humanas.

Mas, além disso, não há progresso na justificação. O crente

não está mais justificado hoje do que estava ontem; nem estará

mais justificado amanhã do que está hoje. Sim, a alma que "está

em Cristo Jesus" está tão completamente justificada como se

estivesse diante do trono de Deus. O crente é

"perfeito em Cristo".


É

"como" Cristo. Está, sobre a própria autoridade de Cristo, "todo


limpo" (Jo 13:10). Que mais poderia esperar ser deste lado da

glória ? Pode fazer e fará — se andar em Espírito — progresso no

gozo desta gloriosa realidade; mas, quanto à própria justificação,

no momento em que, pelo poder do Espírito Santo, creu o

evangelho, passou de um estado positivo de injustiça e

condenação para um estado positivo de justiça e aceitação. Tudo

isto se baseia na perfeição divina da obra de Cristo; precisamente

como no caso do holocausto, em que a aceitação do adorador era

baseada na aceitação da oferta. Não era uma questão de saber o

que ele era, mas simplesmente do que era o sacrifício. "Para

que


seja

aceito por ele, para a sua expiação."


O Sacrifício


"Depois, degolará o bezerro perante o S

ENHOR; e os filhos de


Arão, os sacerdotes, oferecerão o sangue e espargirão o sangue à

roda sobre o altar que está diante da porta da tenda da congregação."

No estudo da doutrina do holocausto é absolutamente

indispensável não esquecer que o ponto principal que ressalta dele

não é ir ao encontro da necessidade do pecador, mas apresentar a

Deus aquilo que Lhe é infinitamente agradável. Cristo, como é

prefigurado no holocausto, não é para a consciência do pecador,

mas para o coração de Deus.

Além disso, no holocausto a cruz não é demonstração da

abominação do pecado, mas a devoção inabalável de Cristo ao Pai.

Nem tampouco é a cena de Deus descarregar a Sua ira sobre

Cristo por Ele levar sobre Si o pecado, mas sim a sublime

complacência do Pai em Cristo, o sacrifício voluntário e cheio de

fragrância. Finalmente a "expiação", como a vemos no holocausto,

não é apenas proporcionada às exigências da consciência do

homem, mas o desejo intenso do coração de Cristo em fazer a

vontade de Deus e estabelecer os propósitos divinos — um desejo

que não O impediu de entregar a Sua vida imaculada e preciosa

como "oferta voluntária" "de cheiro" suave a Deus.

Nenhum poder da terra ou do inferno, homens ou demônios,

pôde demovê-Lo de cumprir este desejo. Quando Pedro,

ignorantemente, e com palavras de falsa ternura, procurou

dissuadi-lo a não ir ao encontro da vergonha e degradação da

cruz, "dizendo: Senhor, tem compaixão de ti; de modo nenhum te

acontecerá isso", qual foi a Sua resposta? "Para trás de mim,

Satanás, que me serves de escândalo; porque não compreendes as

coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens" (Mt

16:22-23). De igual modo, noutra ocasião, disse aos Seus

discípulos, "Já não falarei muito convosco, porque se aproxima o

príncipe deste mundo e nada tem em mim mas é para que o

mundo saiba que

eu amo o Pai e que faço como o Pai me mandou.


Levantai-vos, vamo-nos daqui" (Jo 14:30-31). Estas e muitas

outras passagens correlativas das Escrituras mostram-nos a fase

da obra de Cristo no holocausto em que o primeiro pensamento é

evidentemente "oferecer-se a Si mesmo imaculado a Deus".


Os Sacerdotes


Em perfeita harmonia com tudo quanto tem sido exposto a

respeito deste ponto especial no holocausto está o lugar que

ocupam os filhos de Arão e as funções que lhes são assinaladas

nele. Eles "espargirão o sangue... porão fogo sobre o altar, pondo

em ordem a lenha sobre o fogo", também "porão em ordem os

pedaços, a cabeça e o redenho, sobre a lenha que está no fogo em

cima do altar". Estas coisas estavam bem em evidência e formam

um aspecto notável do holocausto, em contraste com a expiação

do pecado, na qual os filhos de Arão não são mencionados. "Os

filhos de Aarão" representam a Igreja, não como "um corpo", mas

como casa sacerdotal. Isto compreende-se facilmente. Se Arão era

uma figura de Cristo, a casa de Arão era uma figura da casa de

Cristo, como lemos na Epístola aos Hebreus, capítulo 3 versículo

6: "Mas Cristo, como Filho, sobre a sua própria casa; a qual casa

somos nós". E, "Eis-me aqui a mim e aos filhos que Deus me deu"

(Hb 2:13). Agora é privilégio da Igreja, na medida em que é dirigida

e ensinada pelo Espírito Santo, fixar os olhos e deleitar-se nesse

aspecto de Cristo que nos é apresentado no símbolo com que abre

o livro de Levítico. "A nossa comunhão é com o Pai", que,

graciosamente, nos convida a ter parte com Ele nos Seus

pensamentos acerca de Cristo. É verdade que nunca podemos

elevar-nos à altura desses pensamentos; mas podemos ter

participação neles pelo Espírito Santo que habita em nós. Não se

trata aqui de uma questão de se ter a consciência tranqüilizada

pelo sangue de Cristo, como o que levou sobre Si o pecado, mas de

comunhão com Deus na rendição perfeita de Cristo na cruz.

"... e os filhos de Arão,

os sacerdotes, oferecerão o sangue e


espargirão o sangue à roda sobre o altar que está diante da porta

da tenda da congregação." Aqui temos uma figura da Igreja

trazendo o memorial de um sacrifício consumado e oferecendo-o

no lugar de aproximação individual de Deus. Mas devemos

lembrar que é o sangue do holocausto e não o da expiação do

pecado. É a Igreja penetrando, no poder do Espírito Santo, no

pensamento admirável da comprovada devoção de Cristo a Deus, e

não o pecador convicto valendo-se do valor do sangue de quem

carregou com o pecado. Desnecessário é dizer que a Igreja é

composta de pecadores arrependidos; mas "os filhos de Arão" não

representam os pecadores arrependidos, mas, sim, os santos em

adoração. É na qualidade de

"sacerdotes" que têm de intervir no


holocausto. Muitos erram quanto a isto. Imaginam que, pelo fato

de se tomar o lugar de adorador — para que se é convidado pela

graça de Deus e tornado idôneo para o fazer pelo sangue de Cristo

— não tem que se considerar como pecador indigno. Isto é um

grande erro. O crente, em si mesmo, nada é absolutamente. Mas

em Cristo é um adorador purificado. Não está no santuário como

pecador culpado, mas como sacerdote em adoração, vestido com

os vestidos de glória e ornamento. Ocupar-me da minha culpa na

presença de Deus, não é, pelo que me diz respeito, humildade mas

sim incredulidade, pelo que respeita ao sacrifício.

Todavia, é bem evidente que a idéia de levar o pecado — a

imputação do pecado—, ou da ira de Deus, não aparece no

holocausto. È certo que lemos: "... para que seja aceito por ele,


para

a sua expiação"; mas é "expiação" não segundo a profunda


enorme culpa humana, mas segundo a perfeita rendição de Cristo

a Deus e a intensidade do prazer de Deus em Cristo. Isto dá-nos a

mais elevada idéia da expiação. Se contemplamos a Cristo como o

sacrifício pelo pecado, vemos expiação efetuada segundo as

exigências da justiça divina em relação ao pecado. Mas quando

vemos a expiação no holocausto, é segundo a medida da boa

vontade e capacidade de Cristo para cumprir a vontade de Deus,

segundo a medida de complacência de Deus em Cristo e na Sua

obra. Quão perfeita deve ser a expiação que é o fruto da devoção

de Cristo a Deus! Poderia haver alguma coisa além distou

Certamente que não. O aspecto da expiação que o holocausto dá é

o que deve ocupar a família sacerdotal nos átrios da casa do

Senhor, para sempre.


A Preparação do Sacrifício


"Então, esfolará o holocausto, e o partirá nos seus pedaços.

O ato cerimonial de "esfolar" era particularmente expressivo. Era

simplesmente remover a cobertura exterior, a fim de se patentear

completamente o que havia no

interior. Não era suficiente a oferta


ser exteriormente "sem mancha", "as entranhas" deviam ser

postas a descoberto para que cada músculo e cada juntura

pudessem ser vistas. Era só no caso do holocausto que se

mencionava especialmente este ato. Isto está perfeitamente de

acordo com o conjunto do tipo, e tende a fazer realçar a profunda

devoção de Cristo ao Pai.

Não se limitava a cumprir uma missão. Quanto mais se

revelavam os segredos da Sua vida íntima e as profundidades do

Seu coração eram exploradas, tanto mais manifesta se tornava

essa pura devoção à vontade do Pai, e o desejo ardente pela Sua

glória. Estas eram as fontes de ação do grande Antítipo do

holocausto. Ele foi seguramente o perfeito holocausto.

"E o partirá nos seus pedaços". Este ato apresenta uma

verdade um tanto semelhante à que é ensinada no "incenso

aromático

moído” (Lv 16:12).


O Espírito Santo deleita-se em se deter sobre a doçura e

fragrância do sacrifício de Cristo, não só como um todo, como

também em todos os seus mínimos pormenores. Considerai o

Holocausto como um todo e vê-lo-eis sem mancha. Considerai-o

em todas as suas partes e vereis como é o mesmo. Assim era

Cristo; e como tal é prefigurado neste importante tipo.

"E os filhos de Arão, os sacerdotes, porão fogo sobre o altar,

pondo em ordem a lenha sobre o fogo. Também os filhos de Arão,

os sacerdotes, porão em ordem os pedaços, a cabeça e o redenho,

sobre a lenha que está no fogo em cima do altar". Isto era uma

posição elevada para a família sacerdotal. O holocausto era

totalmente oferecido a Deus. Era tudo queimado sobre o altar (

!); o


homem não participava dele; mas os filhos do sacerdote Arão,

sendo também sacerdotes, mantinham-se em redor do altar de

Deus contemplando a chama que se erguia do sacrifício aceitável

em aroma suave. Era uma posição elevada — uma elevada

comunhão — uma elevada ordem no serviço sacerdotal —, uma

figura notável da Igreja em comunhão com Deus relacionada no

perfeito cumprimento da Sua vontade na morte de Cristo. Como

pecadores convictos, contemplamos a cruz de nosso Senhor Jesus

Cristo, e vemos nela aquilo que satisfaz todas as nossas

necessidades. A cruz, neste aspecto, dá perfeita paz à consciência.

Por isso, como sacerdotes, como adoradores purificados, como

membros da família sacerdotal, nós podemos olhar para a cruz

sob outra luz diferente, ou seja a completa consumação do santo

propósito de Cristo de cumprir, até mesmo na morte, a vontade do

Pai. Como pecadores convictos, permanecemos junto do altar de

cobre, e encontramos paz por meio do sangue da expiação; mas,

como sacerdotes, permanecemos ali para observar e admirar a

perfeição daquele holocausto — a perfeita rendição e apresentação

a Deus d'Aquele que era incontaminado.


____________________

(
1) E talvez conveniente, em ligação com este ponto, informar o leitor que o

vocábulo hebraico traduzido por "queimado" no caso do holocausto é inteiramente

diferente daquele que é empregado na expiação do pecado. Vou referir,

devido ao interesse peculiar do assunto, algumas passagens em que ocorre esta

palavra. A palavra usada no holocausto significa "incenso" ou "queimar

incenso", e ocorre nas seguintes passagens numa ou noutra das suas diferentes

inflexões: Levítico 6:15, "... e todo o incenso... e o acenderá sobre o altar".

Deuteronômio 33:1. "E farás um altar para queimar incenso". Salmo 66:15, "...

odorante fumo de carneiros"; "... o incenso que queimaste nas cidades de Judá";

Cantares 3:6, "... colunas de fumo, perfumada de mirra, de incenso". As

passagens podiam multiplicar-se, porém estas bastam para mostrar o uso da

palavra que ocorre no holocausto.

A palavra hebraica traduzida por "queimar", em ligação com a expiação

do pecado, significa queimar, em geral, e aparece nas seguintes passagens:

Gênesis 11:3, "... façamos tijolos, e queimemo-los bem"; Levítico 10:16, "E

Moisés diligentemente buscou o bode da expiação e eis que já era queimado"; 2

Crônicas 16-14, "... e fizeram-lhe queima mui grande".

Assim, a oferta por expiação do pecado não só era queimada num lugar

diferente, como é adotada uma palavra diferente pelo Espírito Santo para

expressar o ato pelo qual era consumida. Ora nós não podemos imaginar, nem

por um momento, que esta distinção seja apenas uma troca de palavras, cujo

emprego é indiferente. Creio que a sabedoria do Espírito Santo é tão

manifestada no emprego das duas palavras como em qualquer outro ponto de

diferença entre as duas ofertas. O leitor espiritual não deixará de dar o próprio

valor a esta interessante distinção.


Teríamos uma idéia muito imperfeita do mistério da cruz, se

nela víssemos somente aquilo que satisfaz as necessidades do

homem como pecador. Havia profundidades nesse mistério que só

a mente de Deus podia aprofundar.

E, por isso, importante ver que, quando o Espírito Santo nos

apresenta figuras da cruz, dá-nos, em primeiro lugar, aquela que

no-lo mostra em relação com Deus. Isto seria suficiente para nos

ensinar que há altos e baixos na doutrina da cruz que o homem

nunca pode atingir. Pode aproximar-se da fonte de alegria e beber

para sempre — pode satisfazer as mais veementes aspirações do

seu espírito — pode explorá-la com todos os recursos da sua nova

natureza, mas, depois de tudo, existe na cruz aquilo que só Deus

pode apreciar. E por isso que o holocausto ocupa o primeiro lugar.

Tipifica a morte de Cristo vista e apreciada somente por Deus. E

certamente, podemos dizer que não poderíamos passar sem uma

tal figura; porque não só nos dá o aspecto mais elevado da morte

de Cristo, como também um pensamento precioso referente ao

interesse particular que Deus tinha nessa morte. O próprio fato de

Deus ter instituído um tipo da morte de Cristo, o qual devia ser

exclusivamente para Si, contém um volume de instrução para a

mente espiritual.

Mas apesar de nem os anjos nem os homens puderem

jamais sondar perfeitamente as profundezas espantosas do

mistério da morte de Cristo, nós podemos, pelo menos, discernir

algumas das suas características, que a fazem mais do que

preciosa para o coração de Deus. E da cruz que Ele recolhe a mais

rica glória. De nenhuma outra maneira teria sido tão glorificado

como pela morte de Cristo. É na entrega voluntária que Cristo fez

de Si mesmo à morte que a glória divina resplandece em todo o

seu fulgor. Sobre ela foi posto também o fundamento sólido de

todos os desígnios divinos.

Isto é uma verdade muito consoladora. A criação nunca

poderia ter oferecido um tal fundamento. Além disso, a cruz

oferece um justo canal através do qual o amor divino pode fluir. E,

finalmente, pela cruz, Satanás é confundido para sempre, e "os

principados e potestades" foram publicamente expostos (Cl 2:15).

Estes são os gloriosos frutos resultantes da cruz; e, quando

pensamos neles, podemos ver a razão por que era preciso que

houvesse um tipo da cruz exclusivamente para Deus, e também a

razão por que esse tipo devia ocupar uma posição eminente devia

estar à cabeça da lista das ofertas. E deixai-me dizer que teria

havido uma falta grave entre os símbolos se faltasse o holocausto;

e haveria também uma omissão lamentável nas páginas

inspiradas se tivesse sido omitido o registro desse símbolo.


Uma Oferta Queimada de Cheiro Suave ao S
ENHOR


"Porém a sua fressura e as suas pernas lavar-se-ão com

água; e o sacerdote tudo isto queimará sobre o altar; holocausto é,

oferta queimada, de cheiro suave ao S

ENHOR." Este ato tornava o


sacrifício simbolicamente no que Cristo foi essencialmente—puro

tanto no íntimo como exteriormente. Havia a mais perfeita ligação

entre os motivos íntimos de Cristo e a Sua conduta exterior. Esta

era a expressão daqueles. Tudo tinha o mesmo fim — a glória de

Deus. Os membros do Seu corpo obedeciam perfeitamente e

executavam os desígnios do Seu consagrado coração—esse

coração que pulsava só por Deus e a Sua glória na salvação dos

homens. Bem podia, portanto, o sacerdote "queimar

tudo isto


sobre o altar". Tudo era tipicamente puro e destinado para ser

como alimento para o altar de Deus. De alguns sacrifícios

participava o sacerdote; de outros o oferente; mas o holocausto era

"todo" consumido no altar. Era exclusivamente para Deus. Os

sacerdotes podiam preparar a lenha e o fogo, e ver subir a chama;

e isto era um grande e santo privilégio. Mas não comiam do

sacrifício. Deus era o único objetivo de Cristo no aspecto em que o

holocausto tipificava a Sua morte. Não devemos ser

demasiadamente simples na nossa compreensão de tudo isto.

Desde o momento em que o macho sem mancha era

voluntariamente apresentado à porta da lenha da congregação até

ser reduzido a cinzas por ação do fogo, discernimos nele Cristo

oferecendo-se a Si mesmo a Deus incontaminado pelo Espírito

Eterno.

Isto torna o holocausto inefávelmente precioso para a alma.

Dá-nos a visão sublime da obra de Cristo. Nessa obra Deus teve

particular prazer — um gozo em que nenhuma inteligência criada

podia penetrar. Isto deve ter-se sempre em vista. É desenrolado no

holocausto e confirmado "pela lei do holocausto", a que nos vamos

referir imediatamente.


A Lei do Holocausto


"Falou mais o S

ENHOR a Moisés, dizendo: Dá ordem a Arão e


a seus filhos, dizendo: Esta é a lei do holocausto: o holocausto

será queimado sobre o altar toda a noite até pela manhã, e o fogo

do altar arderá nele. E o sacerdote vestirá a sua veste de Unho, e

vestirá as calças de Unho sobre a sua carne, e levantará a cinza,

quando o fogo houver consumido o holocausto sobre o altar, e a

porá junto ao altar. Depois, despirá as suas vestes, e vestirá

outras vestes, e levará a cinza fora do arraial para um lugar limpo.

O fogo, pois, sobre o altar arderá nele, não se apagará; mas o

sacerdote acenderá lenha nele cada manhã, e sobre ele porá em

ordem o holocausto, e sobre ele queimará a gordura das ofertas

pacíficas. O fogo arderá continuamente sobre o altar; não se

apagará" (Lv 6:8 -13). O fogo no altar consumia o holocausto e a

gordura da oferta pacífica. Era a própria expressão da santidade

divina que encontrou em Cristo e no Seu perfeito sacrifício um

elemento próprio para se alimentar. Esse fogo não devia nunca

extinguir-se. Tinha de haver manutenção perpétua daquilo que

representava a ação da santidade divina. No meio das trevas e

vigílias silenciosas da noite o fogo ardia sobre o altar de Deus.

"E o sacerdote vestirá a sua veste de linho". Aqui, o

sacerdote toma, em figura, o lugar de Cristo, cuja justiça pessoal é

representada pela veste de linho. Havendo-se entregado a Si

mesmo à morte de cruz, a fim de cumprir a vontade de Deus,

entrou no céu com a Sua própria justiça, levando consigo os

sinais de ter completado a Sua obra. As cinzas atestavam que o

sacrifício estava consumado e que havia sido aceito por Deus.

Essas cinzas, postas ao lado do altar, indicavam que o fogo tinha

consumido o sacrifício — que era um sacrifício não apenas

consumado, mas aceito. As cinzas do holocausto declaravam a

aceitação do sacrifício. As cinzas da expiação do pecado

declaravam que o pecado fora julgado.

Muitos dos pontos que temos estado a considerar

reaparecerão perante nós no decorrer do estudo dos sacrifícios

com mais clareza, precisão e poder. Postas cm contraste umas

com as outras, as ofertas adquirem mais relevo. Consideradas em

conjunto dão-nos uma visão completa de Cristo. São como

espelhos dispostos de tal maneira que refletem, sob diferentes

aspectos, a imagem do verdadeiro e único sacrifício perfeito.

Nenhuma figura por si só pode representá-Lo em toda a sua

plenitude. E necessário contemplar-mo-Lo na vida e na morte

como Homem e como Vítima em relação com Deus e conosco; e é

assim que no-Lo apresentam os sacrifícios de Levítico.

Deus, que satisfez misericordiosamente as necessidades das

nossas almas, permita que a nossa inteligência seja também

iluminada para compreendermos e desfrutarmos aquilo que nos

preparou.


— CAPÍTULO 2 —


A OFERTA DE MANJARES: CRISTO NA SUA

HUMANIDADE


Vamos considerar agora a oferta de manjares, que, de uma

maneira muito clara, apresenta Cristo Jesus como Homem. Assim

como o holocausto simboliza Cristo

na morte, a oferta de manjares


representa-O na

vida. Nem num nem no outro se trata da questão


de levar o pecado. No holocausto vemos expiação, mas não é uma

questão de levar o pecado (

1) — não é imputação do pecado — nem


manifestação da ira por causa do pecado. Como podemos saber

isto? Porque tudo era consumido sobre o altar. Se houvesse nele

alguma coisa referente à remoção do pecado teria sido consumado

fora do arraial (veja Lv 4:1,12 com Hb 13:11).

Porém, na oferta de manjares nem sequer havia

derramamento de sangue. Encontramos nela uma formosa figura

de Cristo, como viveu, andou e serviu na terra. Este fato, em si, é

suficiente para persuadir a mente espiritual a considerar esta

oferta atentamente e com oração. A humanidade pura e perfeita de

nosso bendito Senhor é um tema que requer a atenção de todo o

verdadeiro crente. É de recear que prevaleça muita liberdade de

pensamento sobre este santo mistério. As expressões que às vezes

se ouvem e se lêem bastam para provar que a doutrina

fundamental da encarnação não é compreendida como a Palavra

de Deus no-la apresenta. Tais expressões podem, muito

provavelmente, proceder de uma má compreensão da natureza

verdadeira das Suas relações e do verdadeiro caráter dos Seus

sofrimentos; mas seja qual for a causa que lhes dá origem, devem

ser julgadas à luz das Sagradas Escrituras e rejeitadas.

Infalivelmente, muitos dos que fazem uso dessas expressões

recuariam como horror e justa indignação ante a verdadeira

doutrina que elas encerram, se esta fosse exposta perante eles no

seu verdadeiro e extenso caráter; e, por esta razão, deve haver o

cuidado de não atribuir erro à verdade fundamental, quando pode

muito bem ser apenas incorreção de linguagem.


____________

(
1) Não se salienta a idéia de levar o pecado. Mas, claro, quando há

expiação existe a questão de pecado.


Existe, contudo, uma consideração que deve pesar

grandemente nas apreciações de todo o cristão, a saber: a

natureza vital da doutrina da humanidade de Cristo. Encontra-se

no próprio fundamento do cristianismo; e, por esta razão, Satanás

tem procurado diligentemente, desde o princípio, induzir as

pessoas em erro a este respeito. Quase todos os erros principais

que se têm introduzido na igreja professa revelam o propósito

satânico de minar a verdade quanto à pessoa de Cristo. E até

homens piedosos ao pretenderem combater esses erros caem, em

muitos casos, em erros do lado oposto. Daí a necessidade de

prestarmos atenção às próprias palavras de que o Espírito Santo

fez uso para revelar este sagrado e profundo mistério.

