Por Samuel Câmara - Em Artigo, Destaques - 20/mai/2012
Na Roma republicana, os mistérios anuais da “boa deusa”, que
somente mulheres podiam ver, tinham lugar na residência oficial do ditador
Júlio César, sob a presidência de sua esposa Pompeia. Um jovem nobre devasso,
de nome Publius Clodius compareceu à reunião disfarçado de mulher. Parecia que
ele tentava um caso com Pompeia, mas é possível que tivesse ido apenas para
satisfazer sua curiosidade. Publius foi reconhecido e o resultado se tornou dos
mais escandalosos, porque os senadores da comissão de inquérito pensavam que,
por fim, poderiam descobrir o que suas esposas faziam nesse festival.
César divorciou-se de Pompeia imediatamente e mandou-a de
volta para sua família sem explicação nem desculpa, como era direito de todo
marido romano. Mas perante a comissão senatorial ele protestou que não havia
provas a dar, pois naquela noite cerimonial estivera ausente de casa, como
qualquer homem deveria estar. Um senador perguntou-lhe por que, nesse caso, se
divorciara de sua esposa. E César deu sua célebre resposta: “À mulher de César
não basta ser honesta, é preciso também parecer honesta”.
Para César, no mundo das relações públicas, era necessário
evitar a aparência do mal, pois esta, quando estabelecida, poderia causar muito
maior dano que o próprio mal. A razão é simples. O mal, uma vez ocorrido, é um
fato, fala por si só, por mais abjeto e danoso que seja. A aparência do mal,
por ser apenas uma miragem, pode dar ênfase a várias interpretações e
mexericos. Assim, portanto, não bastava apenas ser, era preciso também parecer;
e uma coisa não devia andar sem a outra.
O problema da relação entre ser e parecer, no entanto, tem
uma outra faceta, igualmente importante de ser notada. Digamos, é o outro lado
da moeda. Isto acontece quando o que se aparenta ser é uma coisa totalmente
diversa do que se é realmente. É o “efeito denorex”, que “parece, mas não é”.
Por exemplo, um político corrupto contumaz, nas mãos de um marqueteiro, tenta
parecer um santo e salvador da pátria.
Quanto ao primeiro caso, há inegavelmente um sem número de
cidadãos que levam a vida de modo correto, evitam a todo custo a aparência do
mal, tentam viver de um modo socialmente impecável. Essas pessoas, em geral,
não são notícia; vivem na discrição do anonimato. Na outra ponta, lugar comum
na mídia, estão aqueles que vivem uma coisa em privado, mas tentam nos fazer
crer em outra em público.
O mundo político brasileiro está cheio de exemplos dos que
dão mais valor à aparência que ao fato do ser. Uma candidata a prefeita, numa
eleição, chamou um candidato de nefasto. Na eleição seguinte, por estar em
posição desfavorável, se aliou ao mesmo. Bem, se nefasto fosse um elogio, não haveria
o que questionar. Mas não é. Uma pessoa nefasta é alguém “trágico, sinistro, de
mau agouro; é quem causa desgraça”. Assim também, partidos políticos
historicamente antagônicos, nos últimos tempos, costumam se aliar para tirar
vantagens eleitorais momentâneas; ou fazem acordos espúrios em troca de cargos.
As Comissões Parlamentares de Inquérito (CPI), outrora
recheadas de credibilidade, carregam também o seu quinhão de desconfiança.
Embora não tenha sido uma criação tupiniquim, o instrumento da CPI teve aqui um
largo aprimoramento institucional. Ajudou a derrubar um presidente acusado de
corrupção, ajudou na limpeza do Congresso de deputados e senadores envolvidos
em falcatruas orçamentárias. Agora, porém, parece servir a alguns parlamentares
para fins unicamente de defender interesses próprios, numa “cachoeira” de
chantagens, achaques, intimidações, denuncismo, em vez de continuarem a
defender a causa pública.
Uma instituição que se diz séria precisa também parecer
séria. Por isso se utiliza do instrumento da publicidade para exaltar sua
imagem e produtos, quer sejam serviços ou bens de consumo. Quando a imagem não
corresponde ao produto, geralmente a própria instituição cai em descrédito.
É assim também com uma pessoa física. Seu maior produto é o
caráter. Quando suas atitudes não correspondem à imagem ostentada, a pessoa cai
em desonra. E quando insiste em parecer o que não é, cabe-lhe finalmente a
pecha de hipócrita.
Jesus se insurgiu muitas vezes duramente contra os fariseus
hipócritas, pois estes pareciam ser honestos e justos e santos, mas eram tão
somente “sepulcros caiados”. Ora, ainda hoje, a sociedade deplora a atitude de
líderes religiosos que pregam uma coisa e vivem outra. Espera-se que o produto
corresponda ao caráter, pois é fácil saber a diferença entre ser e parecer.
César tinha razão num ponto. De fato, não basta ser honesto,
é preciso também parecer honesto. O equilíbrio nesse quesito é que dá a um povo
dignidade e força para continuar lutando pelo bem, sem desvanecer ou entregar
os pontos, sem desanimar da virtude ou rir-se da honra, sem ter vergonha de ser
honesto ou deixar de lutar para ser e parecer verdadeiro.
Samuel Câmara
E-mail: samuelcamara@boasnovas.tv
Pastor da Assembleia
de Deus em Belém

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