Na realidade, eu creio que, em todos os casos, a submissão à

autoridade das Sagradas Escrituras e a energia da vida divina na

alma são os melhores meios de proteção contra toda a espécie de

erro. Não são precisos grandes conhecimentos teológicos para

preparar uma alma de modo a evitar erros a respeito da doutrina

de Cristo. Se a palavra de Cristo habitar abundantemente na alma

e "o Espírito de Cristo" estiver nela em poder, não haveria lugar

para Satanás introduzir as suas sombrias e horríveis sugestões.

Se o coração se compraz no Cristo das Escrituras, fugirá

seguramente dos falsos Cristos que Satanás lhe apresenta. Se nos

alimentarmos da realidade de Deus, rejeitaremos sem hesitação as

limitações de Satanás. Este é o melhor meio de escapar aos

enredos do erro, qualquer que seja a sua forma e caráter. "As

ovelhas ouvem a sua voz[...] e o seguem, porque

conhecem a sua


voz.

Mas, de modo nenhum, seguirão o estranho, antes fugirão


dele; porque

não conhecem a voz dos estranhos" (Jo 10:3-5). Não é


necessário, de modo algum, estar-se habituado à voz de um

estranho para se fugir dele; tudo que precisamos é conhecer a voz

do "Bom Pastor". Este conhecimento nos guarda da influência

ardilosa de todos os estranhos. Portanto, embora me sinta

chamado para prevenir o leitor contra sons estranhos, a respeito

do mistério divino da humanidade de Cristo, não me parece

necessário discutir tais sons, mas procurarei antes, pela graça,

avisá-lo contra erros, apresentando a doutrina das Escrituras

sobre o assunto.

Poucas coisas há em que revelamos maior fraqueza do que

em mantermos uma comunhão vigorosa com a perfeita

humanidade de nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso sofremos

tanto com a falta de frutos, inquietação, divagações e erro. Se

estivéssemos compenetrados, mercê de uma fé simples, da

verdade que à direita da Majestade nos céus está um Homem real

— Um cuja simpatia é perfeita, cujo amor é insondável, cujo poder

é onipotente, cuja sabedoria é infinita, cujos recursos são

inesgotáveis, cujas riquezas são inexauríveis, cujo ouvido está

sempre atento às nossas petições, cuja mão está aberta a todas as

nossas necessidades, cujo coração está cheio de ternura e amor

inefável por nós — quanto mais felizes e elevados seríamos e

quanto mais independentes dos meios correntes da criatura

estaríamos, fosse qual fosse o canal por onde viessem"? Não há

nada que o coração possa desejar que não tenhamos em Jesus.

Suspira por verdadeira simpatia"? Onde poderá encontrá-la senão

n'Aquele que pôde juntar as Suas lágrimas às das desoladas irmãs

de Betânia

1?- Anela o gozo de uma sincera afeição"? Só pode


encontrá-la no coração que manifestou o seu amor em gotas de

sangue. Procura a proteção de um poder eficaz"? Nada mais tem a

fazer senão olhar para Aquele que criou o mundo. Sente

necessidade de uma sabedoria infalível para o guiara Entregue-se

Aquele que é a sabedoria; "o qual por nossos pecados foi feito por

Deus sabedoria". Em resumo, temos tudo em Cristo.

A mente divina e as afeições divinas encontraram um

objetivo perfeito em "Jesus Cristo, homem"; e, seguramente, se

existe na pessoa de Cristo o que pode satisfazer Deus

perfeitamente, há também o que nos deveria satisfazer, e nos

satisfará, na proporção em que, pela graça do Espírito Santo,

andarmos em comunhão com Deus.


Cristo, o Homem Perfeito


O Senhor Jesus Cristo foi o único homem perfeito que

jamais pisou esta terra. Era todo perfeito — perfeito em

pensamento, palavras e ação. N'Ele todas as qualidades morais se

encontravam em divina e, portanto, perfeita proporção. Nenhuma

qualidade pré-ponderava. N'Ele entrelaçavam-se singularmente a

majestade que amedrontava e a delicadeza que dava um perfeito à

vontade na Sua presença. Os escribas e fariseus eram

severamente censurados por Ele, enquanto que a samaritana e a

mulher que era "pecadora" eram inexplicável e irresistivelmente

atraídas para Ele. Nenhuma qualidade deslocava outra, porque

tudo estava em bela e airosa proporção. Isto pode verificar-se em

todas as cenas da Sua perfeita vida. Podia dizer a respeito de cinco

mil pessoas famintas: "Dai-lhes vós de comer"; e, depois de

estarem satisfeitas podia acrescentar, "Recolhei os pedaços que

sobejaram, para que nada se perca".

A benevolência e a economia são ambas perfeitas. Uma não

interfere com a outra. Cada uma brilha na sua própria esfera. Não

podia despedir a multidão faminta; tampouco podia permitir que

um simples fragmento do que Deus criara fosse desperdiçado.

Supria com mão-cheia e liberal as necessidades da família

humana, e, quando isso fora feito, guardava cuidadosamente cada

átomo deixado. A mesma mão que estava sempre aberta a toda a

forma de necessidade humana estava firmemente fechada contra

toda a prodigalidade. Nada havia de mesquinho nem tampouco de

extravagante no caráter do Homem perfeito, o Homem do céu.

Que lição para nós! Quantas vezes acontece conosco que a

benevolência degenera em injustificável prodigalidade! E, por

outro lado, quantas vezes a nossa economia é manchada pela

exibição de um espírito avaro!

Por vezes os nossos corações mesquinhos recusam abrir-se

às necessidades que se nos apresentam; enquanto que noutras

ocasiões dissipamos por frívola extravagância o que poderia

satisfazer muitos dos nossos semelhantes necessitados. Oh!

prezado leitor, estudemos atentamente o quadro divino que nos é

apresentado na vida de "Jesus Cristo, homem". Quão confortante

e edificante é para "o homem interior" estar ocupado com Aquele

que foi perfeito em todos os Seus caminhos e que em tudo deve ter

a "preeminência"!

Vede-O no jardim do Getsêmane. Ali, Ele ajoelha-Se no

recôndito profundo de uma humildade que ninguém senão Ele

podia mostrar; mas, todavia, adiante do bando do traidor mostra

uma presença de espírito e majestade que nos faz retroceder e cair

por terra. O seu comportamento diante de Deus é de prostração;

mas perante os Seus juízes e acusadores de dignidade inflexível.

Tudo é perfeito. O desapego, a humildade, a prostração e a

dignidade são divinos.

Assim também quando contemplamos a combinação

formosa das Suas relações divinas e humanas observa-se a

mesma perfeição. Ele podia dizer, "Porque é que me procuráveis?

Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai??-" E,

ao mesmo tempo, podia descer a Nazaré e dar ali um exemplo de

perfeita sujeição à autoridade paternal (veja Lc 2:49-51). Podia

dizer a Sua mãe: "Mulher, que tenho eu contigo?" E contudo ao

passar pela agonia indizível da cruz podia confiar ternamente

aquela mãe ao cuidado do discípulo amado. No primeiro caso, Ele

separou-se no espírito de perfeito nazireu, deu expressão aos

ternos sentimentos do perfeito coração humano. A devoção do

Nazireu e a afeição do homem eram igualmente perfeitas. Não

houve interferência nem num caso nem no outro. Cada uma

brilhava com brilho límpido na sua própria esfera.

Agora, a sombra deste Homem perfeito passa perante nós na

"flor de farinha" que formava a base da oferta de manjares. Não

havia nela um grão mal moído. Nada desigual, nada desproporcional,

nada revelava aspereza. Não importava qual fosse a pressão

vinda do exterior, a superfície era sempre uniforme. O Senhor

nunca foi perturbado por quaisquer circunstâncias. Nunca teve de

retroceder um passo ou retirar uma palavra. Viesse o que viesse

enfrentava sempre as circunstâncias com aquela uniformidade

admiravelmente simbolizada na "flor de farinha".

Em todas estas coisas desnecessário é dizer que Ele está em

flagrante contraste com os Seus mais honrados e consagrados

servos. Por exemplo, Moisés, embora fosse "muito mais manso do

que todos os homens que havia sobre a terra" (Nm 12:3) "falou

imprudentemente com seus lábios" (SI 106:33). Em Pedro vemos

um zelo e uma energia que, por vezes, eram excessivos; e, também

noutras ocasiões, uma covardia que o levava a fugir do lugar de

testemunho e vitupério. Fazia afirmações de uma devoção que,

quando chegava a altura de agir, não se via. João, que respirava

tanto da atmosfera da presença imediata de Cristo, manifestou,

por vezes, um espírito sectário e intolerante. Em Paulo, o mais

consagrado dos servos, descobrimos considerável desigualdade:

dirigiu palavras ao sumo sacerdote que teve de retirar (At 23).

Escreveu uma carta aos Coríntios, de que logo se arrependeu,

para mais tarde não se arrepender (2 Co 7:8). Encontramos em

todos qualquer falha, menos n'Aquele que "é cândido e totalmente

desejável entre dez mil".

No estudo da oferta de manjares, para mais clareza e

simplicidade dos nossos pensamentos, convém considerar

primeiro os materiais de que era composta; depois as diversas

formas em que era apresentada; e, por último, as pessoas que

participavam dela.


Os Ingredientes da Oferta de Manjares

a) A Flor de Farinha Amassada com Azeite


Quanto aos materiais, a "flor de farinha" pode ser

considerada como a base da oferta; nela temos uma figura da

humanidade de Cristo, na qual se encontram todas as perfeições.

Nela se encontram também todas as virtudes prontas para ação

eficiente, a seu tempo. O Espírito Santo deleita-se em mostrar a

glória de Cristo, em O apresentar em toda a Sua excelência

incomparável — em O apresentar diante de nós em contraste com

tudo mais. Põe-no em contraste com Adão, até mesmo no seu

melhor e mais elevado estado, como lemos: "O primeiro homem,

da terra, é terreno; o segundo homem, o Senhor, é do céu" (1 Co

15:47). O primeiro Adão, até mesmo no seu estado de inocência,

era "da terra"; mas o segundo Homem era "o Senhor do céu".

O "azeite", na oferta de manjares, é um símbolo do Espírito

Santo. Mas assim como o azeite é aplicado de um modo duplo, o

Espírito Santo é apresentado num duplo aspecto,

em relação com


a

encarnação do Filho. A flor de farinha era "amassada" com


azeite; e sobre ela era

deitado azeite (versículos 5,6). Tal era o tipo;


e no Antítipo vemos o bendito Senhor Jesus Cristo, primeiro


"concebido"

e então "ungido" pelo Espírito Santo (compare Mt


1:18,23 com capítulo 3:16). Isto é divino! A exatidão é tão clara

que provoca a admiração da alma. O mesmo Espírito que dita os

ingredientes do tipo dá-nos os fatos ocorridos com o Antítipo. O

mesmo que referiu com assombrosa precisão as figuras e sombras

do Livro de Levítico deu-nos também o seu glorioso objetivo nas

páginas do evangelho. O mesmo Espírito sopra através das

páginas do Velho e do Novo Testamento e permite-nos ver como

um corresponde exatamente ao outro.

A concepção da humanidade de Cristo, pelo Espírito Santo,

no ventre da virgem descobre um dos mais profundos mistérios

que pode prender a atenção da mente renovada. E plenamente

revelado no Evangelho de Lucas; e isto é inteiramente

característico, visto que, através de todo esse evangelho, parece

ser objetivo especial do Espírito Santo revelar, na Sua maneira

terna e divina, "o Homem Cristo Jesus". Em Mateus temos "O

Filho de Abraão" — "Filho de Davi". Em Marcos temos o Servo

Divino — o Obreiro Celestial. Em João temos "o Filho de Deus"—o

Verbo Eterno — a Vida, Luz, por Quem todas as coisas foram

feitas. Porém, o grande tema do Espírito Santo no Evangelho de

Lucas é "o Filho do homem".

Quando o anjo Gabriel anunciou a Maria a honra que lhe ia

ser conferida em relação com a grande obra da encarnação, ela,

não com espírito de cepticismo, mas de honesta ignorância,

perguntou: "Como se fará isto, visto que não conheço varãoí"

Claramente, imaginava que o nascimento desta gloriosa Pessoa

que estava prestes a aparecer devia ser segundo os princípios

normais da geração; e este seu pensamento torna-se, na infinita

bondade de Deus, a ocasião de derramar luz sobre a verdade

fundamental da encarnação. A resposta do anjo à pergunta da

virgem é muito interessante e merece ser considerada a fundo. "E

respondendo o anjo disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e

a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; pelo que

também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de

Deus" (Lc 1:35).

Desta magnífica passagem aprendemos que o corpo humano

que o Filho eterno de Deus tomou foi formado pela "virtude do

Altíssimo". Um "corpo me preparaste" (compare-se SI 40:6 com Hb

10:5). Foi um verdadeiro corpo humano—verdadeiramente "carne

e sangue". Não há aqui fundamento possível para as teorias

inúteis e inconsistentes do agnosticismo ou misticismo; nenhuma

justificação para as frias abstrações do primeiro ou a fantasia

obscura do último. Tudo é profunda, sólida e divina realidade. O

que os nossos corações necessitam é precisamente o que Deus

nos deu. A primitiva promessa havia declarado que "a semente da

mulher havia de ferir a cabeça da serpente", e ninguém, a não ser

um verdadeiro homem, podia cumprir esta predição—alguém cuja

natureza humana fosse tão real quanto era pura e incorruptível.

"Eis que em teu ventre conceberás", disse o mensageiro angélico,

"e darás à luz filho ('). E, então, para que não houvesse lugar para

qualquer erro quanto ao modo desta concepção, ele acrescenta

palavras que provam indubitavelmente que "a carne e o sangue"

de que o Filho eterno "participou", ao mesmo tempo que era

absolutamente real, era absolutamente incapaz de receber, reter

ou comunicar uma simples mancha. A humanidade do Senhor

Jesus era, enfaticamente, "O Santo".

E, visto que era inteiramente sem mancha, não havia nela o

princípio mortalidade. Não podemos pensar na mortalidade sem a

relacionar com o pecado; e a humanidade de Cristo não tinha

nada a ver com o pecado, quer pessoal quer relativamente. O

pecado foi-Lhe imputado na cruz, onde "ele foi feito pecado por

nós". Mas a oferta de manjares não é uma figura de Cristo

tomando sobre Si o pecado. Prefigura-O na Sua vida perfeita aqui

na terra — uma vida em que sofreu, sem dúvida, mas não como

Aquele que leva sobre si o pecado, não como substituto nem como

sofrendo às mãos de Deus. Convém distinguir isto claramente.

Nem no holocausto nem na oferta de manjares se prefigura Cristo

levando sobre Si o pecado. Nesta vêmo-Lo

vivendo, e naquele


vêmo-Lo

morrendo na cruz; mas em nenhuma destas ofertas existe


a questão de imputar o pecado nem de suportar a ira de Deus por

causa do pecado. Em resumo, apresentar Cristo como o substituto

do pecador em qualquer lugar a não ser na cruz é privar a Sua

vida de toda a sua beleza divina e excelência, e deslocar

inteiramente a cruz. Além disso, isto envolveria em confusão

irremediável as figuras do livro de Levítico.


_______________

(
1) "Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de

mulher, nascido sob a lei" (Gl 4:4). Esta passagem é muito importante, visto que

apresenta o bendito Senhor como Filho de Deus e Filho do homem. "Deus enviou

o seu Filho, nascido de mulher". Que precioso testemunho!


Quero advertir o leitor que nunca poderá ser escrupuloso demais

em referência à verdade essencial da Pessoa do Senhor Jesus

Cristo e Suas relações. Tudo que não tiver esta verdade por base

não pode receber a sanção de Deus. A Pessoa de Cristo é o centro

vivo e divino ao redor do qual o Espírito Santo exerce toda a Sua

atividade. Deixar escapar a verdade a este respeito e, à

semelhança de um barco que parte as amarras e é levado sem

leme ou bússola sobre a turbulenta imensidade líquida, vós

correreis o perigo iminente de vos despedaçardes contra as rochas

do arianismo, da infidelidade ou do ateísmo. Duvidai da eterna

Filiação de Cristo; duvidai da Sua divindade ou da Sua

humanidade incontaminada, e tereis aberto as comportas à

corrente do erro mortal. Ninguém julgue, nem por um momento,

que isto é apenas um assunto para ser discutido entre teólogos —

uma questão curiosa, um mistério abstrato ou um ponto sobre o

qual podemos legalmente discordar. Não; é uma verdade essencial

e basilar, para ser retida na energia do Espírito Santo e mantida a

todo o custo — na verdade, para ser confessada em todas as

circunstâncias, sejam quais forem as conseqüências.

O que nós precisamos é receber simplesmente em nossos

corações, pela graça do Espírito Santo, a revelação que o Pai faz

do Filho, e, então, as nossas almas serão eficazmente preservadas

das ciladas do inimigo, seja qual for a forma que elas tomarem. O

inimigo pode cobrir plausivelmente as armadilhas do arianismo ou

socinianismo com a erva e as folhas de um atrativo e plausível

sistema de interpretação; mas o coração piedoso descobre

imediatamente o que este sistema pretende fazer de Aquele

bendito Senhor a quem tudo deve e onde ele pretende colocá-lo, e,

não encontra dificuldade em o remeter ao lugar de onde veio.

Podemos muito bem dispensar as teorias humanas; mas não

podemos prescindir de Cristo — o Cristo de Deus; o Cristo das

afeições de Deus; o Cristo dos desígnios de Deus; o Cristo da

Palavra de Deus.

O Senhor Jesus Cristo, o Filho eterno de Deus, uma Pessoa

distinta da Trindade gloriosa, Deus manifestado em carne, Deus

sobre todas as coisas, bendito eternamente, tomou um corpo que

era inerente e divinamente puro, santo e sem possibilidade de

contrair mancha—absolutamente isento de toda a semente ou

princípio de pecado e mortalidade. A humanidade de Cristo era tal

que Ele podia a todo o momento, tanto quanto Lhe dizia

pessoalmente respeito, voltar para o céu, de onde tinha vindo, e ao

qual pertencia. Dizendo isto, não me refiro aos desígnios eternos

do amor redentor ou do amor inalterável do coração de Jesus—o

Seu amor por Deus, o Seu amor pelos eleitos de Deus ou da obra

que era necessária para ratificar o concerto eterno de Deus com a

semente de Abraão e toda a criação. As próprias palavras de

Cristo ensinam-nos que "convinha que padecesse e ressuscitasse

ao terceiro dia" (L c 24:46). Era necessário que sofresse para

perfeita manifestação e pleno cumprimento do grande mistério da

redenção. Era Seu clemente propósito "trazer muitos filhos à

glória". Não queria "ficar só", e, portanto, Ele, como "o grão de

trigo", devia "cair na terra e morrer". Quanto melhor

compreendermos

a verdade da Sua Pessoa, tanto melhor


compreenderemos

a graça da Sua obra.


Quando o apóstolo fala de Cristo como havendo sido


consagrado pelas aflições

considera-O como "o príncipe da nossa


salvação" (Hb 2:10); e não como o Filho eterno, que, pelo que diz

respeito à Sua própria pessoa e natureza, era divinamente perfeito

sem que fosse possível acrescentar alguma coisa ao que Ele era.

Assim, também, quando o próprio Senhor diz: "Eis que eu expulso

demônios, e efetuo curas hoje e amanhã, e no terceiro dia sou

consumado" (Lc 13:22) refere-Se ao fato de ser consumado no

poder da ressurreição como o Consumador de toda a obra da

redenção. Tanto quanto Lhe dizia respeito, Ele podia dizer, até

mesmo ao sair do Jardim do Getsêmane: "Ou pensas tu que eu

não poderia, agora, orar a meu Pai e que ele não me daria mais de

doze legiões de anjos? Como, pois se cumpririam as Escrituras,

que dizem que assim convém que aconteça"? (Mt 26:53,54).

É bom que a alma seja esclarecida acerca disto — é bom ter

uma compreensão divina da harmonia que existe entre aquelas

passagens das Escrituras que apresentam Cristo na dignidade

essencial da Sua pessoa e pureza da Sua natureza e aquelas que

O apresentam em relação com o Seu povo e cumprindo a grande

obra da redenção. Por vezes encontramos estes dois aspectos

ligados na mesma passagem, como em Hebreus 5:8 a 9, "Ainda

que

era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu. E,


sendo ele consumado, veio a ser a causa de eterna salvação para

todos os que lhe obedecem". Devemos contudo lembrar que

nenhuma destas relações em que Cristo entrou voluntariamente,

quer como expressão do amor divino para com o mundo perdido,

quer como o Servo dos desígnios divinos, podia de modo algum

interferir com a pureza essencial, a excelência e a glória da Sua

Pessoa. "O Espírito Santo desceu sobre a virgem", e a virtude do

Altíssimo "cobriu-a com a Sua sombra; pelo que também o santo

que dela nasceu foi chamado Filho de Deus". Magnífica revelação

do mistério da humanidade pura e perfeita de Cristo, o grande

Antítipo da

"flor de farinha amassada com azeite"!


Deixai-me observar que entre a humanidade como se vê no

Senhor Jesus Cristo e a humanidade em nós não pode haver

união. Aquilo que é puro nunca pode ligar-se àquilo que é impuro.

Aquilo que é incorruptível nunca pode unir-se ao que é

corruptível. O espiritual e o carnal — o celestial e o terrestre —

nunca podem combinar-se. Portanto, segue-se que a encarnação

não foi, como alguns têm tentado ensinar-nos, Cristo tomando a

nossa natureza decaída em união consigo Mesmo. Se tivesse feito

isto, a morte da cruz não teria sido necessária. Ele não

necessitava, nesse caso, "angustiar-se" até que se cumprisse o

batismo—não havia necessidade de o grão de trigo "cair na terra e

morrer". Isto é um ponto de grande importância.

A mente espiritual deve ponderar atentamente este fato.

Cristo não podia, de modo algum, tomar a natureza humana

pecaminosa em união consigo. Ouvi o que o anjo disse a José no

primeiro capítulo do evangelho de Mateus. "José, filho de Davi,

não temas receber a Maria, tua mulher, porque

o aue nela está


gerado é do Espírito Santo". Veja-se como a sensibilidade natural

de José, assim como a piedosa ignorância de Maria, dão ocasião a

uma revelação mais completa do santo mistério da humanidade de

Cristo e como contribuem também para proteger essa

humanidade contra todos os ataques blasfemos do inimigo!

Como é então que os crentes são unidos a Cristo

1? É na


encarnação ou na ressurreição? Na ressurreição certamente.

Como é que isto se provai "Se o grão de trigo, caindo na terra, não

morrer fica ele só" (Jo 12:24). Deste lado da morte não podia haver

união entre Cristo e o Seu povo. É no poder de uma nova vida que

os crentes são unidos a Cristo. Eles estavam mortos em pecado, e

Ele, em perfeita graça, desceu e, apesar de puro e imaculado em

Si próprio, "foi feito pecado"—"morreu para

o pecado"—, tirou-o,


ressuscitou triunfante sobre ele e na ressurreição tornou-Se a

Cabeça de uma nova raça. Adão era a cabeça da velha criação,

que caiu com ele. Cristo, pela Sua morte, pôs-se a Si próprio sob

todo o peso da condição do Seu povo, e havendo satisfeito tudo

que era contra eles, ressuscitou vitorioso sobre tudo e levou-os

consigo para a nova criação, da qual Ele é o centro e Chefe

glorioso. Por isso lemos: "O que se ajunta com o Senhor é um

mesmo espírito" (1 Co 6:17).

"Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu

muito amor com que nos amou, estando nós ainda

mortos em


nossas ofensas,

nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça


sois salvos) e nos ressuscitou juntamente com ele, e nos fez

assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus" (Ef 2:4-6).

"Porque somos membros do seu corpo", da Sua carne e dos seus

ossos (Ef 5:30). "E, quando vós estáveis

mortos nos pecados e na


incircuncisão da vossa carne,

vos vivificou juntamente com ele,


perdoando-vos todas as ofensas" (Cl 2:13).

Poderíamos multiplicar as passagens, porém as que

reproduzimos são amplamente suficientes para provar que não foi

na encarnação mas na morte que Cristo tomou uma posição na

qual o Seu povo pôde ser "vivificado com ele". Isto parece

insignificante ao leitora Examine-o à luz da Escritura. Pese todas

as conseqüências. Considere-o em relação com a pessoa de Cristo,

com a Sua vida e com a Sua morte, com a nossa condição, por

natureza, na velha criação, e o nosso lugar, por misericórdia, na

nova. Considere-o assim, e estou persuadido que não voltará a

considerá-lo como um assunto de pouca importância. De uma

coisa, pelo menos, pode o leitor estar certo, que o autor destas

páginas não escreveria uma simples linha para provar este ponto,

se não o considerasse pleno dos mais importantes resultados. O

conjunto da revelação divina está unido de tal maneira e tão bem

ajustado pela mão do Espírito Santo — é tão consistente em todas

as suas partes — que se uma verdade é alterada todo o seu arco é

prejudicado. Esta consideração deveria bastar para produzir na

mente de todo o cristão uma santa atitude de precaução, a fim de

evitar que, por qualquer golpe rude, ele possa prejudicar a beleza

da superestrutura. Cada pedra deve ser deixada no seu lugar

divinamente marcado; e a verdade acerca da Pessoa de Cristo é

incontestavelmente a pedra principal da abóbada.


b) A Flor de Farinha sobre a qual "deitarás azeite"


Havendo procurado assim descrever a verdade simbolizada

pela "flor de farinha

amassada com azeite", podemos considerar


outro ponto de grande interesse na expressão "e

sobre ela deitarás


azeite". Nisto temos uma figura da unção do Senhor Jesus Cristo

pelo Espírito Santo. O corpo do Senhor Jesus não foi apenas

preparado misteriosamente pelo Espírito Santo, como foi ungido,

como vaso santo e puro, para o serviço pelo mesmo poder. "E

aconteceu que, como todo o povo se batizava, sendo batizado

também Jesus, orando ele, o céu se abriu e o Espírito Santo

desceu sobre ele, em forma corpórea, como uma pomba; e ouviuse

uma voz do céu que dizia: Tu és o meu Filho amado; em ti me

tenho comprazido" (1x2:21-22).

O fato de o Senhor Jesus ter sido ungido pelo Espírito Santo

antes da Sua entrada no ministério público é, praticamente, da

máxima importância para todo aquele que deseja realmente ser

verdadeiro e eficiente servo de Deus. Embora concebido quanto à

Sua humanidade pelo Espírito Santo; posto que na Sua Própria

Pessoa fosse "Deus manifestado em carne"; se bem que a

plenitude da Divindade habitasse corporalmente n'Ele; contudo, é

bom notar que, quando se manifesta como homem, para fazer a

vontade de Deus na terra, qualquer que fosse essa vontade, quer

pregando o evangelho, ou ensinando nas sinagogas, quer curando

os enfermos ou purificando os leprosos, quer expulsando os

demônios, alimentando os famintos ou ressuscitando os mortos,

fez tudo pelo Espírito Santo. O vaso santo e celestial em que

aprouve ao Deus Filho aparecer no mundo foi formado, ungido e

dirigido pelo Espírito Santo.

Que profunda e santa lição para nós! Uma lição tão

necessária como salutar! Quão propensos somos a correr sem

sermos enviados! Quão propensos a atuar na energia da carne!

Quanto daquilo que se parece com ministério não é somente

atividade inquieta e profana de uma natureza que nunca foi

medida nem julgada na presença divina! Na realidade, nós

precisamos de contemplar atentamente a nossa divina "oferta de

manjares" para compreendermos melhor o significado da "flor de

farinha amassada com azeite". Precisamos de meditar

profundamente sobre o próprio Cristo, que, apesar de possuir, na

Sua própria pessoa, poder divino, contudo, fez toda a Sua obra,

operou todos os Seus milagres, e, finalmente, "ofereceu-se a si

mesmo imaculado a Deus pelo Espírito eterno" (Hb 9:14). Ele

podia dizer "eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus" (Mt

12:28).

Nada tem qualquer valor senão aquilo que é realizado pelo

poder do Espírito Santo. Um homem pode escrever; porém se a

sua pena não for guiada e usada pelo Espírito Santo, as suas

linhas não produzirão resultados permanentes. Um homem pode

falar; mas se os lábios não forem ungidos pelo Espírito Santo, as

suas palavras não criarão raízes. Isto merece a nossa solene

consideração, e, se for devidamente ponderado, levar-nos-á a

muita vigilância sobre nós próprios e a uma dependência fervorosa

do Espírito Santo. O que precisamos é despojarmo-nos

inteiramente do ego, a fim de haver lugar para o Espírito agir por

nosso intermédio. E impossível que um homem cheio de si mesmo

possa ser o vaso do Espírito Santo. Um tal homem deve primeiro

despojar-se de si mesmo, e então o Espírito Santo pode usá-lo.

Quando contemplamos a Pessoa e o ministério do Senhor Jesus,

vemos como em todas as cenas e circunstâncias, atua pelo poder

direto do Espírito Santo. Havendo tomado o Seu lugar, como

homem, no mundo, mostrou que o homem deve viver não somente

da Palavra mas atuar pelo Espírito de Deus. Ainda que, como

homem, a Sua vontade era perfeita — os Seus pensamentos, as

Suas palavras e as Suas obras eram em tudo perfeitas —, contudo

não atuava senão pela direta autoridade da Palavra e pelo poder

do Espírito Santo. Oh! se nisto, como em tudo mais, nós

pudéssemos seguir mais de perto e fielmente nas Suas pisadas!

Então o nosso ministério seria verdadeiramente eficaz, o nosso

testemunho mais fecundo e toda a nossa vida para glória de Deus.


c) O Incenso


Outro ingrediente da oferta de manjares, que requer a nossa

atenção, é "o incenso". Como tivemos ocasião de verificar, a oferta

de manjares era à base de "flor de farinha". O "azeite" e "o incenso"

eram os dois principais ingredientes acrescentados; e, na

realidade, a relação entre estes dois é muito instrutiva. O "azeite"

simboliza

o poder do ministério de Cristo; "o incenso" simboliza o


seu

objetivo. O primeiro ensina-nos que Ele fez tudo pelo Espírito


de Deus; o último que fez tudo para glória de Deus.

O incenso representa aquilo que na vida de Cristo era

exclusivamente para Deus. Isto é evidente pelo segundo versículo:

"E a trará (a oferta de manjares) aos filhos de Arão, os sacerdotes,

um dos quais tomará dela um punhado da flor de farinha e do seu

azeite com

todo o seu incenso; e o sacerdote queimará este


memorial sobre o altar; oferta queimada é; de cheiro suave ao

S

ENHOR". Assim era a verdadeira oferta de manjares — o Homem


Cristo Jesus. Em Sua vida bendita havia o que era exclusivamente

para Deus. Cada pensamento, cada palavra, cada olhar, cada ato

Seu exalava um perfume que subia diretamente para Deus. E

assim como o símbolo era "o fogo do altar" que fazia sair o cheiro

suave do incenso, assim no Antítipo quanto mais "provado" era,

em todas as cenas e circunstâncias da Sua bendita vida, tanto

mais manifesto se tornava que, na Sua humanidade, não havia

nada que não pudesse subir, como cheiro suave, ao trono de

Deus. Se no holocausto vemos Cristo "oferecendo-se a si mesmo

imaculado a Deus", na oferta de manjares vêmo-Lo apresentar a

Deus toda a excelência intrínseca da Sua natureza humana e

perfeita atividade. Um homem perfeito, vazio de si, obediente, na

terra, fazendo a vontade de Deus, agindo pela autoridade da

Palavra e mediante o poder do Espírito, exalava um perfume suave

que só podia ter aceitação divina. O fato de todo "o incenso" ser

consumido sobre o altar revela a sua importância da maneira

mais simples.


d) O Sal


Agora só nos falta considerar um ingrediente que fazia parte

da oferta de manjares, a saber,

"o sal". "E toda a oferta dos teus


manjares salgarás com sal; e não deixarás faltar à tua oferta de

manjares o sal do concerto do teu Deus; em toda a tua oferta

oferecerás sal". A expressão "o sal do concerto" revela o caráter

permanente desse concerto. Deus Mesmo tem ordenado assim o

seu emprego em todas as coisas para que nunca haja alteração —

nenhuma influência poderá corrompê-lo. Sob o ponto de vista

espiritual e prático, é impossível dar demasiado apreço a um tal

ingrediente. "A vossa palavra seja sempre agradável, temperada


com sal"

(Cl 4:6). Em todas as conversas, o Homem perfeito


mostrava sempre o poder deste princípio. As Suas palavras não

eram simplesmente palavras de graça, mas palavras de penetrante

poder—palavras divinamente adaptadas para preservar de toda a

mancha e influência corrupta. Nunca pronunciou uma palavra

que não fosse perfumada com "incenso" e "temperada com sal". O

primeiro era de todo agradável a Deus; o último, o mais proveitoso

para o homem.

Às vezes, infelizmente, o coração corrompido do homem e o

seu gosto viciado não podiam tolerar a acidez da oferta de

manjares salgada por determinação divina. Observemos, por

exemplo, a cena na sinagoga de Nazaré (Lc 4:16-29). O povo podia

dar-lhe testemunho e "todos... se maravilham das

palavras de


graça

que saíam da sua boca"; mas logo que passou a temperar


essas palavras com

sal, que tão necessário era a fim de os


preservar da influência corruptível do seu orgulho nacional, eles

de boa vontade O teriam precipitado do cume do monte em que a

sua cidade estava edificada.

Assim também em Lucas 14, logo que as Suas palavras de

"graça" atraíram "grandes multidões", Ele deitou-lhes

imediatamente o "sal" ao anunciar em palavras de santa fidelidade

os resultados seguros de O seguirem. "Vinde, que já tudo está

preparado". Aqui estava a "graça". Mas logo em seguida diz:

Qualquer de vós que não renunciar a tudo quanto tem não poder

ser meu discípulo. Aqui estava o "sal". A graça é atrativa; mas "o

sal é bom". Um discurso agradável pode ser popular; mas um

discurso temperado com sal nunca o será. A multidão pode, em

certas ocasiões e sob determinadas circunstâncias, seguir por um

pouco de tempo o puro evangelho da graça de Deus; mas logo que

o "sal" de uma aplicação fervorosa e fiel é introduzido, o auditório

é reduzido ao número daqueles que foram trazidos sob o poder da

Palavra.


Os Ingredientes Excluídos da Oferta de Manjares

a) O Fermento


Havendo assim considerado os ingredientes que compunham

a oferta de manjares, referiremos agora os que eram excluídos

dela.

Destes, o primeiro era "o fermento". "Nenhuma oferta de

manjares, que oferecerdes ao S

ENHOR, se fará com fermento". Por


todo o volume inspirado, sem uma única exceção, o fermento é o

símbolo do

mal. Em capítulo 23 de Levítico, que examinaremos na


devida altura, vemos que o fermento era permitido nos dois pães

que eram oferecidos no dia de Pentecostes (versículo 17); porém,

da oferta de manjares, o fermento era cuidadosamente excluído.

Não devia haver nada que azedasse, nada que fizesse levantar a

massa, nada expressivo do mal naquilo que simbolizava "o Homem

Cristo Jesus". N'Ele não podia haver nada com gosto ao azedume

da natureza, nada turvo, nada susceptível de fazer inchar. Tudo

era puro, sólido e genuíno. A Sua palavra podia, por vezes, ferir

até ao vivo; mas nunca era áspera. O Seu estilo nunca se elevou

acima das ocasiões. O Seu comportamento mostrou sempre a

profunda realidade de quem andava na presença imediata de

Deus.

Nós que professamos o nome de Jesus, sabemos muito bem

como, infelizmente, o fermento se mostra em todas as suas

propriedades e efeitos. Só houve uma gabela pura de fruto

humano — uma única oferta de manjares perfeitamente sem

levedura; e, bendito seja Deus, essa é a nossa — para nos

alimentarmos dela no santuário da presença divina, em

comunhão com Deus. Nenhum exercício espiritual pode realmente

edificar melhor e dar maior refrigério à mente renovada do que

firmarmo-nos sobre a perfeição incontaminável da humanidade de

Cristo — para contemplar a vida e o mistério d'Aquele que foi

absoluta e essencialmente sem levedura. Em toda a origem dos

Seus pensamentos, afeições, desejos e imaginação não havia a

mínima partícula de fermento. Ele foi o Homem perfeito, sem

pecado e imaculado. E quanto mais, no poder do Espírito,

aprofundarmos tudo isto, tanto mais profunda será a nossa

experiência da graça que levou este perfeito Senhor a tomar sobre

Si todas as conseqüências dos pecados do Seu povo, como fez

quando foi pendurado na cruz. Porém, este pensamento pertence

inteiramente ao sacrifício de nosso bendito Senhor, simbolizado na

expiação do pecado. Na oferta de manjares, o pecado não está em

questão. Não é uma figura da expiação do pecado por um

substituto, mas de um Homem real, perfeito, imaculado,

concebido e ungido pelo Espírito Santo, possuindo uma natureza

sem fermento e vivendo uma vida isenta de levedura no mundo;

exalando sempre perante Deus a fragrância da Sua excelência

pessoal e mantendo entre os homens um comportamento

caracterizado pela "graça temperada com sal".


b) O Mel


Porém, havia outro ingrediente tão claramente excluído da

oferta de manjares quanto o "fermento", e este era o "mel". "Porque

de nenhum fermento,

nem de mel algum oferecereis oferta


queimada ao S

ENHOR" (versículo 11). Portanto, assim como o


"fermento" é a expressão daquilo que é positiva e manifestamente


mau

na natureza, podemos considerar o "mel" como o símbolo


expressivo do que é aparentemente

doce e atrativo. Ambos são


proibidos por Deus — ambos eram cuidadosamente excluídos da

oferta de manjares —, ambos impróprios para o altar. Os homens

podem aventurar-se, como Saul, a distinguir entre o que é "vil e

desprezível" (1 Sm 15:9) e o que não é: porém o juízo de Deus

conta o polido Agaque com o mais vil dos filhos de Amaleque. Não

há dúvida que existem boas qualidades morais no homem, que

devem ser consideradas pelo seu valor. "Achaste mel come o que

te basta". Mas recorde-se que não era admitido na oferta de

manjares nem no seu Antítipo. Havia a plenitude do Espírito

Santo; havia o fragrante odor do incenso; havia a virtude

preservativa do "sal do concerto". Todas estas coisas

acompanhavam a "flor de farinha" na Pessoa da verdadeira "oferta

de manjares"; mas nenhum mel.

Que lição se encontra aqui para os nossos corações! Sim,

que volume de sã instrução! O bendito Senhor Jesus sabia como

dar à natureza e às suas relações o lugar próprio. Sabia a

quantidade de "mel"

que era conveniente; podia dizer a Sua mãe:


"Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai" E

todavia podia dizer também ao discípulo amado: "Eis aí tua mãe".

Por outras palavras, nunca permitiu que as pretensões da

natureza interferissem com a apresentação a Deus de todas as

energias da perfeita humanidade de Cristo. Maria e outros

também podiam ter pensado que as suas relações humanas com o

bendito Senhor lhes dava algum direito ou influência peculiar com

base em motivos puramente naturais.

"Chegaram, então, seus irmãos e sua mãe; e, estando de

fora, mandaram-no chamar. E a multidão estava assentada ao

redor dele, e disseram-lhe: Eis que tua mãe e teus irmãos

(segundo a carne) te procuram e estão lá fora" (Mc 3:31-32).

Qual foi a resposta de Aquele que a oferta de manjares

simbolizava em Sua perfeição? Abandonou Ele imediatamente a

Sua missão a fim de atender a chamada da natureza? De modo

nenhum. Se o tivesse feito, teria sido a mesma coisa que misturar

"mel" com a oferta de manjares, o que não podia ser permitido. O

mel foi fielmente excluído nesta ocasião, assim como em todas as

ocasiões em que os direitos de Deus deviam ser atendidos, e, em

seu lugar, o poder do Espírito, o odor do "incenso" e as virtudes do

"sal" foram ditosamente patenteados. "E ele lhes respondeu,

dizendo: Quem é minha mãe e meus irmãos? E, olhando em redor

para os que estavam assentados junto dele disse: Eis aqui minha

mãe e meus irmãos. Porquanto qualquer que fizer a vontade de

Deus, esse é meu irmão, e minha irmã, e minha mãe" (') (Mc 3:33-

35).

Há poucas coisas que o servo de Cristo encontra mais

difíceis do que harmonizar, com precisão espiritual, as pretenções

das relações naturais, de forma a não as deixar interferir com os

direitos do Mestre. No caso do nosso bendito Senhor, como bem

sabemos, este ajustamento era divino. No nosso caso, acontece

freqüentemente que os deveres divinamente reconhecidos são

abertamente negligenciados para dar lugar àquilo que imaginamos

ser o serviço de Cristo. A doutrina de Deus é constantemente

sacrificada à obra aparente do evangelho. Porquanto é bom

lembrar que a verdadeira dedicação parte sempre de um ponto em

volta do qual estão inteiramente asseguradas todas as

reivindicações de Deus. Se eu tenho uma colocação que requer os

meus serviços desde as dez às dezesseis horas todos os dias, não

tenho o direito de sair para fazer visitas ou pregar durante aquelas

horas. Se estou estabelecido, sou forçado a manter a integridade

desse negócio de uma maneira cristã. Não tenho o direito de correr

para lá e para cá para pregar, enquanto o meu negócio fica

abandonado e em desordem, trazendo vergonha sobre a santa

doutrina de Deus. Um homem pode dizer: "eu sinto-me chamado

para pregar o evangelho e acho que o meu emprego ou negócio é

um embaraço". Bem, se es

divinamente chamado e apto para a


obra do evangelho e não podes conciliar as duas coisas, então

renuncia à tua colocação ou liquida o teu negócio de uma maneira

cristã e parte em nome do Senhor. Mas, claro, enquanto eu

continuar no meu emprego ou mantiver o meu negócio, o meu

trabalho no evangelho deve partir de um ponto no qual os meus

deveres nessa ocupação ou nesse negócio são inteiramente cumpridos.

Isto é consagração. Tudo o mais é confusão, por mais bem

intencionado. Bendito seja Deus, temos um exemplo perfeito

perante nós na vida do Senhor Jesus e ampla direção para o novo

homem, na Palavra de Deus; de forma que não há razão para

cometermos erros nas diversas responsabilidades que formos

chamados, na providência de Deus, a desempenhar ou quanto aos

vários deveres que o governo moral de Deus tem estabelecido em

relação com tais responsabilidades.

____________________


(
1) Quão importante é vermos nesta magnífica passagem que fazer a

vontade de Deus põe a alma num parentesco com Cristo do qual os Seus irmãos

segundo a carne nada sabiam, pois não se baseia em laços naturais. Era tão

verdadeiro a respeito daqueles irmãos como a respeito de outra qualquer

pessoa, que "aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus".

Maria não podia ter sido salva pelo simples fato de ser a mãe de Jesus. Ela

precisa ter fé pessoal em Cristo como qualquer outro membro da família decaída

de Adão. Precisa de passar por meio do novo nascimento da velha criação para

a nova. Foi por ter entesourado as palavras de Cristo em seu coração que esta

bem-aventurada mulher foi salva. Não há dúvida que ela foi especialmente

agraciada por ter sido escolhida como um vaso para tão santa missão, mas,

como qualquer pecador, ela precisava de "alegrar-se em Deus, seu Salvador".

Ela permanece no mesmo plano, está lavada no mesmo sangue, vestida com as

mesmas vestes de justiça e entoará o mesmo cântico como todos os remidos de

Deus.

Este simples fato dará força adicional e clareza a um ponto que foi já

frisado, a saber: que a encarnação não significou Cristo tomar a nossa natureza

em união consigo. Esta verdade deve ser escrupulosamente ponderada. E

inteiramente apresentada em 2 Coríntios 5: "Porque o amor de Cristo nos

constrange, julgando nós assim: que, se um morreu, logo, todos morreram. E ele

morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para

aquele que por eles morreu e ressuscitou. Assim que, daqui por diante, a

ninguém conhecemos segundo a carne, e, ainda que também tenhamos

conhecido Cristo segundo a carne, contudo, agora; já não o conhecemos desse

modo. Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já

passaram, eis que tudo se fez novo" (versículos 14-17).


A Oferta de Manjares em suas diversas Formas


O segundo ponto do nosso assunto é a forma como era

preparada a oferta de manjares. Isto era feito, como lemos, pela

ação do fogo. Era "cozida no forno", "cozida na caçoula" ou frita

numa "sertã". O processo de cozedura sugere a idéia de

sofrimento. Mas visto que a oferta de manjares é chamada de

"cheiro suave" — um termo que nunca é aplicado à expiação do

pecado ou expiação da culpa — é evidente que há qualquer

relação com o sofrimento do pecado — não sugere o sofrimento

sob a ira de Deus devido ao pecado, nem o sofrimento às mãos da

Justiça infinita com substituto do pecador. As duas idéias de

"cheiro suave" e sofrimento pelo pecado são inteiramente

incompatíveis, segundo a ordem da dispensação levítica. Se

introduzíssemos a idéia do sofrimento pelo pecado na oferta de

manjares, destruiríamos totalmente o seu símbolo.

Ao contemplarmos a vida do Senhor Jesus, que, como já

frisamos, é o principal assunto prefigurado na oferta de manjares,

podemos notar três espécies distintas de sofrimento, a saber:

sofrimento por amor da justiça, sofrimento em virtude da

simpatia, e o sofrimento por antecipação.

a

) Sofrimento por Amor da Justiça


Como Servo justo de Deus, Ele sofreu no meio de uma cena

em que tudo Lhe era adverso; contudo isto era justamente o

oposto do sofrimento pelo pecado. É da máxima importância

distinguir entre estas duas espécies de sofrimento. Confundi-las

conduzir-nos-ia a erros graves. Sofrer com um justo e manter uma

atitude firme entre os homens a favor de Deus é uma coisa; sofrer

em lugar do homem sob a mão de Deus é outra muito diferente. O

Senhor Jesus sofreu por amor da justiça, durante a Sua

vida.


Sofreu pelo pecado, na Sua

morte. Durante a Sua vida os homens


e Satanás sempre se Lhe opuseram; e até mesmo na cruz

empregaram todo o poder de que dispunham; mas depois de ter

sido feito tudo que podiam fazer— depois de haverem chegado, no

seu ódio mortal, ao limite da oposição humana e diabólica —

restava ainda uma região afastada de sombras impenetráveis e

horror que tinha de ser percorrida por Aquele que levava sobre Si

o pecado, no cumprimento da Sua obra. Durante a Sua vida, Ele

sempre andou na luz límpida do semblante divino! Porém, sobre a

cruz de maldição a sombra negra do pecado interveio e ocultou

essa luz e provocou esse brado misterioso:

"Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?" Foi um

momento absolutamente único nos anais da eternidade. De vez

em quando, durante a vida de Cristo na terra, o céu abriu-se para

dar expressão à complacência divina n'Ele; mas na cruz Deus

desamparou-O, porque Ele estava oferecendo a Sua alma em

sacrifício pelo pecado. Se Cristo tivesse carregado com o pecado

em toda a Sua vida, então qual seria a diferença entre a cruz e

qualquer outro período

1? Por que razão não foi Ele desamparado


por Deus durante toda a Sua vida? Qual foi a diferença entre

Cristo na cruz e Cristo no monte da transfiguração? Foi

desamparado de Deus nesse monte

1?- Estaria Ele ali carregando


com o pecado"? Estas interrogações são muito simples, mas que

dêem a resposta aqueles que alimentam a idéia de uma vida com o

peso do pecado.

O fato simples é este, não houve nada quer na humanidade

de Cristo, quer na natureza das Suas relações, que pudesse, de

modo algum, relacioná-Lo com o pecado ou a ira ou a morte. Ele

"foi feito pecado" na cruz; e ali suportou a ira de Deus e deu a Sua

vida, como perfeita expiação pelo pecado. Porém, nada disto

encontra lugar na oferta de manjares. Na realidade, temos o

processo de cozedura — a ação do fogo —; mas isto não é a ira de

Deus. A oferta de manjares não era uma oferta pelo pecado, mas

uma oferta de "cheiro suave". Assim, a sua importância está

definitivamente estabelecida; e, além disso, a sua inteligente

interpretação deve sempre preservar, com santo zelo, a verdade

preciosa da humanidade imaculada de Cristo e verdadeira

natureza das Suas relações. Dizer que Ele, por necessidade do Seu

nascimento, teve de carregar com o pecado, ou colocá-Lo, por esse

motivo, debaixo da maldição da lei e da ira de Deus, é contradizer

toda a verdade de Deus respeitante à encarnação — verdade

anunciada pelo anjo e repetida diversas vezes pelo apóstolo

inspirado. Além disso, tal afirmação destrói todo o caráter e

objetivo da vida de Cristo e rouba à cruz a sua glória

característica. Diminui a significação do pecado e da expiação.

Numa palavra, remove a pedra principal do arco da revelação e

põe tudo em irremediável ruína e confusão em redor de nós.


b) Sofrimento em Virtude da Simpatia


O Senhor Jesus também sofreu em virtude da simpatia — da

compaixão —; e este gênero de sofrimento nos faz penetrar nos

segredos profundos do Seu terno coração. A dor humana e a

miséria sempre impressionaram esse coração de amor. Era

impossível que esse perfeito coração humano não sentisse com a

sua sensibilidade divina as misérias que o pecado havia

transmitido à família humana. Embora livre, pessoalmente, tanto

da causa como do efeito— pertencendo, embora ao céu, e vivendo

uma perfeita vida celestial na terra, contudo, desceu no poder de

uma imensa compaixão aos mais profundos recessos da dor

humana. Assim, Ele sentiu a dor mais vivamente do que aqueles

que eram vítimas dela, porquanto a Sua humanidade era perfeita.

E, além disso, pôde contemplar tanto a dor como a sua causa,

segundo a sua própria medida e caráter perante Deus. Sentia

como ninguém jamais pôde sentir. Os Seus sentimentos — as

Suas afeições, a Sua sensibilidade e simpatia— toda a Sua

constituição moral e mental eram perfeitos; e, por isso, ninguém

pode dizer quanto sofreu ao passar por um mundo como este. Viu

lutar a família humana sob o peso grave da culpa e miséria;

observou como toda a criação gemia debaixo do jugo; o clamor dos

cativos chegava aos Seus ouvidos; as lágrimas das viúvas

saltavam aos Seus olhos; as privações e a pobreza comoviam o

Seu coração sensível; perante a doença e a morte "moveu-se muito

em espírito; os Seus sofrimentos em virtude de simpatia excediam

todo o entendimento humano.

Transcrevo a seguir uma passagem ilustrativa do caráter do

sofrimento a que nos referimos. "E, chegada a tarde, trouxeramlhe

muitos endemoninhados, e ele, com a sua palavra, expulsou

deles os espíritos e curou todos os que estavam enfermos, para

que se cumprisse o que fora dito pelo profeta Isaías, que diz:

"Ele


tomou sobre si as nossas enfermidades e levou as nossas doenças"


(Mt 8:16-17). Isto era verdadeira compaixão — o poder de

interesse comum, que n'Ele era perfeito. Não havia n'Ele

enfermidades ou fraquezas. Essas coisas de que, por vezes, se fala

como de "fraquezas inocentes", no Seu caso, eram apenas provas

de uma real, verdadeira e perfeita humanidade. Porém, por

compaixão — por um perfeito interesse comum — "Ele tomou

sobre si as nossas enfermidades e levou as nossas doenças" (Mt

8:17). Só um homem absolutamente perfeito podia ter feito isto.

Nós podemos simpatizar com os outros: mas só Jesus podia

tornar Suas as enfermidades e fraquezas humanas.

Logo, houvesse Ele tomado todas estas dores em virtude do

Seu nascimento ou das Suas relações com Israel, e a família

humana, nós teríamos perdido toda a beleza e preciosidade da

Sua voluntária simpatia. Não podia haver lugar para ação

voluntária se a necessidade absoluta lhe tivesse sido imposta.

Mas, por outro lado, quando vemos a Sua inteira liberdade, tanto

pessoal como relativamente, da miséria humana e daquilo que a

produz, podemos compreender aquela perfeita graça e compaixão

que O levou a "tomar sobre si as nossas enfermidades e levar as

nossas doenças" no poder de verdadeira simpatia. Existe,

portanto, uma manifesta diferença entre os sofrimentos de Cristo

por voluntária simpatia com as misérias humanas e os Seus

sofrimentos como substituto do pecador. Os primeiros são

manifestos ao longo de toda a Sua

vida; os últimos são restrigidos


à Sua

morte.


c) Sofrimento por Antecipação


Finalmente, temos de considerar os sofrimentos de Cristo

por antecipação. Vemos a sombra tétrica da cruz projetar-se sobre

o Seu caminho e produzir uma ordem aguda de sofrimento, que,

não obstante, deve distinguir-se com tanta precisão do Seu

sofrimento expiatório como o Seu sofrimento por amor da justiça

se distingue do Seu sofrimento por simpatia. Tomemos como

exemplo de prova uma ou duas passagens.

"E, saindo, foi, como costumava, para o monte das Oliveiras;

e também os seus discípulos o seguiram. E, quando chegou

àquele lugar, disse-lhes: Orai, para que não entreis em tentação. E

apartou-se deles cerca de um tiro de pedra; e, pondo-se de joelhos,

orava, dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice, todavia

não se faça a minha vontade, mas a tua. E apareceu-lhe um anjo

do céu, que o confortava. E, posto em agonia, orava mais

intensamente. E o seu suor tornou-se em grandes gotas de sangue

que corriam até ao chão" (Lc 22:39-44). "E, levando Pedro e os

dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se

muito. Então lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até à

morte; ficai aqui e velai comigo... E

; indo segunda vez, orou,


dizendo: Meu pai, se este cálice não pode passar de mim sem eu o

beber, faça-se a tua vontade" (Mt 26:37-42).

Da leitura destes versículos é evidente que havia qualquer

coisa em perspectiva que o bendito Senhor nunca havia

encontrado antes. Estava sendo cheio um "cálice" para Si do qual

nunca tinha bebido. Se tivesse carregado com o pecado durante

toda a Sua vida, qual a razão dessa intensa agonia ante o

pensamento de entrar em contato com o pecado e ter de suportar

a ira de Deus devido ao pecado? Que diferença havia entre Cristo

no Gêtsemani e Cristo no Calvário, se Ele carregou com o pecado

toda a Sua vida? Existiu uma diferença essencial! Mas foi porque

Ele não carregou com o pecado durante toda a Sua vida. Qual é,

logo, a diferença? No Gêtsemani Ele estava

antecipando a cruz! No


Calvário,

suportava-a. No Gêtsemani "Apareceu-lhe um anjo do


céu que o confortava"; no Calvário foi desamparado por todos. Não

houve ali ministério dos anjos. No Gêtsemani dirigiu-se a Deus

como

"Pai", gozando assim a comunhão desse inefável parentesco;


mas no Calvário clama:

"Deus meu, Deus meu, porque me


desamparaste?" Aqui Aquele que leva sobre Si o pecado olha para

cima e vê o trono da Justiça eterna envolvo em nuvens carregadas

e o semblante da santidade inflexível desviado d'Ele porque estava

sendo "feito pecado por nós".

O leitor não terá dificuldade em prosseguir este assunto por

si mesmo. Poderá traçar pormenorizadamente as três espécies de

sofrimento da

vida de nosso bendito Senhor e fazer distinção entre


eles e os sofrimentos da Sua

morte — os Seus sofrimentos pelo


pecado. Verá como, depois de os homens e Satanás terem feito o

pior que podiam restava ainda uma espécie do sofrimento que era

perfeitamente único no seu gênero, ou seja, às mãos de Deus, por

causa do pecado — o sofrimento como substituto do pecador.

Antes de chegar à cruz, Ele podia olhar para cima e alegrar-se na

luz clara do rosto de Seu Pai. Nas horas mais sombrias sempre

encontrara um auxílio certo nas alturas. O caminho que trilhava

na terra era escabroso. Como poderia ser de outra maneira num

mundo onde tudo estava em oposição direta à Sua natureza santa

e pura? Ele teve de suportar a "contradição dos pecadores contra

Si mesmo". Teve de suportar a afronta dos que se opunham a

Deus. O que não teve Ele de suportara Foi mal compreendido, mal

interpretado, injuriado, difamado, acusado de estar fora de Si e de

ter demônio. Foi traído, negado, abandonado, escarnecido,

esbofeteado, cuspido, coroado de espinhos, expulso, condenado e

cravado entre dois malfeitores. Todas estas coisas Ele sofreu às

mãos dos homens juntamente com os terrores indizíveis com que

Satanás atormentou o Seu espírito; mas, deixai-me repetir mais

uma vez e com ênfase, depois de os homens e Satanás terem

esgotado o seu poder e inimizade o nosso bendito Senhor e

Salvador tinha de suportar alguma coisa comparada com a qual

tudo o mais era como nada, e isto era a ocultação da face de Deus

— as três horas de trevas e terrível escuridão, durante as quais

sofreu aquilo que ninguém senão Deus pode conhecer.

Ora, quando a Escritura fala de termos comunhão com os

sofrimentos de Cristo, refere-se, simplesmente, aos Seus sofrimentos

por amor da justiça — aos Seus sofrimentos às mãos dos

homens. Cristo sofreu pelo pecado, para que nós não tivéssemos

de sofrer por ele. Sofreu a ira de Deus, para que nós não

tivéssemos de sofrê-la. Este é o fundamento da nossa paz. Mas

pelo que respeita aos sofrimentos infligidos pelos homens,

descobrimos sempre que quanto mais fielmente seguirmos as

pisadas de Cristo, mais sofreremos nesse sentido; porém, isto é

um assunto de privilégio, uma mercê, uma honra (veja-se Fp 1:29-

30). Andar nos passos de Cristo — gozar da Sua companhia, ter

parte na Sua simpatia, são privilégios dos mais elevados. Quão

bom seria que todos nós os aproveitássemos melhor! Mas,

infelizmente, contentamo-nos em passar sem eles — contentamonos,

à semelhança de Pedro, em "seguir de longe" — de nos

mantermos à distância do Cristo desprezado e sofredor. Tudo isto

é, indubitavelmente, um grande privilégio. Tivéssemos nós apenas

um pouco mais de comunhão com os Seus sofrimentos, e a nossa

coroa resplandeceria com maior brilho na visão da nossa alma.

Quando fugimos aos sofrimentos de Cristo privamo-nos da profunda

alegria da Sua companhia e também do poder moral da

esperança da Sua glória futura.


A Parte dos Sacerdotes


Havendo examinado os ingredientes que compunham a

oferta de manjares e as diversas formas em que era oferecida, só

nos resta aludir às pessoas que participam dela. Estas eram o

chefe e os membros da família sacerdotal. "E o que sobejar da

oferta de manjares será de Arão e de seus filhos; coisa santíssima

é, de ofertas queimadas ao S

ENHOR" (versículos3e 10). Assim como


o holocausto, como já frisamos, os filhos de Arão são apresentados

como figuras de todos os verdadeiros crentes, não como pecadores

convictos, mas como sacerdotes em adoração, assim na oferta de

manjares encontramo-los alimentando-se do que sobejava daquilo

que havia sido posto, por assim dizer, sobre a mesa do Deus de

Israel. Isto era um elevado e santo privilégio. Ninguém senão os

sacerdotes podia usufruí-lo. E o que está estabelecido, com grande

clareza, na "Lei da oferta de manjares", que passamos a reproduzir

por completo. "E esta é a lei da oferta de manjares: um dos filhos

de Arão a oferecerá perante o S

ENHOR diante do altar. E tomará o


seu punho cheio da flor de farinha da oferta e do seu azeite e

todo


o incenso

que estiver sobre a oferta de manjares; então, o


queimará sobre o altar; cheiro suave é isso, por ser memorial ao

S

ENHOR. E O restante, dela comerão Arão e seus filhos: asmo se


comerá

no lugar santo; no pátio da tenda da congregação o


comerão. Levedado não se cozerá; sua porção é que lhes dei das

minhas ofertas queimadas; coisa santíssima é, como a expiação do

pecado e como a expiação da culpa.

Todo o varão entre os filhos de


Arão comerá dela estatuto perpétuo será para as vossas gerações

das ofertas queimadas do S

ENHOR; tudo o que tocar nelas será


santo"

(Lv6:14-18).


Aqui, pois, é-nos dada uma bela figura da Igreja

alimentando-se no "lugar santo", no poder da santidade prática,

das perfeições do "Homem Cristo Jesus". Esta é a nossa porção

por meio da graça de Deus; mas temos de lembrar que é para ser

comida com pão "asmo". Não podemos alimentar-nos de Cristo se

estamos condescendendo com o mal. "Tudo que tocar nela será

santo". Além disso, deve comer-se "no lugar santo". A nossa

posição, os nossos costumes, as nossas pessoas, as nossas

relações, devem ser santos, antes de podermos alimentar-nos da

oferta de manjares. Finalmente, lemos que "todo o varão entre os

filhos de Arão comerá dela". Quer dizer, é necessário verdadeira

energia sacerdotal, segundo o pensamento divino a seu respeito,

para se apreciar esta santa porção "Os

filhos de Arão" realçam a


idéia

de energia na ação sacerdotal. As suas "filhas" representam


debilidade

nessa mesma ação (veja Nm 18:8-13). Havia algumas


coisas que os filhos podiam comer e que as filhas não podiam. Os

nossos corações deveriam desejar ardentemente a medida mais

elevada de energia sacerdotal, a fim de podermos desempenhar as

mais elevadas funções sacerdotais e participar da ordem mais

elevada do alimento sacerdotal.

Em conclusão, devo acrescentar que, visto que somos feitos,

mediante a graça, "participantes da natureza divina", podemos, se

vivermos na energia dessa natureza, seguir as pisadas d Aquele

que é prefigurado na oferta de manjares. Se nos despojarmos do

ego, cada um dos nossos atos poderá emitir um cheiro suave para

Deus. Os mais insignificantes assim como os mais importantes

serviços podem, pelo poder do Espírito Santo, representar o bom

perfume de Cristo.

Fazer uma visita, escrever uma carta, exercer o ministério

público da Palavra, dar um copo de água fria a um discípulo do

Senhor ou uma moeda a um pobre, sim, até os atos vulgares de

comer e beber, podem todos exalar o perfume suave do nome e

graça de Jesus.

Assim também se tão-somente a natureza for mantida no

lugar da morte, poderá manifestar-se em nós o que não é

corruptível, até a própria conversação temperada com o "sal" da

permanente comunhão com Deus. Porém, falhamos e faltamos em

todas estas coisas. Entristecemos o Espírito de Deus na nossa

linha de conduta. Somos propensos a ser egoístas ou a procurar

os louvores dos homens nos nossos melhores serviços, e assim

deixamos de "temperar" a nossa conversação. Daí, a nossa

deficiência em "azeite", "incenso" e o "sal"; enquanto que, ao

mesmo tempo, existe a tendência para alterar o "fermento" e

permitir que se manifeste "o mel" da natureza. Só houve uma

"oferta de manjares" perfeita; e, bendito seja Deus, estamos

aceites n'Ele. Somos

filhos do verdadeiro Arão; o nosso lugar é no


santuário, onde podemos alimentar-nos com a santa porção.

Lugar ditoso! Ditosa porção! Possamos nós apreciá-la mais do que

o temos feito! Que os nossos corações estejam mais

desinteressados pelo mundo e aprofundados em Cristo. Que os

nossos olhos estejam tão fixos n'Ele, que não haja lugar em nós

para os atrativos da cena que nos rodeia nem tão-pouco para as

mil e uma circunstâncias mesquinhas da nossa vida, que

perturbam o coração e embaraçam a mente.

Regozijemo-nos em Cristo, tanto à luz brilhante do sol como

nas trevas; quando a brisa suave do verão se faz sentir à nossa

volta, e quando rugem as tempestades do inverno ao longe;

quando vagamos sobre a superfície de um tranqüilo lago, ou

somos sacudidos sobre o mar encapelado. Graças a Deus!

"Achamos aquele" que será para sempre a nossa porção

abundante. Passaremos a eternidade contemplando as perfeições

divinas do Senhor Jesus. Os nossos olhos nunca mais serão

desviados d'Ele, uma vez que o tivermos visto tal qual Ele é.

Que o Espírito Santo possa operar poderosamente em nós

para nos fortalecer "no homem interior". Que Ele nos habilite a

alimentarmo-nos com a perfeita oferta de manjares, com cujo

memorial o próprio Deus se tem alimentado! Este é o nosso santo

e feliz privilégio. Que o possamos realizar ainda mais amplamente!


— CAPITULO 3 —


O SACRIFÍCIO PACÍFICO: A COMUNHÃO


Quanto mais atentamente consideramos as ofertas, mais

amplamente vemos que nenhum sacrifício apresenta um tipo

completo de Cristo. É só comparando-as em conjunto que se pode

obter uma idéia algo tanto exata. Cada oferta, como era de

esperar, tem as suas próprias características. O sacrifício pacífico

difere do Holocausto em muitos pontos; e uma compreensão clara

dos pontos em que qualquer figura difere das outras ajudar-nos-á

a compreender o seu significado especial.


A Diferença entre o Holocausto e o Sacrifício de Pacífico


Assim, quando comparamos o sacrifício pacífico com o

holocausto, descobrimos que o tríplice ato de "esfolar", "partir em

pedaços" e "lavar a fressura e as pernas" é inteiramente omitido.

Mas isto é natural. No holocausto, como temos notado,

encontramos Cristo oferecendo-se a Si mesmo a Deus e sendo

aceito. Por isso tinha de ser simbolizada não só a Sua inteira

rendição como também o processo de perscrutação a que Ele se

submeteu. Na oferta pacífica o pensamento principal é a

comunhão do adorador. Não é Cristo como objeto exclusivamente

deleitável para Deus, mas de gozo para o adorador, em comunhão

com Deus. Por isso a ação é menos intensa, em toda a linha.

Nenhum coração, por muito elevado que seja o seu amor,

pode, de modo algum, elevar-se à altura da dedicação de Cristo a

Deus ou da aceitação de Cristo por Deus. Ninguém senão o

próprio Deus podia anotar devidamente as pulsações do coração

que batia no seio de Jesus; e, portanto, era necessário um símbolo

para mostrar este aspecto da morte de Cristo, a saber, a Sua

perfeita dedicação a Deus na morte. Este símbolo têmo-lo no

holocausto, a única oferta em que observamos a ação tríplice a

que acima nos referimos.

Assim também em referência ao caráter do sacrifício. No

holocausto, a vítima devia ser "macho sem mancha"; ao passo que

no sacrifício pacífico podia ser "macho ou fêmea", contanto que

não houvesse neles qualquer mancha. A natureza de Cristo, quer

O consideremos como sendo apreciado exclusivamente por Deus

ou pelo adorador em comunhão com Deus, deve ser sempre a

mesma. Não pode haver alteração nela. A única razão por que era

consentido oferecer uma fêmea no sacrifício pacífico era para se

avaliar a capacidade do adorador quanto à apresentação do

bendito Ser que, em Si mesmo, "é o mesmo ontem, hoje e para

sempre" (Hb 13).

Além disso, no holocausto lemos, "o sacerdote tudo

queimará"; ao passo que no sacrifício pacífico só

uma parte era


queimada, isto é, "a gordura, os rins e o redenho". Isto torna o

caso muito simples. A porção mais excelente do sacrifício era

posto sobre o altar de Deus. As entranhas — as ternas

sensibilidades do bendito Jesus eram dedicadas a Deus como o

único que podia perfeitamente apreciá-las. Aarão e seus filhos

alimentavam-se do "peito" e da "espádua direita" (') (Veja-se

atentamente Lv 7:28-36). Todos os membros da família sacerdotal,

em comunhão com o seu chefe, tinham a sua própria porção da

oferta pacífica. E agora todos os verdadeiros crentes, constituídos

pela graça sacerdotes para Deus, podem alimentar-se das

afeições


e da

força da verdadeira oferta pacífica — podem f ruir a feliz


certeza de terem o seu coração amantíssimo e o Seu ombro

poderoso para os confortar e suster continuamente (

2)." Esta é a


porção de Arão e a porção de seus filho, das ofertas queimadas do

S

ENHOR, no dia em que os apresentou para administrar o


sacerdócio ao S

ENHOR. O que o SENHOR ordenou que se lhes desse


dentre os filhos de Israel no dia em que os ungiu estatuto

perpétuo é pelas suas gerações" (Lv 7:35-36).

__________________


(
1) "O peito" e "a espádua" são emblemáticos de amor e poder — força e

afeição.

(
2) Há força e beleza no versículo 31: "... o peito será de Aarão e de seus

filhos". É privilégio de todos os verdadeiros crentes alimentarem-se das afeições

de Cristo — do amor imutável desse coração que bate com amor imortal e

imutável por eles.


Uma Porção Comum entre Deus e os Sacerdotes


São importantes todos estes pontos de diferença entre o

holocausto e o sacrifício pacífico; e quando considerados em

conjunto, mostram com grande clareza as duas ofertas perante a

mente. No sacrifício pacífico há mais alguma coisa do que a

dedicação abstrata de Cristo à vontade de Deus. O adorador é

apresentado, não simplesmente como espectador, mas como

participante não apenas para observar mas para se alimentar. Isto

dá um caráter notável a esta oferta. Quando observo o Senhor

Jesus no holocausto, vejo-o como Aquele cujo coração foi

consagrado ao objetivo de glorificar Deus e cumprir a Sua

vontade. Mas quando O vejo no sacrifício pacífico, descubro

Aquele que tem um lugar no Seu coração amantíssimo e sobre os

Seus ombros poderosos para um pecador indigno e desamparado.

No holocausto, o peito, as pernas e as entranhas, a cabeça e a

gordura, tudo era queimado em cima do altar — tudo subia como

cheiro suave a Deus. Porém no sacrifício pacífico a própria porção

que me convém é reservada para mim. E não tenho de alimentarme

daquilo que satisfaz a minha própria necessidade na solidão.

De modo nenhum. Alimento-me em comunhão com Deus e em

comunhão com os meus companheiros no sacerdócio. Alimentome

com o perfeito e feliz conhecimento que o mesmíssimo sacrifício

que nutre a minha alma tem já satisfeito o coração de Deus;

e, além disso, de que a mesma porção que me alimenta também

alimenta todos os meus companheiros em adoração. A ordem da

comunhão encontra-se aqui — comunhão com Deus e comunhão

com os santos. Não havia nada que se parecesse com isolamento

na oferta pacífica. Deus tinha a Sua porção e a família sacerdotal

tinha a sua.

Assim é com o Antítipo do sacrifício pacífico. O mesmo Jesus

que é o objeto das delícias do céu é a fonte de gozo, de força e de

conforto para todo o coração crente; e não só para cada coração,

em particular, mas também para toda a Igreja de Deus, em

comunhão. Deus, em Sua infinita graça tem dado ao Seu povo o

mesmo objetivo que Ele tem. "A nossa comunhão é com o Pai e

com seu Filho Jesus Cristo" (1 Jo 1:3). É verdade que os nossos

pensamentos acerca de Jesus nunca poderão chegará altura dos

pensamentos de Deus. A nossa apreciação de um tal objeto deve

ficar sempre muito aquém da Sua; e, por isso, no símbolo, a casa

de Arão não podia participar da gordura.

Mas, apesar de nunca podermos atingir o padrão de apreço

divino da Pessoa de Cristo e do Seu sacrifício, estamos todavia

ocupados com o mesmo objeto e portanto a casa de Arão tinha "o

peito e a espádua direita". Tudo isto está repleto de conforto e

alegria para o coração. O Senhor Jesus Cristo—Aquele que "foi

morto, mas vive para todo o sempre", é agora o objeto exclusivo

ante os olhos e pensamentos de Deus; e, em graça perfeita, Deus

deu-nos uma parte nesta mesma bendita e gloriosa Pessoa. Cristo

é também o nosso objetivo — o objetivo dos nossos corações e

tema do nosso cântico. "Havendo feito a paz, pelo sangue da sua

cruz", subiu ao céu e enviou o Espírito Santo, o "outro

Consolador", por cujo ministério poderoso nos alimentamos do

"peito e da espádua direita" do divino "Sacrifício Pacífico". Ele é, na

verdade, a nossa paz; e temos o gozo inexcedível de saber que o

agrado de Deus na obra da nossa paz é tal que o cheiro suave da

nossa oferta pacífica deu alegria ao Seu coração. Este fato dá um

encanto peculiar a este símbolo. Cristo, como holocausto, desperta

a admiração dos nossos corações; Cristo, como sacrifício pacífico,

estabelece a paz da consciência e satisfaz as múltiplas e

profundas necessidades da alma. Os filhos de Arão podiam

prostrar-se em redor do altar do holocausto: podiam observar

como a chama desse sacrifício subia para o Deus de Israel;

podiam ver o sacrifício reduzido a cinzas; podiam, à vista de tudo

isto, curvar as suas cabeças e adorar; mas ao retirarem-se nada

levavam para si mesmos. Não sucedia o mesmo com o sacrifício

pacífico. Neste eles viam não só o que podia emitir um cheiro

suave para Deus, mas também render uma porção substancial

para si mesmos, da qual podiam alimentar-se em feliz e santa

comunhão.


O Gozo da Comunhão


E, certamente, é motivo de grande alegria para todo o

verdadeiro sacerdote saber (para empregar a linguagem do nosso

símbolo) que

Deus teve a Sua parte, antes de ele receber o peito e a

espádua. Este pensamento dá força e fervor, engrandecimento e

alegria ao culto e à comunhão. Revela a graça maravilhosa

d'Aquele que nos deu o mesmo objetivo, o mesmo tema, e a

mesma alegria que Ele tem. Nada inferior—nada menos do que

isto podia satisfazê-Lo. O Pai quer que o pródigo se alimente do

bezerro cevado, em comunhão consigo. Não lhe dá um lugar

inferior à Sua própria mesa, nem qualquer outra porção senão

aquela de que Ele Próprio se alimenta. A linguagem do sacrifício é

esta: "era justo alegrarmo-nos e folgarmos" — "comamos e

alegremo-nos". Tal é a preciosa graça de Deus! Sem dúvida, temos

motivos para nos alegrarmos, pois participamos de uma tal graça.

Porém, quando podemos ouvir o bendito Deus dizer

"comamos e


alegremo-nos", dos nossos corações devia brotar uma corrente

contínua de louvores e ações de graças. O gozo de Deus na

salvação de pecadores e o Seu gozo na comunhão dos santos

podem muito bem despertar a admiração dos homens e dos anjos

por toda a eternidade.


A Diferença entre a Oferta de Manjares e o Sacrifício Pacífico


Havendo assim comparado o sacrifício pacífico com o

holocausto, podemos, agora, observar rapidamente a sua relação

com a oferta de manjares. Aqui o ponto principal de diferença é

este: no sacrifício pacífico havia derramamento de sangue; na

oferta de manjares não. Ambos eram ofertas de "cheiro suave"; e,

como aprendemos no capítulo 7:12, as duas ofertas estavam

intimamente ligadas entre si. Ora, tanto a relação como o

contraste são cheios de significado e instrução.

É só em comunhão com Deus que a alma pode deleitar-se na

contemplação da humanidade perfeita do Senhor Jesus Cristo.

Deus o Espírito Santo

deve dar assim como deve dirigir, pela


Palavra, a visão mediante a qual podemos contemplar o "Homem

Cristo Jesus". Ele podia ter sido revelado "em semelhança da

carne do pecado"; podia ter vivido e laborado na terra; podia ter

brilhado entre as trevas deste mundo, em todo o fulgor celestial e

beleza inerente à Sua Pessoa; podia ter passado rapidamente,

como astro brilhante, através do horizonte deste mundo; e

durante todo o tempo ter permanecido fora do alcance da visão do

pecador.

O homem não podia sentir o gozo profundo de comunhão

com tudo isto, simplesmente porque não havia base para esta

comunhão. No sacrifício pacífico, a base indispensável está inteira

e claramente estabelecida. "E porá a sua mão sobre a sua cabeça,

e a degolará diante da tenda da congregação: e os filhos de Aarão

espargirão o sangue sobre o altar em redor" (versículo 2). Temos

aqui o que a oferta de manjares não proporciona, quer dizer, um

fundamento sólido para a comunhão do adorador com toda a

plenitude, preciosidade e beleza de Cristo, tanto quanto ele, pela

energia do Espírito Santo, é capaz de penetrar.

Para ter comunhão com Deus devemos estar "na luz". E

como podemos estar nela? Só com base nesta preciosa declaração.

"O sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o

pecado" (l Jo 1:7). Quanto mais permanecermos na luz, mais

profunda será a nossa compreensão de tudo que seja contrário a

essa luz, e mais profundo também será o sentimento do valor

desse sangue que nos dá o direito de estarmos na luz. Quanto

mais perto andarmos de Deus, mais conheceremos "as riquezas

incontáveis de Cristo".


O Precioso Exemplo do Filho Pródigo (ou: Perdido)


É absolutamente necessário conhecer a verdade de que

estamos na presença de Deus somente como participantes da vida

divina e beneficiando da justiça divina. O Pai só podia ter o

pródigo à sua mesa vestido com "o melhor vestido" e em toda a

integridade daquele parentesco em que o via. Tivesse o pródigo

conservado os seus andrajos ou sido admitido "como um dos

servos da casa, e nós nunca teríamos ouvido essas gloriosas

palavras, "comamos e alegremo-nos; porque este meu filho estava

morto, e reviveu, tinha-se perdido, e foi achado". Assim acontece

com todos os verdadeiros crentes. A sua velha natureza não é

reconhecida como existente diante de Deus. Ele considera-a

morta, e assim eles a deviam considerar. Esta morta para Deus —

morta para a fé. Deve ser mantida no lugar da morte. Não é

melhorando a nossa velha natureza que chegamos à presença

divina; mas como possuidores de uma nova natureza. Não foi

remendando os trapos da sua condição anterior que o pródigo

obteve um lugar à mesa do Pai, mas por ter sido vestido com um

vestido que nunca havia visto ou pensado. Não trouxe esse vestido

da "terra longínqua", nem o obteve de caminho; mas o pai tinha-o

para ele em casa. O pródigo não o fez nem ajudou a fazê-lo; mas o

pai adquiriu-o para ele e alegrou-se por o ver vestido com ele. Foi

assim que se assentaram à mesa para se alimentarem em feliz

comunhão "do bezerro cevado".


A Lei do Sacrifício Pacífico


Prosseguirei agora citando na íntegra a lei do Sacrifício

Pacífico, na qual encontramos alguns pontos adicionais de grande

interesse — pontos que lhe são peculiares.

"E esta é a lei do sacrifício pacífico que se oferecerá ao

S

ENHOR: Se o oferecer por oferta de louvores, com o sacrifício de


louvores, oferecerá bolos asmos amassados com azeite e coscorões

asmos amassados com azeite; e os bolos amassados com azeite

serão fritos, de flor de farinha. Com os bolos oferecerá pão

levedado como sua oferta, com o sacrifício de louvores da sua

oferta pacífica. E de toda oferta oferecerá um deles por oferta

alçada ao S

ENHOR, que será do sacerdote que espargir o sangue da


oferta pacífica. Mas a carne do sacrifício de louvores da sua oferta

pacífica se comerá no dia do seu oferecimento; nada se deixará

dela até à amanhã. E, se o sacrifício da sua oferta for voto ou

oferta voluntária, no dia em que oferecer o seu sacrifício se

comerá; e o que dele ficar também se comerá no dia seguinte. E o

que ainda ficar da carne do sacrifício ao terceiro dia será

queimado no fogo. Porque, se da carne do seu sacrifício pacífico se

comer ao terceiro dia, aquele que a ofereceu não será aceito, nem

lhe será imputado; coisa abominável será, e a pessoa que comer

dela levará a sua iniqüidade. E a carne que tocar alguma coisa

imunda não se comerá; com fogo será queimada; mas da outra

camequalquerque estiver limpo comerá dela. Porém, se alguma

pessoa comer a carne do sacrifício pacífico, que é do S

ENHOR,


tendo ela sobre si a sua imundícia, aquela pessoa será extirpada

dos seus povos.

E, se uma pessoa tocar alguma coisa imunda, como

imundície de homem, ou gado imundo, ou qualquer abominação

imunda, e comer da carne do sacrifício pacífico, que é do S

ENHOR,


aquela pessoa será extirpada dos seus povos" (Lv 7:11-21).


Distinção entre "pecado na carne" e "pecado na consciência"


É da máxima importância fazer distinção entre pecado

na


carne

e pecado na consciência. Se confundirmos os dois, as nossas


almas serão necessariamente transtornadas e o nosso culto será

manchado. Um exame atento de 1 Jo 1:8-10 lançará muita luz

sobre este assunto, cuja compreensão é tão essencial para a

devida apreciação de toda a doutrina do sacrifício pacífico e

principalmente do ponto nele a que chegamos agora. Ninguém terá

uma noção tão exata do pecado no íntimo como o homem que

anda na luz. "Se dissermos que

não temos pecado, enganamo-nos


a nós mesmos, e não há verdade em nós". No versículo precedente

lemos que "... o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de


todo o pecado".

Aqui a distinção entre o pecado em nós e o pecado


sobre

nós está claramente estabelecida. Dizer que o crente tem


pecado sobre si, na presença de Deus, é pôr em dúvida a eficácia

purificadora do sangue de Jesus e negar a verdade divina a esse

respeito. Se o sangue de Jesus pode purificar perfeitamente, então

a consciência do crente está perfeitamente purificada. É assim que

a Palavra de Deus põe a questão; e nós devemos sempre recordar

que é de Deus mesmo que temos de aprender qual é, aos seus

olhos, a verdadeira condição do crente.

Estamos mais dispostos a dizer a Deus o que somos em nós

mesmos do que permitir que Deus nos diga o que somos em

Cristo. Por outras palavras, estamos mais ocupados com a

faculdade de perceber do que coma revelação que Deus nos dá de

Si mesmo. Deus fala-nos baseado no que Ele é em Si mesmo e no

que cumpriu em Cristo. Tal é a natureza e o caráter da Sua

revelação, da qual a fé toma posse e assim enche a alma de

perfeita paz. A revelação de Deus é uma coisa; a minha percepção

é outra muito diferente.

Porém a mesma palavra que nos diz que não temos pecado


sobre

nós, diz-nos, com igual clareza e poder, que temos pecado


em

nós. "Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a


nós mesmos, e não há verdade em nós". Todo aquele que tem a

"verdade" em si também saberá que

tem pecado "em si"; pois a


verdade revela todas as coisas como são. Que devemos, então,

fazer? É nosso privilégio andar de tal maneira no poder da nova

natureza, que o

"pecado", que habita em nós, não possa


manifestar-se na forma de

"pecados". A posição do cristão é de


vitória e liberdade. Ele é libertado não só da pena do pecado, mas

também do pecado como princípio dominante na sua vida.

"Sabendo isto: que o nosso velho homem foi com ele crucificado,

para que o corpo do pecado seja desfeito, afim de que não

sirvamos mais ao pecado. Porque aquele que está morto, está

justificado do pecado... não reine, portanto, o pecado em vosso

corpo mortal, para lhe

obedecerdes em suas concupiscências...


porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais

debaixo da lei, mas debaixo da graça" (Rm 6:6-14). O pecado está

ali em todo o seu aviltamento; porém o crente está "morto para

ele". Como? Morreu em Cristo. Por natureza estava morto

em


pecado. Pela graça está

morto para o pecado. Que direito pode


alguém ter sobre um morto? Nenhum. Cristo "morreu de uma vez

para o pecado", e o crente morreu n'Ele. "Ora, se já morremos com

Cristo, cremos que também com ele viveremos; sabendo que

havendo, Cristo ressuscitado dos mortos, já não morre; a morte

não mais terá domínio sobre ele. Pois, quanto a ter morrido, de

uma vez morreu para o pecado, mas, quanto a viver, vive para

Deus". Qual é o resultado disto, em relação aos crentes?

"Assim


também vós considerai-vos como

mortos para o pecado, mas vivos


para Deus, em Cristo Jesus, nosso Senhor" (Rm 6:8-11). Tal é a

posição inalterável do crente diante de Deus! Por isso é seu alto

privilégio gozar liberdade do domínio do pecado

sobre si, embora o


pecado

habite em si.


A Confissão dos Pecados


Mas, "se alguém pecar", que deve fazer? O apóstolo inspirado

dá uma resposta clara e bendita: "Se confessarmos os nossos

pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos

purificar de toda injustiça" (1 Jo 1:9). Confissão é a maneira de

manter a consciência livre. O apóstolo não diz, "se orarmos por

perdão, ele é benigno e misericordioso para nos perdoar" .Sem

dúvida, é sempre um alívio para qualquer filho fazer chegar aos

ouvidos do pai as suas necessidades — contar-lhe as suas

fraquezas, confessar-lhe a sua loucura, defeitos e faltas. Tudo isto

é muito verdade; e além disso é igualmente verdade que o nosso

Pai é terno e misericordioso para atender os Seus filhos em todas

as suas fraquezas e ignorância; porém, apesar de tudo isto ser

verdade, o Espírito Santo declara, por intermédio do apóstolo, que,


"se confessarmos

os nossos pecados", Deus é fiel e justo para nos


perdoar. Portanto, a confissão é o método divino. Um cristão que

tenha errado em pensamento, palavras ou ação, pode orar,

pedindo perdão, durante dias e meses e não ter a certeza, segundo

1 João 1:9, de ter sido perdoado; ao passo que no momento em

que verdadeiramente confessar o seu pecado, diante de Deus, é

simplesmente uma questão de fé saber que está perdoado e

perfeitamente purificado.


A Diferença entre Pedir Perdão e Confessar os Pecados


Existe uma grande diferença moral entre orar pedindo

perdão e confessar os nossos pecados, quer encaremos o problema

em relação ao caráter de Deus, quer em relação ao sacrifício de

Cristo ou ainda à condição da alma. É muito possível que a oração

de uma pessoa envolva a confissão do pecado, qualquer que seja a

sua natureza, e assim chegar ao mesmo resultado. Porém, é

sempre bom não nos afastarmos da Escritura no que pensamos,

dizemos e fazemos. É evidente que quando o Espírito Santo fala de


confissão,

não quer dizer oração. E é também evidente que Ele


sabe que existem elementos morais na confissão e que dela

resultam efeitos práticos que não pertencem à oração. De fato,

descobrimos amiúde que o hábito de importunar Deus com o

pedido do perdão dos pecados revela ignorância a respeito da

forma como Deus se revelou na Pessoa e obra de Cristo; acerca da

relação em que o sacrifício de Cristo colocou o crente e quanto ao

modo divino de alijar a consciência do fardo do pecado e de a

purificar da mancha do pecado.

Deus ficou perfeitamente satisfeito, quanto aos pecados do

crente, na cruz de Cristo. Na cruz foi feita completa expiação por

todo o pecado na natureza do crente e na sua consciência. Por

isso, Deus não necessita ainda de mais propiciação. Não precisa

de qualquer coisa mais para despertar o Seu coração pelo crente.

Não precisamos de Lhe suplicar que seja "fiel e justo", pois a Sua

fidelidade e justiça foram gloriosamente patenteadas, justificadas

e satisfeitas na morte de Cristo. Os nossos pecados nunca poderão

vir à presença de Deus, visto que Cristo, que os levou todos e os

tirou, está ali. Contudo, se pecamos, a consciência sente—deve

senti-lo; sim, o Espírito Santo far-nos-á senti-lo. Não pode deixar

passar um simples pensamento vão sem ser julgado. Então4 O

nosso pecado abriu caminho para a presença de Deus? Terá

encontrado lugar na luz pura do santuário? Deus nos livre! O

"Advogado" está ali—"Jesus Cristo o Justo", para manter, em

integridade inquebrantável, o parentesco em que nos

encontramos. Todavia, embora o pecado não possa afetar os

pensamentos de Deus a nosso respeito, pode afetar e afeta os

nossos pensamentos em referência a Ele ('). Embora não tenha

acesso à Sua presença, pode chegar à nossa, da maneira mais

triste. Embora não possa ocultar o Advogado dos olhos de Deus,

pode encobri-Lo dos nossos. Amontoa-se, como uma nuvem

sombria e espessa, sobre o nosso horizonte espiritual, de sorte que

as nossas almas não podem desfrutar a claridade bendita da face

do Pai. Não pode afetar o nosso parentesco com Deus, mas pode

afetar seriamente o dele. Que devemos, pois fazer? A Palavra de

Deus responde: "Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e

justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda a

injustiça".

Por meio da confissão desembaraçamos a nossa consciência;

o sentimento agradável da nossa posição de filhos é restaurado; a

nuvem sombria dissipa-se; a influência desanimadora desaparece;

os nossos pensamentos em relação a Deus são corrigidos. Tal é o

método divino; e podemos dizer que, na realidade, o coração que

sabe o que é ter estado no lugar da confissão sentirá o poder

divino das palavras do apóstolo: "Meus filhinhos, estas coisas vos

escrevo PARA QUE NÃO PEQUEIS" (l Jo 2:l).


__________________

(1) O leitor deve lembrar-se que o assunto tratado no texto deixa

inteiramente por considerar uma verdade muito importante e prática ensinada

em João 14:21-28, a saber, o amor particular do Pai para com o filho obediente e

a comunhão especial de tal filho com o Pai e o Filho. Que esta verdade seja

gravada em nossos corações pela pena do Deus Espírito Santo.


Em contrapartida, há um meio de orar pedindo perdão em

que se perde de vista o fundamento perfeito do perdão, o qual foi

lançado no sacrifício da cruz. Se Deus perdoa pecados, tem de ser

"fiel e justo" ao perdoar. Mas é evidente que as nossas orações, por

mais sinceras e fervorosas que sejam, nunca poderiam constituir

a base da fidelidade e justiça de Deus para perdoar os nossos

pecados. Nada, salvo a obra da cruz podia conseguir isto. Ali a

fidelidade e a justiça de Deus foram plenamente estabelecidas, e

isso também com relação imediata aos nossos pecados atuais e a

sua raiz na nossa natureza. Deus já julgou os nossos pecados na

Pessoa do nosso substituto "no madeiro"; e, no ato da confissão,

nós julgamo-nos a nós próprios. Isto é essencial para se alcançar

o perdão divino e restauração. O menor pecado por confessar e

por julgar, na consciência, manchará inteiramente a nossa

comunhão com Deus. O pecado em nós não requer este efeito;

porém se permitirmos que o pecado permaneça

sobre nós não


podemos ter comunhão com Deus. Ele tirou os nossos pecados de

tal maneira, que pode ter-nos na Sua presença; e enquanto

estivermos na Sua presença o pecado não poderá perturbar-nos.

Porém se saímos da Sua presença e cometemos pecado, ainda que

seja só em pensamento, a nossa comunhão deve, por necessidade,

ser suspensa, até que, pela confissão, nos libertemos do pecado.

Tudo isto está fundado exclusivamente sobre o sacrifício perfeito e

a justa advocacia do Senhor Jesus Cristo.


O Julgamento Pessoal


Finalmente, a diferença entre a oração e a confissão, pelo

que diz respeito ao estado do coração perante Deus, e o seu

sentimento moral de aversão ao pecado, não pode ser, de modo

algum considerada demais.

É muito mais fácil pedir, de uma maneira geral, o perdão dos

nossos pecados do que confessar esses pecados. A confissão

implica

o julgamento pessoal; pedir o perdão pode não envolver e,


em si, não envolve esse juízo. Isto, só por si, seria o suficiente para

salientara diferença. O juízo próprio é um dos mais valiosos e

saudáveis exercícios da vida cristã. Portanto, tudo que tende a

produzi-lo deve ser altamente apreciado por todo o cristão sincero.

A diferença entre pedir perdão e confessar o pecado é

continuamente exemplificada no nosso tratamento com as

crianças. Se uma criança tem feito alguma maldade, acha menos

dificuldade em pedir ao pai que a perdoe do que em confessar

abertamente e sem reservas a maldade. Ao pedir perdão, a criança

pode ter em seu pensamento um determinado número de coisas

que tendam a diminuir o sentimento do mal, pode pensar que,

afinal, não havia muita razão para a censurarem, embora seja

conveniente pedir perdão ao pai; enquanto que, ao confessar a

maldade, faz o seu próprio julgamento.

Além disso, ao pedir perdão a criança pode ser influenciada

principalmente pelo desejo de escapar às conseqüências da sua

maldade; enquanto que um pai sensato procurará despertar no

filho exatamente a convicção do mal, e essa convicção só pode

conseguir-se em relação com franca confissão da falta relacionada

com o julgamento de si próprio.

Assim é também na maneira de Deus proceder para com os

Seus filhos, quando eles procedem mal. Tudo tem de ser exposto

completamente e julgado pela pessoa. Ele quer fazer-nos recear

não só as conseqüências do pecado — que são inexprimíveis —

mas detestar também o próprio mal, por causa da sua hediondez

aos Seus olhos. Se fosse possível, quando cometemos pecado,

sermos perdoados simplesmente, porque pedimos perdão, a nossa

compreensão do pecado e atitude perante ele não seriam tão

intensas; e, como conseqüência, a nossa apreciação da comunhão

com que somos abençoados não seria tão elevada. O efeito moral

de tudo isto sobre o caráter da nossa constituição espiritual e a

natureza da vida prática deve ser claro para todo o crente

experimentado (

1).


________________

(
1) O caso de Simão, o mago, em Atos 8, pode apresentar uma dificuldade

para o leitor. Mas basta dizer dele que uma pessoa que está "em fel de

amargura e laço de iniqüidade" nunca podia ser apresentada como modelo para

os filhos de Deus. O seu caso não interfere, de modo algum, com a doutrina de 1

João 1:9. Ele não tinha o parentesco de filho e, conseqüentemente, não

beneficiava da advocacia do nosso Advogado junto do Pai. Devo acrescentar

ainda que o assunto da oração do Senhor não está de modo algum envolvido

neste caso. Desejo limitar-me à passagem que se segue. Devemos evitar sempre

a adoção de regras rígidas. Uma alma pode clamar a Deus em quaisquer

circunstâncias e pedir o que carece. Ele está sempre pronto a ouvir e a

responder.


O "Pecado" e os "Pecados"


Esta série de pensamentos está intimamente relacionada e

plenamente confirmada por dois princípios estabelecidos na "Lei

do sacrifício pacífico".

No versículo 13 do capítulo 7 de Levítico lemos: "Com os

bolos

oferecerá pão levedado". E ainda no versículo 20 lemos:


"Porém, se alguma pessoa comer a carne do sacrifício pacífico, que

é do S

ENHOR, tendo ela sobre si a sua imundícia, aquela pessoa


será extirpada dos seus povos". Aqui temos as duas coisas

claramente postas diante de nós, a saber; o pecado em nós e o

pecado

sobre nós. O "fermento" era permitido porque havia pecado


na natureza do adorador. A "imundícia" não era permitida porque

não devia haver pecado na consciência do adorador. Onde há

pecado não pode haver comunhão. Deus tem provido expiação

pelo sangue para o pecado que Ele sabe existir em nós. Por isso

lemos acerca do pão levedado no sacrifício pacífico "E de toda

oferta oferecerá um deles por oferta alçada ao S

ENHOR, que será do


sacerdote que espargir o sangue da oferta pacífica"

(versículo 14).


Por outras palavras, o "fermento" (

2) na natureza do adorador


estava perfeitamente expiado pelo "sangue" do sacrifício. O sacerdote

que recebe o pão levedado é quem deve espargir o sangue.

Deus afastou da Sua vista o nosso pecado para sempre. Apesar do

pecado estar em nós, não é objeto para fixar os Seus olhos. Ele vê

só o sangue; e portanto pode andar conosco e consentir

ininterrupta comunhão consigo. Porém, se permitirmos que

"o


pecado"

que está em nós se desenvolva na forma de "pecados",


então, tem de haver confissão, perdão e purificação, antes de

podermos comer outra vez da carne da oferta pacífica. A exclusão

do adorador, por causa de impureza mencionada no cerimonial,

corresponde à suspensão de um crente da comunhão, por causa

de pecado por confessar. Intentar ter comunhão com Deus em

nossos pecados implicaria a blasfema insinuação de que Ele podia

andar em companhia do pecado. "Se dissermos que temos

comunhão com ele, e andarmos em trevas, mentimos e não

praticamos a verdade" (1 Jo 1:6).


______________

(
2) O leitor não deve esquecer que o fermento é sempre um símbolo do mal

(N. do T.).


A luz da precedente linha de verdade, podemos finalmente

ver quanto erramos, quando supomos ser um sinal de

espiritualidade estarmos ocupados com os nossos pecados.

Poderia o pecado ou os pecados jamais serem o fundamento ou

alimentar a nossa comunhão com Deus? Não, certamente. Já

vimos que, enquanto o pecado é o objetivo que temos perante nós,

a comunhão tem de ser interrompida. A comunhão só pode ser

"na luz"; é indubitável que não há pecado na luz. Na luz só se

pode ver o sangue que tirou os nossos pecados e nos trouxe para

perto, e o Advogado que nos mantém perto de Si. O pecado foi

esquecido para sempre naquele lugar onde Deus e o adorador se

encontram em santa comunhão. O que é que constituiu o

elemento de comunhão entre o Pai e o pródigo? Foram os trapos

deste? Foram as bolotas da "terra longínqua"

1?- De modo


nenhum. Não foi nada que o pródigo trouxe consigo. Foi a rica

provisão do amor do Pai—"o bezerro cevado". Assim é com Deus e

o verdadeiro adorador. Alimentam-se em conjunto e elevada

comunhão d'Aquele cujo precioso sangue os associou para sempre

nessa luz da qual nenhum pecado pode jamais acercar-se.

Nem por um instante precisamos de supor que a verdadeira

humildade se mostre ou se promova recordando os nossos

pecados ou lamentando-nos sobre eles. Uma tristeza impura e

dolorosa pode assim ser aumentada; mas a verdadeira humildade

salta sempre de uma origem totalmente diferente.

Quando é que o pródigo mais se humilhou? Quando "caiu

em si", na terra longínqua, ou quando chegou a casa do Pai e se

reclinou no seu seio? Não é evidente que a graça que nos eleva às

mais elevadas alturas de comunhão com Deus, é a única que nos

conduz às maiores profundidades de uma genuína humildade?

Sem dúvida. A humildade que tem a sua origem na remoção dos

nossos pecados deve ser sempre mais profunda do que aquela que

resulta de os descobrirmos. A primeira liga-nos com Deus; a

última relaciona-nos com o ego. O meio de se ser verdadeiramente

humilde é andar com Deus no conhecimento e poder do

parentesco em que Ele nos colocou. Ele fez-nos Seus filhos; e se

andarmos como tais seremos humildes.


A Ceia do Senhor


Antes de deixarmos esta parte do assunto, quero fazer uma

observação sobre a ceia do Senhor, que, sendo um ato

proeminente da comunhão da Igreja, pode, com estrita

propriedade, ser considerada em ligação com a doutrina do

sacrifício pacífico. A celebração inteligente da ceia do Senhor deve

depender sempre do reconhecimento do Seu caráter puramente

eucarístico ou de ações de graças. É especialmente uma festa de

ação de graças — ação de graças por uma redenção cumprida.

"Porventura, o cálice de bênção que abençoamos não é a

comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é,

porventura, a comunhão do corpo de Cristo?" (1 Co 10:16). Por

isso, uma alma curvada sob o peso do fardo do pecado não pode

comer a ceia do Senhor com inteligência espiritual, visto que essa

festa é expressiva da completa remoção do pecado pela morte de

Cristo:"... anunciais a morte do Senhor, até que venha" (1 Co

11:26). Na morte de Cristo, a fé vê o fim de tudo que pertencia ao

nosso lugar na velha criação; e, visto que a ceia do Senhor


anuncia

essa morte, deve ser considerada como a recordação do


fato glorioso que o fardo do pecado do crente foi levado por Aquele

que o tirou para sempre.

Declara que a cadeia dos nossos pecados, com que

estávamos presos e amarrados, foi partida para sempre pela morte

de Cristo e não pode j amais prender-nos ou amarrar-nos de novo.

Nós reunimo-nos ao redor da mesa do Senhor com toda a alegria

de vencedores. Volvemos os olhos para a cruz onde se travou e

ganhou a batalha; e antevemos a glória em que entraremos nos

resultados plenos e eternos da vitória.

Decerto, temos "fermento"

em nós; mas não temos nenhuma


"imundície"

sobre nós. Não temos que fixar os olhos nos nossos


pecados; mas, sim, n Aquele que os levou sobre a cruz e os tirou

para sempre. Não temos de nos enganar a nós mesmos com a

idéia presunçosa de que "não temos pecado" em nós; nem vamos

negar a verdade da Palavra de Deus e a eficácia do sangue de

Cristo recusando alegrarmo-nos com a verdade preciosa que não

temos pecado sobre nós, porque "o sangue de Jesus Cristo, seu

Filho, nos purifica de todo pecado". É verdadeiramente deplorável

ver a nuvem carregada que se forma sobre a ceia do Senhor, com

o parecer de tantos cristãos professos. Este fato contribui, tanto

como tudo o mais, para revelar a enorme falta de compreensão a

que se pode chegar com respeito às verdades mais elementares do

evangelho. De fato, sabemos que quando a ceia do Senhor é

tomada por uma razão qualquer que não seja o conhecimento da

salvação — o gozo do perdão —, consciência da libertação, a alma

é envolvida em maior obscuridade do que nunca.

Aquilo que é apenas um memorial de Cristo é usado para O

deslocar. Aquilo que celebra uma redenção efetuada é empregado

como um degrau para ela. É assim que se abusa das ordenações,

as almas são submergidas nas trevas e cai-se na confusão e no

erro.


O Valor do Sangue de Cristo


Quão diferente de tudo isto é a bela ordenação do sacrifício

pacífico! Neste, considerado sob a sua importância simbólica,

vemos que, logo que o sangue era derramado, Deus e o adorador

podiam alimentar-se em feliz e pacífica comunhão. Nada mais era

necessário. A paz estava estabelecida pelo sangue; e, sobre essa

base, prosseguia a comunhão. Uma simples dúvida quanto ao

estabelecimento da paz é fatalmente o golpe mortal na comunhão.

Se estamos ocupados com esforços inúteis para conseguir a paz

com Deus, então desconhecemos totalmente o que é a comunhão

e o culto. Se o sangue do sacrifício pacífico não foi derramado, é

impossível alimentarmo-nos com "o peito" ou a "espádua". Mas,

por outro lado, se o sangue foi derramado, então a paz já está

feita. Deus mesmo fez a paz e isto é bastante para a fé; e,

portanto, pela fé temos comunhão com Deus, no conhecimento e

gozo da redenção efetuada. Provamos a frescura do próprio gozo

de Deus naquilo que Ele fez. Alimentamo-nos de Cristo em toda a

plenitude e bem-aventurança da presença de Deus.


O Culto


Este último ponto está relacionado e baseado sobre outra

verdade fundamental da "lei do sacrifício pacífico". "Mas a carne

do sacrifício de louvores da sua oferta pacífica se comerá no dia do

seu oferecimento; nada se deixará dela até amanhã." Quer dizer, a

comunhão do adorador nunca deve separar-se do sacrifício sobre

o qual a comunhão está baseada. Desde que se tenha energia

espiritual para manter a conexão, o culto e a comunhão

subsistirão em frescura e aceitação, mas só assim.

Devemos estar


perto do sacrifício,

no espírito do nosso entendimento, as afeições


do nosso coração e a experiência das nossas almas. É isto que

dará poder e duração ao nosso culto. Pode dar-se o caso de

começarmos qualquer ato ou expressão de culto com os nossos

corações ocupados imediatamente com Cristo; e, antes de

chegarmos ao fim, estarmos ocupados com o que estamos fazendo

ou dizendo ou com as pessoas que nos escutam; e, desta forma,

caímos naquilo que pode chamar-se "iniqüidade nas nossas coisas

santas". Isto é profundamente solene e deveria tornar-nos

vigilantes. Começamos o culto no Espírito e acabamos na carne.

Devemos ter sempre o cuidado de não nos afoitarmos a proceder,

nem por um momento, para lá da energia do Espírito, porque o

Espírito manter-nos-á sempre ocupados com Cristo. Se o Espírito

Santo nos inspira "cinco palavras" de adoração ou de ações de

graças, pronunciemos as cinco e calemo-nos. Se continuarmos a

falar, estamos comendo a carne do nosso sacrifício depois do

tempo fixado; e, longe de ser "aceitável", é, na realidade, "uma

abominação". Lembremo-nos disto e vigiemos. Não há necessidade

para alarme. Deus quer que sejamos guiados pelo Espírito e assim

cheios de Cristo em todo o nosso culto. Ele só pode aceitar aquilo

que é divino; e, portanto, não quer que seja apresentado senão o

que é divino.

"E, se o sacrifício da sua oferta for voto ou oferta voluntária,

no dia em que oferecer o seu sacrifício se comerá;

e o que dele ficar


também se comerá no dia seguinte"

(Lv 7:16). Quando a alma se


eleva a Deus em um ato voluntário de adoração, tal adoração

provêm de uma maior medida de energia espiritual do que quando

procede simplesmente de alguma graça particular do próprio

momento. Se se há recebido uma favor especial da mão do

Senhor, a alma eleva-se imediatamente em ação de graças. Neste

caso, o culto é suscitado por e ligado com esta mercê de graça,

qualquer que possa ser, e acaba aí. Porém quando o coração é

levado pelo Espírito Santo a qualquer expressão voluntária ou

deliberada de louvor, o culto terá um caráter mais duradouro.

Todavia, o culto espiritual ligar-se-á sempre com o precioso

sacrifício de Cristo.

"E o que ainda ficar da carne do sacrifício ao terceiro dia

será queimado no fogo. Porque, se da carne do seu sacrifício

pacífico se comer ao terceiro dia, aquele que a ofereceu não será

aceito, nem lhe será imputado; coisa abominável será, e a pessoa

que comer dela levará a sua iniqüidade". Nada tem qualquer valor,

segundo o juízo de Deus, senão aquilo que está intimamente

ligado com Cristo. Pode existir muita aparência de culto, e ser,

afinal, a mera excitação e expressão de sentimentos naturais.

Pode haver uma grande aparente devoção, que é, simplesmente,

devoção carnal.

A natureza pode excitar-se, no campo religioso, de diversas

maneiras, tais como pompa, cerimônias, procissões, atitudes,

ricas vestimentas, uma liturgia eloqüente e todos os atrativos de

um esplêndido ritualismo; e, contudo, pode haver uma absoluta

ausência de culto espiritual. Sim, acontece freqüentemente que os

mesmos gostos e inclinações, que são excitados e satisfeitos por

formas pomposas de um culto chamado religioso, encontrariam

um alimento mais apropriado na ópera ou nos concertos.

Aqueles que sabem que "Deus é espírito e aqueles que o

adoram devem adorá-Lo em espírito e em verdade" (João 4) e que

desejam rememorá-Lo devem pôr-se em guarda contra tudo isto. A

religião, assim chamada, reveste-se, em nossos dias, dos mais

poderosos atrativos. Abandonando a grosseria da idade média, ela

chama em seu auxílio todos os recursos de gosto requintado de

um século iluminado e culto. A escultura, a música, e a pintura,

vazam os seus ricos tesouros no seu seio, a fim de que ela possa,

com isso, preparar um poderoso narcótico para embalar as

multidões irrefletidas numa sonolência, que só será interrompida

pelos indescritíveis horrores da morte, do juízo e do lago de fogo.

Ela pode também dizer:

"Sacrifícios pacíficos tenho comigo; hoje


paguei os meus

votos... Já cobri a minha cama com cobertas de


tapeçaria, com obras lavradas com Unho fino do Egito; já perfumei

o meu leito com mirra, aloés e canela" (Pv 7:14-17). Assim a

religião corrompida seduz, por sua poderosa influência, aqueles

que não querem escutar a voz celestial da sabedoria.

Guarde-se o leitor de tudo isto. Certifique-se de que o seu

culto está inseparavelmente ligado com a obra da cruz. Veja se

Cristo é o fundamento, Cristo o elemento e o Espírito Santo o

poder do seu culto. Guarde-se de que o ato exterior do seu culto

não se alongue para lá deste poder íntimo. É necessária muita

vigilância para se evitar este mal. Os seus manejos secretos são

dos mais difíceis de detectar e impedir. Podemos começar um hino

no verdadeiro espírito de culto, e, por falta de poder espiritual,

podemos, antes de chegar ao fim, cair no mal que corresponde ao

ato do cerimonial de comer a carne do sacrifício pacífico ao

terceiro dia. A nossa única salvaguarda consiste em estarmos

perto de Jesus. Se elevarmos os nossos corações em "ações de

graças" por qualquer mercê especial, façamo-lo no poder do nome

e do sacrifício de Cristo. Se as nossas almas se elevam em

adoração "voluntária", que seja na energia do Espírito Santo.

Deste modo o nosso culto terá aquela frescura, essa fragrância e

profundidade de tom, essa elevação moral, que devem resultar do

fato de se ter o Pai por objeto, o Filho por fundamento e o Espírito

Santo com o poder do culto.

_________________


NOTA: É interessante observar que, embora o sacrifício pacífico seja o

terceiro na ordem dos sacrifícios, contudo "a Lei" dele é dada depois de todos.

Esta circunstância não deixa de ter a sua importância. Em nenhum dos

sacrifícios a comunhão do adorador é tão claramente revelada como no sacrifício

pacífico. No holocausto vemos Cristo oferecendo-se a Si mesmo a Deus. Na

oferta de manjares, temos a perfeita humanidade de Cristo. Depois, passando

ao sacrifício pelo pecado, aprendemos que o pecado em sua raiz é inteiramente

expiado. No sacrifício pelo sacrilégio, há plena provisão para os pecados na vida

presente. Mas em nenhum é revelada a comunhão do adorador. A comunhão

pertence ao "sacrifício pacífico"; e, daí, creio, a posição que ocupa a ''lei deste

sacrifício". Aparece no fim de todas, ensinando-nos com isso que, quando se

trata de uma questão de a alma se alimentar de Cristo, tem de ser um Cristo

completo, considerado sob todas as fases possíveis da Sua vida — o Seu

caráter, a Sua Pessoa, Sua Obra, e Seu cargo. E, além disso, que, quando

tivermos acabado para sempre com o pecado e os pecados, deleitar-nos-emos

em Cristo e nos alimentaremos d'Ele por todos os séculos eternos. Seria, creio,

uma falta grave no nosso estudo dos sacrifícios se deixássemos de considerar

uma circunstância tão digna de ser notada como a que acabamos de frisar. Se a

"lei do sacrifício pacífico" fosse dada pela ordem em que ocorre o próprio

sacrifício viria imediatamente depois da lei da oferta de manjares; porém em vez

disso, são dadas "A lei da expiação do pecado" e "a lei da expiação da culpa" e,

então, em conclusão, segue-se a "lei do sacrifício pacífico".


Que assim seja, ó Senhor, com todos os que te adoram, até

nos encontrarmos em corpo, alma e espírito na segurança da tua

presença eterna, fora do alcance de toda a influência perniciosa do

falso culto e da religião corrompida, e também fora do alcance dos

diferentes impedimentos que provêm destes corpos de pecado e

morte que trazemos em nós!


—CAPÍTULOS 4 a 5:13 —


OS SACRIFÍCIOS QUE

NÃO SÃO DE CHEIRO SUAVE

Os Sacrifícios pelo Pecado


Tendo considerado as ofertas de "cheiro suave", chegamos

agora aos "sacrifícios pelo pecado". Estes eram divididos em duas

classes, a saber, sacrifícios pelo pecado e expiação do pecado. Na

primeira havia três categorias; primeiro, o sacrifício pelo

"sacerdote ungido" e por "toda a congregação". Estes dois tinham

os mesmos ritos e cerimônias (compare-se os versículos 3 a 12

com os versículos 13a 23). Era o mesmo, quer tivesse sido o

representante da assembléia ou a própria assembléia que tivesse

pecado. Em qualquer dos casos três coisas estavam envolvidas: a

habitação de Deus na assembléia, a adoração da assembléia e a

consciência individual. Ora, visto que as três coisas dependiam do

sangue, verificamos que, na primeira categoria do sacrifício pelo

pecado, três coisas eram feitas com o sangue. Era aspargido "sete

vezes perante o S

ENHOR, diante do véu do santuário". Isto


assegurava as relações de Jeová com o povo e a Sua habitação no

meio deles.


O Sangue da Vítima


Depois lemos: "Também porá o sacerdote daquele sangue

sobre as pontas do altar do incenso aromático, perante o S

ENHOR,


altar que está na tenda da congregação". Isto assegurava a

adoração da assembléia. Pondo o sangue sobre "o altar de ouro", a

verdadeira base de adoração era mantida; de forma que a chama

do incenso e a sua fragrância podiam subir continuamente.

Finalmente, "todo o resto do sangue do novilho derramará à base

do altar do holocausto, que está à porta da tenda da congregação".

Aqui temos o que satisfaz plenamente as exigência da consciência

de cada indivíduo; pois o altar de cobre era o lugar de acesso

individual. Era onde Deus encontrava o pecador.

Nas outras duas categorias, "um príncipe" ou "qualquer

outra pessoa do povo da terra", era apenas uma questão de

consciência individual; e portanto uma única coisa era feita com o

sangue. Era todo derramado "à base do altar do holocausto"

(compare-se verso 7 com os versos 25,30). Existe em tudo isto

uma precisão divina que requer toda a atenção do leitor, se deseja

compreender os pormenores maravilhosos deste símbolo (').

O efeito do pecado individual não podia prolongar-se para

além dos limites da consciência do indivíduo. O pecado de "um

príncipe" ou de "qualquer outra pessoa do povo", não podia, em

sua influência, atingir "o altar do incenso" — o lugar da adoração

sacerdotal. Não podia tão-pouco chegar ao "véu do santuário" — o

limite sagrado da habitação de Deus no meio do Seu povo. É bom

ponderar isto. Nunca devemos levantar uma questão de pecado

pessoal ou falta no lugar de culto sacerdotal ou na assembléia.

Deve ser tratada no lugar de aproximação pessoal. Muitos erram

sobre este ponto. Vêm à assembléia ou lugar público de culto com

a sua consciência manchada, e desta forma arrastam toda a

assembléia e contaminam o seu culto. Deveria examinar-se

rigorosamente este mal e haver cuidadosa vigilância contra ele.

Precisamos de andar com maior vigilância para que a nossa

consciência possa estar sempre na luz. E quando falhamos, como,

infelizmente, acontece em tantas coisas, devemos tratar com Deus

sobre a nossa falta em oculto, para que a nossa verdadeira

adoração e a posição da assembléia possam ser mantidas sempre

plenamente com clareza diante da alma.


(
1) Entre a oferta por "um príncipe" e a oferta por "qualquer outra pessoa"

há esta diferença: na primeira era um "macho sem mancha"; na última "uma

fêmea sem mancha". O pecado de um príncipe exercia necessariamente maior

influência do que o de uma pessoa comum; e, portanto, era necessária uma

aplicação mais poderosa do valor do sangue. Em capítulo 5:13 encontramos

casos que requerem uma aplicação ainda mais inferior à da oferta de expiação

pelo pecado — casos de juramento e de contato com formas de impureza, em

que "a décima parte de um efa de flor de farinha" era admitido como oferta de

expiação pelo pecado (Veja-se capítulo 5:11-13). Que contraste entre o aspecto

de expiação apresentado por um bode de um príncipe e a mão-cheia de flor de

farinha de um pobre homem! E, todavia, no último, tão certo como no primeiro,

lemos, "e ser-lhe-á perdoado".

O leitor há de notar que o capítulo 5:1-13 forma uma parte do capítulo 4.

Ambos estão compreendidos sob o mesmo título, e apresentam a doutrina da

oferta de expiação do pecado, em todas as suas aplicações, desde um bode a

uma mão-cheia de flor de farinha. Cada classe de oferta é anunciada pelas

palavras. "Falou mais o S
ENHOR a Moisés". Assim, por exemplo, com as ofertas

de "cheiro suave" (Capítulos 1-3) são introduzidas pelas palavras: "E chamou o

S
ENHOR a Moisés". Estas palavras não são repetidas até ao capítulo 4:1, onde

introduzem o sacrifício de expiação do pecado. Ocorrem outra vez no capítulo

5:14, onde é introduzida a Oferta de transgressão por pecados cometidos "nas

coisas sagradas do S
ENHOR"; e outra vez em capítulo 6:1, onde introduzem a

oferta de transgressão por pecados cometidos contra o Senhor no tocante ao seu

próximo.

É uma classificação bela e simples, e pode auxiliar o leitor a compreender

as diversas classes de ofertas. Quanto às diversas categorias em cada classe,

"um bode", "um carneiro", "uma fêmea", "uma pomba", "uma mão-cheia de flor de

farinha", parece serem outras tantas aplicações diversas da mesma grande

verdade.


O Pecado por Erro (ou Ignorância)


Havendo assim dito o bastante quanto às três categorias de

sacrifício pelo pecado, vamos proceder ao exame, pormenorizado

dos princípios desenvolvidos na primeira classe. Fazendo-o, poderemos

formar, até certo ponto, uma idéia exata dos princípios de

todos. Desejo contudo, ao entrar na comparação imediata atrás

referida, chamar a atenção do leitor para um ponto notável que é

revelado no segundo verso deste capítulo. "Quando uma alma

pecar por

erro". Isto apresenta uma verdade de profunda bemaventurança,


em relação com a expiação do Senhor Jesus Cristo.

Ao contemplarmos essa expiação, vemos infinitamente mais do

que a simples satisfação das exigências da consciência, ainda que

essa consciência tivesse atingido o ponto mais alto de polida

sensibilidade. Temos o privilégio de ver nela o que satisfaz

plenamente todas as exigências da santidade divina, a justiça

divina e a majestade divina.

A santidade da habitação de Deus e o fundamento da Sua

união com o Seu povo nunca poderiam ser regulamentadas pelo

padrão da consciência do homem, por muito elevado que esse

padrão pudesse ser. Há muitas coisas que a consciência do

homem omitiria — muitas coisas que poderiam escapar à

percepção do homem —, muitas coisas que o seu coração poderia

considerar lícitas, mas que Deus não podia tolerar; e que, como

conseqüência, haviam de interferir com a aproximação do homem

de Deus e impedi-lo de render adoração e prejudicar as suas

relações. Pelo que, se a expiação de Cristo fizesse apenas provisão

para os pecados que estão ao alcance da compreensão do homem,

nós estaríamos muito aquém do verdadeiro fundamento da paz.

Precisamos de compreender que o pecado foi expiado segundo a

avaliação que Deus fez dele — que as exigências do Seu trono

foram perfeitamente cumpridas —, o pecado, tal qual é visto à luz

da Sua inflexível santidade, foi divinamente julgado. É isto que dá

paz segura à alma. Fez-se perfeita expiação tanto pelos pecados de

ignorância do crente como pelos seus pecados conhecidos. O

sacrifício de Cristo é o fundamento das suas relações e comunhão

com Deus, segundo a apreciação divina das suas exigências.

Um conhecimento claro deste fato é de incalculável valor. A

não ser que se lance mão deste aspecto da expiação, não pode

haver paz firme, nem poderá haver compreensão moral da

extensão e plenitude da obra de Cristo ou da verdadeira natureza

do parentesco baseado nela. Deus sabia o que era necessário para

que o homem pudesse estar na Sua presença sem o mais simples

temor; e fez para isso ampla provisão na cruz. A comunhão entre

Deus e o homem era inteiramente impossível se o pecado não

tivesse sido liquidado segundo os pensamentos de Deus sobre ele;

porque, embora a consciência do homem estivesse satisfeita, a

pergunta levantar-se-ia sempre, Deus ficou satisfeito? Se esta

pergunta não pudesse ser respondida afirmativamente, a

comunhão nunca poderia subsistir ('). O pensamento de que nos

pormenores da vida se manifestavam coisas que a santidade

divina não podia tolerar intrometer-se-ia continuamente com o

coração. Decerto, podíamos fazer essas coisas "por ignorância";

porém isto não podia alterar o assunto perante Deus, visto que

tudo é do Seu conhecimento. Por isso, haveria constante receio,

dúvida e temor. Todas estas coisas são divinamente atendidas

pelo fato de que o pecado foi expiado, não segundo a nossa

"ignorância", mas conforme o conhecimento de Deus. Esta certeza

dá grande descanso ao coração e à consciência. Todas as

exigências de Deus foram satisfeitas pela Sua própria obra. Ele

Próprio fez a provisão; e, portanto, quanto mais requintada se

torna a consciência do crente, sob a ação combinada da Palavra e

do Espírito de Deus — quanto mais ele cresce no conhecimento

divinamente adaptado a que tudo moralmente convém ao

santuário —, tanto mais sensível ele se torna a tudo que é

incompatível com a presença divina, e mais vigorosa, clara e

profunda será a sua compreensão do valor infinito daquele

sacrifício pelo pecado que não só ultrapassa os limites da

consciência humana, mas satisfaz também, em perfeição absoluta,

todas as exigências da santidade divina.

_____________________


(
1) Desejo lembrar que o ponto saliente no texto é simplesmente expiação.

O leitor cristão sabe muito bem, sem dúvida, que a possessão da "natureza

divina" é essencial à comunhão com Deus. Eu preciso não só de uma direito

para me acercar de Deus, mas de um natureza para gozar d'Ele. A alma que

"crê no Filho unigênito de Deus" tem tanto um como outro (veja-se Jo 1:12-13;

3:36; 5:24; 20:31; 1 Jo 5:11-13).


A Exigência da Santidade Divina ante a Ignorância do Crente


Nada pode demonstrar claramente a incapacidade do

homem para tratar do pecado como o fato de existir aquilo que é

descrito como "pecado de ignorância". Como poderia ele tratar

daquilo que não conhecei Como poderia ele dispor daquilo que

nunca entrou nos limites da sua consciência? Era impossível. A

ignorância em que o homem está acerca do pecado é prova da sua

absoluta incapacidade para o tirar. Se não o conhece, que pode

fazer acerca dele? Nada. É tão impotente como ignorante. Nem isto

é tudo. O fato de haver "pecado de ignorância" demonstra

claramente a incerteza que deve acompanhar toda a solução da

questão do pecado, a qual não pode aplicar-se a noções mais

elevadas do que aquelas que podem resultar da consciência

humana mais delicada. Nunca poderá haver paz duradoura sobre

este fundamento. Existirá sempre a compreensão dolorosa de que

há qualquer coisa que está mal.

Se o coração não é conduzido a um estado de repouso

permanente pelo testemunho da Escritura de que os direitos

inflexíveis da justiça divina foram satisfeitos, haverá,

necessariamente, uma sensação de mal-estar, e uma tal sensação

representa um obstáculo à nossa adoração, à nossa comunhão e

ao nosso testemunho. Se eu me sentir inquieto a respeito da

solução da questão do pecado, não posso adorar; não posso gozar

de comunhão com Deus nem com o Seu povo; nem tão-pouco

posso ser uma testemunha inteligente ou apta de Cristo. O

coração tem de estar tranqüilo, perante Deus, quanto à perfeita

remissão do pecado, antes de podermos "adorar em espírito e

verdade". Se houver culpa sobre a consciência, deve haver terror

no coração; e, seguramente, um coração cheio de terror não pode

ser um coração feliz e adorador. É somente de um coração cheio

desse doce e santo repouso que proporcionou o sangue de Cristo

que pode subir adoração verdadeira e aceitável ao Pai.

O mesmo princípio é verdadeiro a respeito da nossa

comunhão com o povo de Deus, e o nosso serviço e testemunho

entre os homens. Tudo deve descansar sobre o fundamento de paz

estabelecida; e esta paz descansa sobre o fundamento de uma

consciência perfeitamente purificada; e esta consciência purificada

descansa sobre o fundamento da perfeita remissão de todos os

nossos pecados, quer sejam pecados do nosso conhecimento ou

pecados de ignorância.


Comparação do Holocausto com o Sacrifício pelo Pecado


Vamos prosseguir agora com a comparação entre o sacrifício

pelo pecado e o holocausto, em cujo confronto encontraremos dois

aspectos de Cristo muito diferentes. Porém, embora os aspectos

sejam diferentes, é um só e o mesmo Cristo; e, por isso, em ambos

os casos, o sacrifício era "sem mancha". Isto é fácil de

compreender. Não importa sob que aspecto contemplarmos o

Senhor Jesus Cristo, Ele é sempre o mesmo Ser perfeito,

imaculado e santo. É verdade que, em Sua abundante graça, teve

de curvar-Se para tomar sobre Si o pecado do Seu povo; mas foi

como um Cristo perfeito, puro, que o fez; e seria nada menos do

que perversidade diabólica alguém valer-se da profundidade da

Sua humilhação para manchar a glória pessoal d'Aquele que

assim se humilhou. A excelência intrínseca, a pureza inalterável e

a glória divina do nosso bendito

Senhor aparecem no sacrifício pelo pecado tão claramente

como no holocausto. Seja em que relação for que Ele se apresente,

em qualquer ocupação ou obra que execute, ou posição que

ocupe, a Sua glória pessoal brilha em todo o esplendor divino.

Esta verdade de um só e mesmo Cristo, quer seja no

Holocausto ou no sacrifício pelo pecado vê-se não apenas no fato

que, em ambos os casos, a oferta era "sem mancha", como

também na "lei da expiação do pecado", na qual lemos: "Esta é a

lei da expiação do pecado no lugar onde se degola o holocausto, se

degolará a oferta pela expiação do pecado perante o S

ENHOR; coisa


santíssima é" (Lv 6:25). Os dois tipos indicam um e mesmo grande

Antítipo, embora o apresentem sob aspectos diferentes da Sua

obra. No holocausto vemos Cristo correspondendo aos afetos

divinos; na expiação do pecado vêmo-Lo satisfazendo as

profundidades da necessidade humana. Aquele apresenta-O como

Aquele que cumpre a vontade de Deus; este como Aquele que

levou o pecado do homem. No primeiro aprendemos qual é o

elevado preço do sacrifício; no último o que é a aversão do pecado.

Isto basta quanto às duas ofertas, em geral. Um exame minucioso

dos pormenores não fará mais que confirmar a mente na verdade

desta asserção.

Quando consideramos, em primeiro lugar, o holocausto,

notamos que era uma oferta voluntária. "... a oferecerá de sua

própria vontade perante o S

ENHOR" ('). Ora, o vocábulo "própria"


não é mencionado na expiação pelo pecado. E precisamente o que

poderíamos esperar. A omissão está de perfeito acordo com o alvo

específico do Espírito Santo no holocausto, que é apresentá-lo

como uma oferta voluntária. Era a comida e bebida de Cristo fazer

a vontade de Deus, qualquer que pudesse ser essa vontade. Nunca

pensou em inquirir quais eram os ingredientes do cálice que Seu

Pai ia pôr em Suas mãos. Bastava-Lhe saber que o Pai o havia

preparado. Assim acontecia com o Senhor Jesus simbolizado no

holocausto.


____________________

(
1) Alguns podem encontrar dificuldade no fato de a palavra "própria" se

referir ao adorador e não ao sacrifício; mas isto não pode de modo algum afetar

a doutrina exposta no texto, que é fundada no fato de que uma palavra

empregada no holocausto é omitida na oferta de expiação pelo pecado. O

contraste subsiste, quer pensemos no ofertante ou na oferta.


Porém, na oferta de expiação do pecado temos uma linha de

verdade completamente diferente. Este símbolo apresenta Cristo

aos nossos pensamentos, não como Aquele que realiza


voluntariamente

a vontade de Deus, mas como Aquele que levou


sobre Si essa coisa terrível chamada "pecado", e o Sofredor de

todas as suas conseqüências aterradoras, das quais a mais

aterradora, para Si, consistiu em que Deus ocultasse d'Ele o Seu

rosto. Por isso, a palavra "própria" não estaria de acordo com o

objetivo do Espírito na oferta de expiação pelo pecado. Esta

expressão estaria tão deslocada neste símbolo como está

divinamente em seu lugar no holocausto. O seu emprego e a sua

omissão são igualmente divinos; e mostram tanto uma como a

outra a precisão perfeita e divina dos tipos de Levítico.

Ora, o ponto de contraste que temos estado a considerar

explica, ou, antes, harmoniza duas expressões empregadas por

nosso Senhor. Em uma ocasião diz:"... não beberei eu o cálice que

o Pai me deu?-" E, todavia, diz também: "Meu Pai, se é possível

passe de mim este cálice."

A primeira destas expressões era o perfeito cumprimento das

palavras com que havia começado a Sua carreira, a saber: "Eis

aqui venho para fazer, ó Deus, a tua vontade"; e é, além disso, a

elocução de Cristo como o holocausto. A última, por outro lado, é

a exclamação de Cristo quando contemplava o lugar que estava

prestar a ocupar como sacrifício pelo pecado. O que esse lugar era

e o que estava envolvido n'ele, tomando-o, é o que veremos no

prosseguimento do nosso estudo; é contudo interessante e

instrutivo encontrar toda a doutrina dos dois sacrifícios

encerrada, com efeito, no fato de uma simples palavra ser

introduzida num e omitida no outro. Se encontramos no

holocausto a prontidão com que Cristo Se ofereceu a Si mesmo

para o cumprimento da vontade de Deus, na expiação do pecado

vemos com que profunda abnegação tomou todas as

conseqüências do pecado do homem e como chegou à distância

longínqua da posição do homem no que se referia a Deus.

Deleitava-se em fazer a vontade de Deus; estremecia ante a idéia

de perder, por um momento, a luz do Seu bendito rosto.

Nenhum sacrifício podia tê-lo simbolizado debaixo destes

dois aspectos. Precisávamos de uma figura que no-Lo

apresentasse como Aquele que se comprazia em fazer a vontade de

Deus; e necessitávamos de uma figura que no-Lo mostrasse como

Aquele cuja natureza santa retrocedia ante as conseqüências do

pecado imputado. Bendito seja Deus, temos tanto uma como a

outra. O holocausto mostra-nos uma, a oferta de expiação dá-nos

a outra. Pelo que quanto mais aprofundamos o afeto do coração de

Cristo a Deus, mais compreendemos o Seu horror ao pecado; e


vice-versa.

Cada um destes símbolos põe em relevo o outro; e o


emprego da palavra "própria" em um e não no outro fixa a

importância especial de cada um.

Mas, pode perguntar-se, não era da vontade de Deus que

Cristo Se oferecesse em sacrifício de expiação pelo pecado? E, se

assim é, como podia hesitar em cumprir essa vontade?

Seguramente o conselho de Deus tinha determinado que Cristo

sofresse. Além disso era o prazer de Cristo fazer a vontade de

Deus. Porém, como devemos compreender a expressão," Se é

possível passe de mim este cálice"? Não é a exclamação de Cristo

1?


E não existe nela um símbolo especial d'Aque!e que a proferiu?

Certamente. Haveria uma lacuna grave entre os símbolos da

economia Moisaica se não houvesse um para refletir o Senhor

Jesus na atitude exata em que esta expressão O apresenta.

Contudo, o holocausto não O apresenta assim. Não há uma

só circunstância em relação com essa oferta que corresponda a

uma tal linguagem. Só a oferta de expiação do pecado oferece a

figura apropriada ao Senhor Jesus como Aquele que exalou esses

acentos de intensa agonia, porque só nela encontramos as

circunstâncias que evocaram tais acentos das profundezas da Sua

alma imaculada.

A sombra terrível da cruz, com a sua ignomínia, a sua

maldição e a sua exclusão da luz da face de Deus, passava pelo

Seu espírito e Ele não podia sequer contemplá-la sem exclamar:

"Se é possível passe de mim este cálice". Porém, apenas havia

pronunciado estas palavras, quando a Sua profunda submissão se

mostra nestas palavras: "faça-se a tua vontade". Que "cálice"

amargoso deve ter sido para arrancar de um coração

perfeitamente submisso as palavras "passe de mim"! Que perfeita

submissão deve ter havido para, em presença do cálice amargoso,

o coração ter exclamado "faça-se a tua vontade"!


A Imposição das Mãos: Identificação com a Vítima


Vamos considerar agora o ato típico da imposição das mãos.

Este ato era comum tanto ao holocausto como à oferta de expiação

do pecado; porém, no caso do primeiro identificava o oferente com

a oferta sem mancha; no caso do segundo implicava a

transferência do pecado do ofertante para a cabeça da oferenda.

Era assim no tipo; e, quando consideramos o Antítipo,

aprendemos uma lição da natureza mais consoladora e edificante

— uma verdade que, se fosse mais bem compreendida e

plenamente realizada, proporcionaria uma paz muito mais

constante do que aquela que geralmente se goza.

Qual é, pois, a doutrina exposta no ato da imposição das

mãos? É esta: Cristo foi feito pecado por nós para que nós

fôssemos feitos justiça de Deus (2 Co 5:21). Ele tomou a nossa

posição com todas as suas conseqüências para que nós

pudéssemos ter a Sua com todas as suas conseqüências. Foi

tratado como pecado sobre a cruz para que nós pudéssemos ser

tratados como justiça na presença da santidade infinita. Foi

retirado da presença de Deus porque tinha pecado sobre Si, por

imputação, para que nós pudéssemos ser recebidos na casa de

Deus e em Seu seio, porque, por imputação, temos uma perfeita

justiça. Teve de suportar a invisibilidade do semblante de Deus

para que nós pudéssemos gozar da luz desse semblante. Teve de

passar três horas de trevas para que nós pudéssemos andar na

luz eterna. Foi desamparado por Deus por um tempo, para que

nós pudéssemos gozar a Sua presença para sempre. Tudo que nos

era imposto, como pecadores arruinados, foi posto sobre Si para

que tudo que Lhe era devido, como Realizador da redenção,

pudesse ser nosso. Tudo foi contra Si quando foi pendurado no

madeiro de maldição para que nada pudesse haver contra nós.

Identificou-se conosco, na realidade da morte e do juízo, para que

nós pudéssemos ser identificados consigo, na realidade da vida e

justiça. Bebeu o cálice da ira — o cálice do terror— para que nós

pudéssemos beber o cálice da salvação — o cálice do favor infinito.

Foi tratado conforme os nossos méritos para que nós pudéssemos

ser tratados segundo os Seus.

Tal é a maravilhosa verdade ilustrada pelo ato cerimonial da

imposição das mãos. Depois de o adorador ter posto a sua mão

sobre a cabeça do holocausto, já não se tratava da questão do que

ele era ou do que merecia e tornava-se inteiramente uma questão

do que a oferta era segundo o juízo do Senhor. Se a oferta era sem

mancha, o oferente era-o também; se a oferta era aceite também o

era o oferente. Estavam perfeitamente identificados. O ato de

impor as mãos constituía-os em um aos olhos de Deus. Ele via o

oferente por meio da oferta. Era assim no caso do holocausto.

Mas na oferta de expiação do pecado, quando o oferente

tinha posto a sua mão sobre a cabeça da oferta, tornava-se uma

questão de saber o que o oferente era e o que ele merecia. A oferta

era tratada segundo os méritos do ofertante. Eram perfeitamente

identificados. O ato de impor as mãos constituía-os em um, no

parecer de Deus. O pecado do ofertante era tratado na oferta de

expiação do pecado; a pessoa do oferente era aceite no holocausto.

Isto fazia uma grande diferença. Por isso, embora o ato de impor

as mãos fosse comum às duas figuras, e, além disso, fosse

expressivo, em ambos os casos de identificação, todavia as

conseqüências eram tão diferentes quanto o podiam ser. O justo

tratado como injusto; o injusto aceito no justo."... Cristo padeceu

uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a

Deus" (1 Pe 3:18). Esta é a doutrina.

Os nossos pecados levaram Cristo à cruz; mas Ele leva-nos a

Deus. E se Ele nos leva a Deus é por Sua própria aceitabilidade

como ressuscitado de entre os mortos, havendo tirado os nossos

pecados, segundo a perfeição da Sua obra. Ele levou os nossos

pecados para longe do santuário de Deus a fim de nos poder

trazer perto, até mesmo ao lugar santíssimo, em inteira confiança

de coração, tendo a consciência purificada de toda a mancha de

pecado pelo Seu precioso sangue.

Bem, quanto mais compararmos todos os pormenores do

holocausto e da oferta de expiação do pecado, tanto mais

claramente compreenderemos a verdade do que tem sido

acentuado a respeito do ato de impor as mãos e dos seus

resultados, em ambos os casos.

No capítulo primeiro deste volume notamos o fato que "os

filhos de Arão" são introduzidos no holocausto, mas não na oferta

de expiação do pecado. Como sacerdotes tinham o privilégio de

permanecer em redor do altar e de contemplar a chama de um

sacrifício aceitável subindo para o Senhor. Porém na oferta de

expiação do pecado, em seu aspecto primário, tratava-se de uma

questão de julgamento solene do pecado, e não de adoração ou

admiração sacerdotal; e, portanto, os filhos de Arão não aparecem.

É como pecadores convictos que temos de tratar em relação a

Cristo como o Antítipo da oferta de expiação do pecado. É como

sacerdotes em adoração, vestidos com as vestes da salvação, que

contemplamos Cristo como o Antítipo do holocausto.

Demais, o leitor poderá notar que o holocausto era

"esfolado", enquanto que a oferta de expiação do pecado não o era.

O holocausto era "partido em pedaços", mas a oferta de expiação

do pecado não o era. A "fressura e as pernas" no holocausto eram

"lavadas com água", cujo ato era inteiramente omitido na oferta de

expiação do pecado. Finalmente, o holocausto era queimado, em

cima do altar; a oferta de expiação do pecado era queimada fora

do arraial.

São pontos de grande diferença provenientes do caráter

distinto das oferendas. Sabemos que não há nada na Palavra de

Deus sem o seu significado específico; e todo o estudioso

inteligente e atento das Escrituras notará estes pontos de

diferença; e, notando-os, procurará, naturalmente, determinara

sua verdadeira importância. Pode haver

ignorância do seu valor;


mão não deveria haver

indiferença, a seu respeito. Em qualquer


parte das páginas inspiradas, sobretudo uma tão rica como aquela

que temos perante nós, omitir um simples ponto seria desonrar o

Autor Divino e privar as nossas próprias almas de muito proveito.

Deveríamo-nos debruçar sobre o mais simples pormenor, já para

louvar a Deus pela sabedoria nelas revelada, por Ele, já para

confessar a nossa própria ignorância deles. Desprezá-los, com

espírito de indiferença, é supor que o Espírito Santo tomou o

incômodo de escrever coisas que não julgamos dignas de intentar

compreender. Nenhum cristão reto deveria supor tal coisa. Se o

Espírito, escrevendo sobre a ordenação da oferta de expiação do

pecado, omitiu os diversos ritos a que nos referimos — ritos que

ocupam um lugar proeminente na ordenação do holocausto —

deve haver seguramente alguma razão para isso e qualquer

propósito importante em o fazer. Devemos procurar compreender

estes pontos; e, sem dúvida, eles resultam do propósito especial

da mente divina em cada oferta. A oferta de expiação do pecado

mostra aquele aspecto da obra de Cristo em que O vemos tomando

judicialmente o lugar que nos pertencia moralmente. Por esta

razão não podemos procurar essa expressão intensa daquilo que

Ele era em todos os motivos secretos de ação, patenteados no ato

simbólico de "esfolar" o holocausto. Tampouco podia existir essa

ampla exibição do que Ele era, não apenas como um todo, mas

nos mais minuciosos traços do Seu caráter, conforme se vê no ato

de partir o holocausto "em pedaços". Nem, ainda, podia haver

aquela manifestação do que Ele era pessoal, prática e

intrinsecamente, como se mostra no ato significativo de

lavar a


fressura e as pernas do holocausto com água.

Todas estas coisas pertenciam à fase de nosso bendito

Senhor no holocausto, e só a essa, porque nela vêmo-Lo

oferecendo-Se à vista, ao coração, e ao altar de Jeová, sem

imputação de pecado, de ira ou de juízo. Na oferta de expiação do

pecado, pelo contrário, em vez da idéia proeminente daquilo que

Cristo é, temos o que é o pecado. Em vez do alto apreço de Jesus,

encontramos o ódio do pecado. No holocausto, visto que é Cristo

oferecendo-se a Si mesmo a Deus e sendo aceito por Ele, vemos

que se faz tudo para mostrar o que Ele era em todos os aspectos.

Na oferta de expiação do pecado, visto tratar-se do pecado julgado

por Deus, dá-se um caso precisamente oposto. Tudo isto é tão

claro que não exige esforço da mente para o compreender. Deriva

naturalmente do caráter distinto do símbolo.


A Gordura da Vítima:

Imagem da Excelência de Cristo em sua Morte pelo Pecado


Contudo, embora o objetivo principal na oferta de expiação

do pecado seja mostrar o que Cristo se fez por nós, e não o que Ele

era em Si mesmo, há um rito em relação a este símbolo que revela

claramente a Sua aceitabilidade pessoal por Jeová. Este rito é

estabelecido nas seguintes palavras: "E toda a gordura do novilho

da expiação tirará dele: a gordura que cobre a fressura, e toda a

gordura que está sobre a fressura, e os dois rins, e a gordura que

está sobre eles, que está sobre as tripas, e o redenho de sobre o

fígado, com os rins, tirará, como se tira do boi do sacrifício

pacífico; e o sacerdote a queimará sobre o altar do holocausto"

(versículos 8-10). Assim, a excelência intrínseca de Cristo não é

omitida, nem mesmo na oferta de expiação do pecado. A gordura

queimada sobre o altar é a expressão adequada da apreciação

divina do valor da pessoa de Cristo, qualquer que fosse o lugar

que, em perfeita graça, tomasse, em nosso favor ou em nosso

lugar; foi feito pecado por nós, e a oferta de expiação é a sombra

que O apresenta sobre este aspecto. Porém, visto que era o Senhor

Jesus Cristo, o eleito de Deus, o Santo, o Seu Filho puro,

imaculado e eterno que foi feito pecado, a gordura da oferta de

expiação era portanto queimada sobre o altar, como material

próprio para o fogo que era a exibição da santidade divina.

Mas até mesmo neste ponto vemos o contraste entre a oferta

de expiação e o holocausto. No caso do último, não era apenas a

gordura, mas toda a oferta que era queimada sobre o altar, porque

representava Cristo sem relação alguma com o pecado. No caso da

primeira, não havia nada a queimar sobre o altar senão a gordura,

porque se tratava de uma questão de levar o pecado, embora

Cristo fosse o portador. A glória divina da pessoa de Cristo brilha

até mesmo por entre as trevas espessas desse madeiro de

maldição a que consentiu que O pregassem como maldição por

nós. A aversão daquilo com que, no exercício do amor divino, Ele

ligou a Sua bendita pessoa, na cruz, não podia evitar que o cheiro

suave do Seu valor subisse até ao trono de Deus.

Vemos assim a revelação do profundo mistério da face de

Deus se ter ocultado daquilo que Cristo se

fez, e o modo como o


coração de Deus se deleitou no que Cristo era. É isto que dá um

encanto peculiar à oferta de expiação. Os raios brilhantes da

glória pessoal de Cristo replandecendo por entre a terrível

escuridão do Calvário, o Seu valor pessoal destacando-se nas

próprias profundidades da Sua humilhação, o deleite de Deus

n'Aquele de quem havia ocultado a Sua face, em justificação da

Sua justiça inflexível, tudo isto é mostrado no fato de a gordura da

oferta de expiação do pecado ser queimada sobre o altar.


O Corpo da Vítima é Queimado fora do Arraial


Havendo assim procurado indicar, em primeiro lugar, o que

se fazia com "o sangue", e, em segundo lugar, o que se fazia da

"gordura", temos agora de considerar o que se fazia da "carne".

"Mas o couro do novilho e

toda a sua carne..., todo aquele novilho,


levará fora do arraial a um lugar limpo, onde se lança a cinza e o

queimará com fogo sobre a lenha; onde se lança a cinza se

queimará" (versículos 11,12). Neste fato temos a principal fase da

oferta de expiação — aquela que a distingue tanto do holocausto

como do sacrifício pacífico. A sua carne não era queimada sobre o

altar, como no holocausto; nem tampouco era comida pelo

sacerdote ou o adorador, como no sacrifício pacífico. Era

queimada inteiramente fora do arraial (

1). "Porém nenhuma oferta


pela expiação de pecado, cujo sangue se traz à tenda da

congregação, para expiar no santuário, se comerá; no fogo será

queimada" (Lv 6:30). "E, por isso, também Jesus, para santificar o

povo pelo seu próprio sangue, padeceu fora da porta"(Hbl3:12).


Uma Aplicação Prática para o Culto


Comparando o que se fazia do "sangue" com o que se fazia

da "carne" ou do corpo do sacrifício, duas ordens de verdade se

apresentam aos nossos olhos, isto é, o culto e o discipulado. O

sangue que era levado ao santuário é o fundamento da primeira.

O corpo queimado fora do arraial é a base da segunda. Antes que

possamos adorar, em paz de consciência e tranqüilidade de

coração, temos de saber, com base na autoridade da Palavra e

pelo poder do Espírito, que a questão do pecado foi inteiramente

resolvida para sempre pelo sangue da oferta divina de expiação

que o Seu sangue foi espargido com perfeição perante o Senhor —

que todas as exigências de Deus e todas as nossas necessidades,

como pecadores culpados e arruinados, foram satisfeitas para

sempre. Este conhecimento dá perfeita paz; e, no gozo desta paz,

adoramos a Deus. Quando um Israelita da antigüidade havia

oferecido a sua oferta de expiação, a sua consciência ficava em

paz, tanto quanto esse sacrifício era capaz de dar paz. E verdade

que era uma paz temporária, sendo o fruto de um sacrifício

temporário. Porém, é claro que qualquer que fosse o gênero de paz

que o sacrifício podia proporcionar, o oferente podia desfrutá-la.

________________


(
1) O texto diz respeito unicamente à expiação de pecados em que o

sangue era trazido para dentro do santuário. Havia ofertas pelo pecado das

quais Arão e seus filhos participavam (veja-se Lv 6:26, 29; Nm 18:9-10).


Portanto, sendo o nosso sacrifício divino e eterno, a nossa

paz é também divina e eterna. Assim como é o sacrifício tal é o

descanso baseado nele. Um judeu nunca poderia ter uma

consciência eternamente purificada, simplesmente porque não

tinha um sacrifício eternamente eficaz. Podia, de certo modo, ter a

sua consciência purificada por um dia, um mês ou um ano; mas

não podia tê-la purificada para sempre. "Mas, vindo Cristo, o

sumo sacerdote dos bens futuros, por um maior e mais perfeito

tabernáculo, não feito por mãos, isto é, não desta criação, nem por

sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou

uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção.

Porque se o sangue dos touros e bodes e a cinza de uma novilha,

esparzida sobre os imundos, os santificam, quanto à purificação

da carne, quanto mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito

eterno, se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará a

vossa consciência das obras mortas, para servirdes ao Deus

vivo?"(Hb9:ll-14).

Temos aqui a exposição plena e explícita da doutrina. O

sangue de bodes e bezerros proporcionava uma redenção

temporária; o sangue de Cristo proporciona eterna redenção. A

primeira purificava a carne exteriormente; a última purificava

intimamente. Aquela purificava a carne por algum tempo; esta

purificava a consciência para sempre. A questão anda toda à roda,

não do caráter ou condição do ofertante, mas, do valor do

sacrifício. A questão não é, de modo algum, se um cristão é

melhor do que um judeu, mas se o sangue de Cristo é melhor do

que o sangue de um novilho. Seguramente, é melhor. Melhor, até

que ponto?? Infinitamente melhor. O Filho de Deus comunica toda

a dignidade da Sua pessoa divina ao sacrifício que ofereceu; e, se o

sangue de um novilho purificava a carne por um ano, "quanto

mais o sangue" do Filho de Deus purificará a consciência para

sempre"? Se aquele

tirava algum pecado, quanto mais este tirará o


pecado

1?


Bem, por que razão sentia a alma de um judeu descanso,

por algum tempo, depois de haver oferecido o seu sacrifício? Como

sabia ele que o pecado especial pelo qual havia trazido o seu

sacrifício estava perdoado

1? Porque Deus havia dito "E ser-lhe-á


perdoado". A sua paz de coração, a respeito desse pecado

particular, repousava sobre o testemunho do Deus de Israel e o

sangue da vítima. Assim agora a paz do crente a respeito de

"TODO O PECADO" baseia-se sobre a autoridade da Palavra de

Deus e "o precioso sangue de Cristo". Se um judeu havia pecado, e

descuidava fazer a sua oferta de expiação tinha de ser "cortado de

entre o seu povo"; porém quando tomava o seu lugar como

pecador—quando punha as suas mãos sobre a cabeça da oferta de

expiação, então a oferta era "cortada em pedaços" em vez dele, e

ele era livre. A oferta era tratada como merecia o oferente; e, por

isso, não saber que o seu pecado era perdoado, seria fazer de

Deus mentiroso e tratar o sangue da oferta de expiação

divinamente indicada como nula.

E se isto era verdadeiro quanto àquele que só podia

descansar sobre o sangue de um bode, "quanto mais" se aplica

àquele que tem o precioso sangue de Cristo para descansara O

crente vê em Cristo Aquele que foi julgado por todo o seu pecado—

Aquele que, quando foi pendurado na cruz, suportou todo o fardo

do seu pecado — Aquele que, havendo-Se tornado responsável por

esse pecado, não podia estar onde agora está, se toda a questão

do pecado não tivesse sido liquidada segundo todas as exigências

da justiça divina. Cristo tomou de tal forma o lugar do crente na

cruz — de tal maneira o crente se identificou com Ele — de tal

forma Lhe foi imputado todo o pecado do crente, ali e então, que

toda a questão da culpabilidade do crente — todo o pensamento

da sua culpa —, toda a idéia de exposição à ira ou ao juízo está

eternamente posta de parte ('). Tudo foi resolvido na cruz entre a

Justiça Divina e a Vítima Imaculada. E agora o crente está tão

intimamente identificado com Cristo no trono, como Cristo Se

identificou com ele na cruz.

A justiça não tem nenhuma acusação a fazer ao crente,

porque não tem acusação alguma a fazer contra Cristo. A questão

está assim liquidada, para sempre. Se pudesse apresentar-se uma

acusação contra o crente, seria pôr em dúvida a realidade da

identificação de Cristo com ele na cruz e a perfeição da obra de

Cristo a seu favor. Se quando o adorador da antigüidade

regressava a sua casa, depois de haver oferecido a sua expiação,

alguém o tivesse acusado do mesmo pecado pelo qual havia sido

derramado o sangue da vítima do seu sacrifício, qual teria sido a

sua resposta? Só poderia ser esta:


Cristo: O Antítipo


O pecado foi removido pelo sangue da vítima, e Jeová disse

estas palavras: "Ser-lhe-á perdoado". A vítima havia morrido em

lugar dele; e ele vivia em lugar da vítima.

Tal era o tipo. E, quanto ao antítipo, quando o olhar da fé

descansa sobre Cristo como o sacrifício de expiação, vê-O como

Aquele que, havendo tomado uma perfeita vida humana, deu essa

vida na cruz, porque o pecado foi ali e então ligado por imputação

com ela. Mas vê-O também como Aquele que, tendo em Si mesmo

o poder da vida divina e eterna, saiu por meio dele do sepulcro e

agora comunica esta Sua vida de ressurreição—divina e eterna —

a todos os que crêem no Seu nome. O pecado desapareceu, porque

a vida a que foi ligado desapareceu. E agora em lugar da vida a

que fora ligado o pecado, todos os verdadeiros crentes possuem a

vida a que está unida a Justiça.

_______________


(
1) Temos um exemplo notavelmente belo na precisão divina das

Escrituras em 2 Coríntios 5:21: "Aquele que não conheceu pecado, o fez pecado

por nós para que nele fôssemos feitos justiça de Deus". O significado do

vocábulo "fez" não é, como poderia supor-se, o mesmo em ambas as cláusulas

desta passagem.


A questão do pecado nunca poderá ser levantada quanto à

vida ressuscitada e vitoriosa de Cristo; mas é esta a vida que os

crentes possuem. Não há outra vida. Tudo fora dela é morte,

porque fora dela tudo está sob o poder do pecado. "Aquele que tem

o Filho tem a vida"; e aquele que tem a vida tem a justiça também.

As duas coisas são inseparáveis, porque Cristo é tanto uma como

a outra. Se o juízo e morte de Cristo, na cruz, foram realidades,

então a vida e a justiça do crente são realidades. Se a imputação

do pecado foi uma realidade para Cristo, a imputação da justiça

ao crente é uma realidade. São tão reais uma como a outra,

porque se não fosse assim Cristo teria morrido em vão. O

verdadeiro e incontestável fundamento de paz é este: que as

exigências da natureza de Deus, quanto ao pecado, foram perfeitamente

satisfeitas. A morte de Jesus satisfê-las todas e satisfê-las

para sempre. Qual é a prova disto para a consciência

despertada"?- O grande fato da ressurreição. Um Cristo

ressuscitado proclama plena libertação do crente —a sua perfeita

absolvição de toda a demanda possível. "O qual por nossos

pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação" (Rm

4:25). Para um crente não saber que o seu pecado foi tirado, e

tirado para sempre, é fazer pouco caso do sangue da sua divina

oferta de expiação. É negar que se fez perfeita apresentação— a

aspersão do sangue sete vezes perante o Senhor.


A nossa Posição é Resultado da Obra na Cruz


E agora, antes de deixar este ponto fundamental que nos

tem ocupado, desejo fazer um apelo sincero e solene ao coração e

à consciência do leitor. Permita que lhe pergunte, prezado amigo,

haveis sido induzido a descansar sobre este santo e feliz

fundamentou Sabeis que a questão do vosso pecado foi para

sempre arrumada"? Haveis posto, mediante a fé, a vossa mão

sobre a cabeça da vítima do sacrifício de expiação

1? Haveis visto o


sangue expiatório de Jesus tirar toda a vossa culpa e arrojá-la às

águas do esquecimento de Deus?

A justiça Divina tem ainda alguma coisa contra vós? Estais

livre do pavor inexprimível de uma consciência culpada ? Não vos

entregueis ao repouso, rogo-vos, antes de poderdes dar uma

resposta feliz a estas interrogações. Ficai certo de que é privilégio

ditoso até do mais fraco crente em Cristo regozijar-se na plena e

eterna remissão dos seus pecados, com base numa expiação

efetuada. Por isso, se alguém ensina outra coisa, rebaixa o

sacrifício de Cristo ao nível de "bodes e bezerros". Se não podemos

saber que os nossos pecados estão perdoados, então onde estão as

boas novas do evangelho? Um cristão não está em melhores

circunstâncias, quanto ao sacrifício de expiação, do que um

judeu? Este tinha o privilégio de saber que os seus interesses

estavam assegurados por um ano por meio do sangue de um

sacrifício anual. Aquele não pode ter nenhuma certeza? Decerto

que pode. Pois bem, se há alguma certeza tem de ser eterna, visto

que descansa sobre um sacrifício eterno.

Isto e isto somente é o fundamento de adoração. A

segurança perfeita do perdão do pecado produz não um espírito de

confiança própria, mas um espírito de louvor, gratidão e adoração.

Produz, não um espírito de complacência própria, mas de gratidão

pela complacência de Cristo, que, bendito seja Deus, é o espírito

que há - de caracterizar os remidos por toda a eternidade. Não nos

induz alguém a fazer pouco caso do pecado, mas a pensar na

graça que o perdoou perfeitamente, do sangue que o cancelou

inteiramente. É impossível que alguém possa contemplar a cruz —

possa ver o lugar que Cristo tomou e meditar nos sofrimentos —, e

ponderar sobre essas três horas terríveis de trevas e, ao mesmo

tempo, olhar o pecado como coisa sem importância. Quando todas

estas coisas são compreendidas, no poder do Espírito Santo,

devem seguir-se dois resultados, a saber, horror do pecado, sob

todas as suas formas, e amor verdadeiro por Cristo, o Seu povo e a

Sua causa.


Saiamos a Ele fora do Arraial


Consideremos agora o que era feito da "carne" ou "corpo" do

sacrifício, no qual, como já foi acentuado, encontramos o

verdadeiro fundamento de discipulado. "Todo aquele novilho,

levará

fora do arraial, a um lugar limpo, onde se lança a cinza, e o


queimará com fogo" (Lv 4:12). Este ato deve ser encarado sob um

duplo aspecto: primeiro, como expressão do lugar que o Senhor

Jesus tomou por nós, levando o pecado; depois, como expressão

do lugar para onde foi lançado por um mundo que O havia

rejeitado.

E para este último ponto que pretendo chamar a atenção do

leitor.

O uso que o apóstolo faz em Hebreus 13:13 do fato de Cristo

haver padecido "fora da porta" é profundamente prático. "Saiamos,

pois,

a ele fora do arraial, levando o seu vitupério". Se os


sofrimentos de Cristo nos têm assegurado uma entrada no céu, o

lugar onde Ele sofreu representa a nossa rejeição pela terra. A sua

morte tem-nos proporcionado uma cidade nas alturas; o lugar

onde Ele morreu priva-nos de uma cidade aqui ('). Ele "padeceu

fora da porta", e, fazendo-o, pôs de lado Jerusalém como centro

das operações divinas. Não existe aquilo que poderíamos chamar

um lugar consagrado na Terra. Cristo tomou o Seu lugar, como o

Sofredor, fora dos limites da religião deste mundo — da sua

política e tudo que lhe pertence. O mundo aborreceu-O e lançou-O

fora. Portanto, a Escritura diz "Saiamos". Este é o lema quanto a

tudo que os homens levantem como "arraial" não obstante o que

esse arraial possa ser. Se os homens levantarem uma "cidade

santa" devemos procurar um Cristo rejeitado" fora da porta". Se os

homens levantarem um arraial religioso, qualquer que seja o nome

que se lhe queira dar, "saiamos" dele a fim de encontrarmos o

Cristo rejeitado. Não é que a cega superstição não possa escavar

as ruínas de Jerusalém para nelas encontrar as relíquias de

Cristo. Certamente que o fará e já o tem feito. Fingirá ter

encontrado e honrado o sítio da Sua cruz e do Seu sepulcro. A

cobiça da natureza, aproveitando-se da superstição da natureza,

também tem levado a efeito durante séculos um tráfego lucrativo,

com o astuto pretexto de prestar honra aos chamados lugares

sagrados da antigüidade. Porém um simples raio de luz da

lâmpada da Revelação celestial é suficiente para nos autorizar a

dizer que é preciso

sair de todas estas coisas a fim de encontrar e


gozar comunhão com um Cristo rejeitado.


_________________

(
1) A Epístola aos Efésios apresenta um aspecto muito elevado da Igreja

nas alturas, não meramente como uma prerrogativa, mas também quanto ao

método. O direito é certamente o sangue; mas o método é assim estabelecido: "

Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos

amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente

com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com ele, e nos

fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo" (Ef 2:4-6).


Todavia, o leitor precisa recordar que o convite

impressionante de "sair" implica muito mais do que o alijamento

dos absurdos crassos de uma superstição ignorante ou as

intenções de uma astuta cobiça. Há muitos que podem falar

poderosa e eloqüentemente em desabono destas coisas, e que

estão muito longe, na verdade, de obedecer à notificação

apostólica. Quando os homens levantam um"arraial" e se reúnem

em redor de um pendão embelezado com qualquer dogma

importante de verdade ou alguma instituição valiosa — quando

podem recorrer a um credo ortodoxo, a um plano de doutrina

avançado e iluminado ou a um esplêndido ritual capaz de

satisfazer as mais ardentes aspirações da natureza devocional do

homem — quando alguma ou todas estas coisas existem é

necessária muita inteligência espiritual para se discernir a força

real e própria aplicação da palavra " Saiamos" e muita energia

espiritual e decisão para se atuar de conformidade com ela.

Contudo, deve atuar-se de conformidade com ela, porque é

absolutamente certo que a atmosfera de um arraial, se ja qual for

o seu fundamento ou padrão, é destrutivo da comunhão pessoal

com Cristo rejeitado; e nenhuma vantagem da chamada religião

poderá jamais substituir a perda dessa comunhão. É propensão

dos nossos corações caírem em formas fixadas. Este tem sido

sempre o caso com a igreja professa.

Estas formas podem ter sido produzidas por verdadeiro

poder. Podem ter resultado de graça positiva do Espírito de Deus.

Há a tentação de fixar formas logo que o espírito e poder deixam

de existir. Isto é, em princípio, estabelecer um arraial.

O sistema judeu podia vangloriar-se da sua origem divina.

Um judeu podia apontar vitoriosamente para o templo, com o seu

sistema esplêndido de culto, o seu sacerdócio, os seus sacrifícios,

todo o seu equipamento, e mostrar que tudo havia sido dado pelo

Deus de Israel. Podia citar o capítulo e o verso, como nós

diríamos, de tudo que se relacionava com o sistema com que ele

estava ligado. Onde está o sistema, antigo, medieval ou moderno,

que possa apresentar tão elevadas e poderosas pretensões ou

descer até ao coração com tal peso de autoridade? E contudo a

ordem era "SAIAMOS".

Este assunto é profundamente solene, e diz-nos respeito a

todos, porque somos todos propensos e esquivarmo-nos da

comunhão com Cristo para cairmos na rotina morta. Daí o poder

prático das palavras, "saiamos", pois

a ele.


Não é SAIR de um sistema para outro — de uma ordem de

opiniões para outra ou de um grupo de pessoas para outro. Não!

Mas sair de tudo que merece a designação de um arraial para


Aquele

que "padeceu fora do arraial".


O Senhor Jesus está tão fora da porta agora como quando

padeceu ali há dezoito séculos. O que foi que o pôs fora da portai

"O mundo religioso" desse tempo: e o mundo religioso desse tempo

é, em espírito e princípio, o mundo religioso deste tempo. O

mundo é ainda o mundo. "Não há nada novo debaixo do sol".

Cristo e o mundo não são um. O mundo cobriu-se com a capa do

cristianismo; porém fê-lo para que o seu ódio contra Cristo possa

desenvolver-se em formas implacáveis. Não nos enganemos. Se

andarmos com um Cristo rejeitado, teremos de ser um povo

rejeitado. Se o nosso Mestre" padeceu

fora do arraial", nós não


podemos esperar reinar

dentro do arraial. Se andarmos nas Suas


pisadas, aonde nos conduzirão elas? Não, seguramente, às altas

posições deste mundo sem Deus e sem Cristo.

Ele é um Cristo desprezado, um Cristo rejeitado, um Cristo

fora do arraial. Oh, saiamos, pois, a Ele, levando o Seu vitupério.

Não nos deixemos envolver com a luz do favor deste mundo, visto

que crucificou e ainda aborrece com ódio implacável o Ente amado

a quem devemos tudo quanto possuímos no presente e na

eternidade, e que nos ama com um amor que as muitas águas não

poderiam apagar. Não aceitemos, quer direta quer indiretamente,

aquilo que se cobre com o Seu nome sagrado, mas que, na

realidade, odeia os

Seus caminhos, odeia a Sua verdade e odeia a simples

menção do Seu advento. Sejamos fiéis ao nosso Senhor ausente.

Vivamos para Aquele que morreu por nós.

Enquanto as nossas consciências repousam sobre o Seu

sangue, que os afetos dos nossos corações se enlacem em redor da

Sua pessoa; de sorte que a nossa separação "deste presente século

mau" não seja meramente um coro de princípios frios, mas uma

separação afetuosa porque o objeto das nossas afeições não se

encontra aqui. Que o Senhor nos liberte da influência desse

egoísmo consagrado e prudente, tão comum no tempo presente,

que não pode estar sem religião, mas que é inimigo da cruz de

Cristo. O que nós necessitamos, para podermos resistir com êxito

a essa forma terrível de mal, não são formas de ver peculiares, ou

princípios especiais ou teorias singulares ou uma fria exatidão

intelectual. Necessitamos de uma profunda devoção pela pessoa

do Filho de Deus; uma inteira consagração de nós próprios, de

alma, corpo e espírito ao Seu serviço; e de um ardente desejo do

Seu glorioso advento. Estas são, prezado leitor, as necessidades

especiais dos tempos em que vivemos. Não quererá, portanto,

unir-se, do profundo do seu coração, ao grito: Oh Senhor, vivifica

a tua obra! Completa o número dos teus eleitos! Apressa o teu

reino, "Vem, Senhor Jesus"!

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